sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 8 de abril de 2012

Menina que brinca com homens crescidos...


“Não passas de uma menina a brincar com homens crescidos!”
E nunca mais me esqueci disso.
Eu devia ter uns dezasseis anos,
Ele era um dos “homens crescidos”,
E estava zangado comigo.
Pareceu-lhe,
Como quase sempre parece
Aos homens crescidos da minha vida,
Que eu o queria
Que o estava a chamar.
Que o recebia
Se ele me viesse procurar.

E como tudo o que eu pretendia,
Era conversar,
Rir,
Passear,
Ele estava zangado.
E estava admirado!
E não percebia,
Porque é que eu havia de o deixar a salivar…
Se depois fugia,
E dizia que não queria,
E pedia para largar.

Só porque eu era simpática,
E sorridente…
E não o escorraçava quando ele queria conversar.
Só porque eu era bonita,
Parecia sempre contente,
E ficava bem quando andava ao seu lado na rua,
Presumia que eu queria ser sua.
Já pensava que me podia beijar,
Já acreditava que eu me deixava agarrar…
Só porque eu sorria…
Só porque eu o ouvia,
Só porque eu o deixava estar.

“Não passas de uma menina a brincar com homens crescidos!”
E aí, eu já não tinha dezasseis anos,
Já tinha perto de trinta…
E os homens continuavam muito crescidos,
E eu ainda uma menina que não sabia brincar.
Continuava a sorrir,
A falar,
A conversar…
E eles, tão crescidos, continuavam a pensar
Que isso lhes dava o direito de me segurar.
Que ser sorridente fazia de mim pior gente,
E que ouvir com simpatia,
Era um convite para beijar…
E que se eu não os repelia,
Isso equivalia dizer que eu queria,
E que os deixava entrar…

E no entanto,
Eu não era leviana
Nem má rapariga,
Só tinha este defeito que tenho
De ser igual para toda a gente.
De acolher bem qualquer um que me ria.
E não faço distinção entre as pessoas…
E até me fazerem mal,
Para mim todos são pessoas boas.
E dou-me bem com todos,
E no meu coração cabe todo o mundo.
E tenho pena se falo de forma mais brusca,
E fico triste se acho que fui injusta…
E não consigo sorrir se alguém chora.
E acho que é culpa minha
De cada vez que tudo corre mal,
De cada vez que tudo termina.

“Não passas de uma menina a brincar com homens crescidos!”
Continuo como sempre fui,
Apesar de já ter mais de quarenta anos.
Apesar de tantas desilusões
De tantos desenganos.
Sorridente e simples como a luz da manhã
Que não precisa de avisar que vai chegar,
Porque assim que a noite termina
Tem o dia que se levantar.
Os homens crescidos
Continuam sem me entender,
Sem me perceber…
A julgar que me podem ter,
Mesmo sem eu dizer.

Quando eu sorrio, é porque gosto mais da vida quando sorrio.
Quando eu respondo a bem, é porque não sei falar de outra forma.
Quando faço o tal olhar provocante, é só porque é a minha maneira de olhar o mundo.

Homem que me conhecer,
sabe que quando eu quero,
Respiro mais depressa,
E fico com o coração a palpitar perdido,
E vejo o mundo a girar enlouquecido,
E molho os lábios e entreabo a boca,
E fico molhada e fico louca,
E sinto os olhos pesar de querer…
E o corpo queimar, chamar por prazer…
Homem que me conhecer,
Sabe que quando eu quero,
Não tenho vergonha de dizer.

“Não passas de uma menina a brincar com homens crescidos!”
Se for um homem crescido,
Sabe ver…



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