sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quando é que fui pequenina assim?

Vi uma fotografia antiga,
de meninos que brincavam soltos numa estrada de terra batida…

Quando é que fui pequenina assim?
Quando é que ri no escorrega de um jardim?
Quando é que brinquei sem preocupações no pátio da minha casa?
Nas pedras da minha rua?
Em que ano da minha idade me deixaram rir e fazer barulho?
Falar alto e andar despenteada?
Esfolar os joelhos, ou só ficar sentada?

Quando é que fui pequenina assim,
Que não me consigo recordar?…
Sem ralhos,
Sem descomposturas,
Sem medo de falhar?
Só feliz como as crianças todas,
Sem ter sempre que ganhar!

Porque é que eu tinha que ser a melhor, a mais inteligente,
A mais esperta, a mais brilhante?
Porque é que me guardavam atrás da grade da varanda
Mas queriam que eu soubesse correr solta lá fora?
E eu não podia ser maria-rapaz cavalona,
Mas tinha que ser forte, corajosa e valentona!…
E era mariquinhas se chorasse,
E perdia valor,
E perdia dignidade,
Mas não me permitiam rir com gosto, com vontade!
E porque não tinha amor nem carinho,
Tinha juízo, tinha tino,
Mas era sempre tão mais velha do que a minha idade…

Quando é que fui pequenina assim?
E tenho saudades,
De tanta coisa que não cheguei a ser,
A viver,
A ter…
E ouço falar
Ouço contar,
Não consigo deixar de perceber,
Que a vida podia ser mais bonita,
Tão mais linda que ela podia ser…

Mas faltou-.me a brincadeira!
Faltaram-.me a inocência e a candura.
O poder ser desarmada para a vida.
Faltou-me ser uma criança pura,
Não um adulto triste em miniatura…
E agora?
O que fazer?
Como compensar,
Como viver?
Se não aprendi a correr,
Se não joguei ao elástico na rua?

Julgavam que não iam embora nunca?
Que eu podia chamar e vocês sempre viriam?
Que não era preciso que eu soubesse fazer sozinha?
Mas vocês foram…
E eu fiquei…
E chamo e ninguém vem…
E há dias em que estou tão triste…
E tenho tanto frio…
E não sei.

Não sei cair sem chorar quando esfolo os joelhos.
Não sei quando parar,
Que voltas dar,
Como fazer,
Como lidar…
Como se atreveram a não deixar
Que eu aprendesse,
Que eu descobrisse,
Que eu vivesse?

Princesa querida do coração…
Sem reino nem lugar,
Colada a cuspo em todo o lado,
Sempre pedindo o que ninguém me pode dar…
Triste e proibida de chorar.
Porque sou forte,
Porque sou corajosa
E se fizer barulho os vizinhos vão notar.
E ninguém chora
Quando aprendeu que não tem direito de chorar.

Desculpem…
Eu sei que a culpa não foi vossa.
Só fico perdida e não tenho em quem descarregar.
Porque eu cresci e sou dona do meu nariz,
E vocês aonde estão,
Não me podem ajudar.
Mas, caramba!
Custa muito virem-me buscar?
Vocês é que diziam que eu não podia andar sozinha na rua…
Porque havia pessoas más que me podiam magoar…
E agora?
Já não querem mais saber de mim?
Olhem eu aqui a chamar…

            Tu sai para lá, que se eles soubessem haviam de te ralhar! E não me deixavam ir contigo, lá fora, para brincar… Só me sabes fazer chorar!

2 comentários:

  1. O que acabo de ler e lindo . Mostra a bonita e alegre Mulher em que tornas-te, por certo pelas boas experiências da meninice. Lembradas ao longo da vida, pelo prazer e alegria de infância . Essa tua alegria continua a ser a alegria da tua meninice, mas agora como Mãe.
    Para mim o conceito de criança e infância não existe desde sempre. Estes conceitos foram sendo elaborados ao longo do tempo, simultaneamente com mudanças na composição familiar, nas noções de maternidade e paternidade, e no quotidiano e na vida das crianças. Um abraço amigo

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  2. Olá! Não tinha visto aqui o teu comentário! Obrigada, que bom que gostaste! A gente vai crescendo, e os conceitos e as noções, vão mudando, ou não... ou sim, ou nem tanto assim:))
    Beijinho e abraço amigo!

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