sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 22 de março de 2012

Nunca é tarde demais

Ele era o médico da aldeia.
Sempre sozinho, sempre cabisbaixo.
Diziam as velhas quadrilheiras,
Que sabiam dele,
Desde outros tempos,
Que tinha tido um amor infeliz.

E que por isso,
Nunca sorria,
E que por isso
Ficava sentado ao fim das tardes,
Quando a clientela desaparecia,
Numa tristeza de gelar o coração,
Mudo e quieto esperando o tempo passar,
Com aquele ar de solidão, que sempre faz o meu coração gelar.

Tantas vezes o vi ali,
Que não me contive,
e no jeito descarado que sempre tive,
De chegar e meter conversa com o mundo,
Aproximei-me dele e disse-lhe “boa tarde”.
Falámos do tempo e das chuvas que tardavam.
E falámos das maleitas que afligiam a população naquele verão quente.
E falámos de como o sol é bonito
Quando se prepara para ir dormir
no cimo dos montes, com o seu pijama encarnado vestido.
E perguntei-lhe porque era ele assim triste…
Que desgosto o trazia tão aborrecido…

Tivera uma paixão tardia.
Um daqueles amores que quando não chegam aos vinte,
Dizia,
Chegam aos sessenta, e dobram o coração.
Amara uma mulher bonita,
Com idade para ser sua filha.

E depois?, perguntei,
Num medo terrível daquilo que já sabia…
Depois,
Ela era nova,
Depois ela era bonita
E ele tinha pouca saúde,
Pouco alento,
Outra vida.

E então?,
Insisti numa esperança teimosa que tenho sempre,
De poder mudar as histórias,
E de poder mudar o destino junto com as histórias.
E então deixei-a para trás.
E ela ficou-se? quis eu saber,
Não, não se ficou…
Respondeu a sorrir,
Um sorriso cheio de nostalgia,
Perdido numa rede de rugas tristes e sem alegria.
Não se ficou!
Correu atrás de mim tudo quanto podia,
E pediu,
E suplicou,
E mostrou que o amor não se media.

E mesmo assim?
E mesmo assim eu não conseguia…
Deixei-a,
Perdi-a.
E ela?
Fugi para tão longe,
Que ela não me via.
Ignorei-a tanto que nem dela mais sabia.
Não lhe telefonava, não lhe escrevia, nunca lhe respondia.
Ela ficou livre para ser feliz.
Ficou livre para escolher alguém mais novo,
Alguém mais contente e de bem com a vida,
Alguém melhor do que eu,
Alguém que a merecia.

E nunca mais?
Nunca mais.
Não tive coragem,
Não conseguia…
Mas chorava muito,
Quando me lembrava dela,
De nós,
Noite, dia…

Arrependido?
Muito!
Perdi a última oportunidade que tive para ser feliz.
Pensei que era o melhor a fazer,
Quis decidir, quis escolher,,
Não sabia…
O que não sabia?
Que mais vale ser feliz um dia
Que ser triste por todo o resto,
E passar o ultimo tempo da vida mergulhado em nostalgia..

E porque não vai atrás dela?
Agora?
Sim!
Com a idade que tenho?
Não há idade para quem se ama…
Era o que ela me dizia,
mas tantos anos depois…
Pegue no seu carro,
Vá até ela…
Deve isso á si próprio
A todo este tempo sem fim de solidão.
Deve-lho a ela,
E a todas as lágrimas que ela deve ter chorado,
Incompreendida,
Sem perceber o porquê dessa complicação da vida!

E ele olhou-me,
Não como um velho cansado olha uma estranha inoportuna,
Olhou-me como um homem desesperado olha uma caneca de água fresca
Num deserto ensolarado,
Como se eu fosse um oásis abençoado…

E
Levantou-se.
Já não tão trôpego,
Já não tão curvado,
O rosto mais belo,
O olhar mais desassombrado.
Nem que seja a ultima coisa que faço?
Nem que seja!
Ainda que fosse,
Ainda assim valia…

No outro dia
Já toda a terra sabia.
O doutor não se via…
Nem o carro,
Nem o consultório abria…
Passadas semanas,
O meu telefone tocou.
Era ele,
Estava feliz!
Ela ainda o queria!

Se a vida lhes daria mais dois,
Se mais cinco,
Se mais vinte anos…
Não sabia.
Sabia que a tinha junto dele,
pertinho de si,
E que não se pode separar
Aquilo que o amor uniu, um dia.

            Porque é que até os melhores dos homens são assim, teimosos?

2 comentários:

  1. Gloria, adorei. So uma pessoa muito sensivel tem o condão de escrever algo tão belo. Bem Haja Gloria e obrigada por me ter dado a oportunidade ler. Beijinhos.

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  2. Obrigada, Fernanda Caseiro!Fico muito feliz por ter gostado!Bejinho muito grande para si!

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