sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 28 de abril de 2012

Eu sei que vais ter saudades minhas


Eu sei que um dia vais ter saudades minhas,
E vais ficar com pena do tempo que julgas que perdeste…
E vais querer voltar atrás para dizer tanta coisa que não disseste…

E vais-te lembrar de mim,
Vais recordar aonde íamos,
O que dizíamos,
As maluquices sem fim que fazíamos…

Vais recordar já com ternura,
Os planos que eu tecia,
Os castelos de ilusões que construía,
O mundo de fantasia em que eu vivia…

E eu sei que vais sentir saudades minhas.

E vais pensar que podias…
Que devias…
Que se tivesses feito…
Ou se tivesses dito
Doutra maneira,
A vida podia ter sido de outro jeito…

Não, não podia!

Não faço por mal…
Só não sei ser diferente.
Não sei ser como é toda a gente.
Eu ou sou fria, ou sou quente…
E mudo tão de repente,
Estou presente,
E logo a seguir ausente,
Assim…
Constantemente.

Pessoa nenhuma devia ter que viver com alguém assim.

Mas eu sei que vais sentir saudades minhas.

Sempre que ouvires rir mais alto,
Ou que escutares cantar sem motivo,
Ou que um soluço triste roçar de leve o teu ouvido…
Vais recordar
As vezes em que eu ria,
Solta, sem juízo.
Cantava, chorava, tudo junto, tudo sem motivo,
Sem razão, sem aviso…

Quando fores á praia e vires o mar,
Vais pensar em todas as vezes que eu te queria levar,
E tu não querias ir e ficavas a reclamar…
Não fiques triste!
Não faz mal,
Não eras obrigado a gostar!

Quando olhares fotografias antigas
Ou modernas,
Da minha terra bonita de além-mar,
Vais-te sentir culpado de não teres querido saber,
De nunca teres querido perguntar…
De não teres tido paciência para aprender
Nem escutar
As histórias de lá que eu te queria contar.
Não fiques triste,
A terra era minha,
Tu não tinhas que te importar.

Mas eu sei que vais sentir saudades minhas.

E até as minhas resmunguices,
As minhas tontas modernices,
As minhas ideias que tu achavas esquisitices…
Até essas te vão sorrir,
Te vão parecer maravilhas!
É mesmo assim, não te preocupes…
Tu não tinhas que ouvir tudo o que eu te disse…
A maior parte das coisas era de facto maluquice…

Vais querer ficar um bocadinho
Sentado comigo a meu lado.
E vais querer ter podido
Enxugar as lágrimas todas que eu tinha chorado.
E vais entender
Tudo o que eu te dizia quando não conseguia dizer.

Eu sei quais seriam as palavras que ias usar…
Não precisas de te preocupar,
Nem de procurar
Formas de te desculpar…
E sei com que força gostarias de me abraçar,
Pôr o braço á volta dos meus ombros,
E ficar
Perto de mim,
Só ficar.
Eu também sou assim…
Ás vezes tenho medo de mostrar…
Não te vás recriminar,
E não peças perdão,
Porque nada há para perdoar.

Eu sei que vais ter muitas saudades minhas.

E quando tiveres saudades,
É porque eu já não estou por cá,
Aonde me consigas chegar.
Já terei partido
Em paz
Ou em guerra,
No meu constante guerrear,
No meu constante pelejar.

No meu viver louco feito de lutar
Contra moinhos de vento que são gigantes
E que vivem comigo todos os instantes.
Que me fazem delirar,
Gozar,
Sonhar,
Mas que me fazem chorar,
Que passaram toda a vida a quererem-me levar.

Eu sei que vais ter saudades minhas.

Mas se me procurares,
Se me chamares,
Vais dar comigo em todos os caminhos
Que nós fizemos sozinhos.
E segue em paz,
Não podias ter sido melhor do que já és.

Aquele senhor lá de cima,
Que passa a vida zangado comigo
Deve ter adormecido
No dia em que te deu para mim.

Eu sei que vais ter saudades minhas.

Mas sei que gostas de mim.
Nunca ninguém teve muito jeito para me amar…
Porque haverias de ser o primeiro?
Nem meu pai, nem minha mãe,
Nem todos os homens que cheguei a abraçar…

Tu não és pai,
Não és mãe,
Nem amor dos que consegui alcançar…
És mais que tudo isso,
És tudo junto de uma só vez.
Meu afecto preferido,
Pedacinho de um mundo perdido,
Não fiques triste,
Meu filho querido.

Não sei como é lá, mas se eu poder, vou ficar por perto,
Mesmo que não consigas reparar…





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