sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 26 de junho de 2012

O namorado que queria casar...


Eu tinha dezassete anos…
Ele tinha vinte e muitos…
Eu queria viver livre no mundo da rua,
Ele queria tirar-me da garupa da moto, mudar-me de lugar…
Ele queria casar,
Eu queria só namorar…
Porque era assim que a vida funcionava, dizia,
Era para isso que as pessoas andavam juntas, afirmava…
E eu,
Eu que só queria ser feliz
Sabia que não há regra imposta que determine o que temos que fazer do nosso coração…

É bom rapaz,
Gosta de ti, aproveita…
Aproveitar o quê? Se o que queria aproveitar
Era a magia de em cada manhã ter um mundo novo para descobrir,
Uma infinidade de promessas para cumprir,
Um sem fim de surpresas gostosas para me divertir…

Mas não desgostava dele,
E estava bem, quando estava perto dele.
Simpático,
Educado,
Carinhoso.
Um daqueles homens capazes de comer na minha mão,
Como sempre recomendava a minha mãe…
Que goste tanto de ti que não veja mais nada,
Que te queira acima de tudo…

Mas há mais,
Há muito mais do que isso.
Mais do que apenas e só bem querer,
Para lá do prazer,
Para lá do fazer…

E haviam as ruas,
Os cafés,
As praias, as músicas…
As motas, os amigos…
O gosto recém descoberto da liberdade…

A vida sempre me vem em ciclos que se repetem.
E conheço pessoas que parecem ser repetições de pessoas do passado,
E vivo situações que são tão parecidas com as antigas…
E já não tenho dezassete anos…

Mas tenho a mesma ânsia de liberdade,
O mesmo gosto por cada dia que começa,
A mesma fome de agarrar tudo nas mãos e apertar ao coração…
E estive tanto tempo fechada…
E está-me a saber bem demais o vento,
O sol,
O mar…
O poder ir, voltar, voar…
Sonhar, querer, desejar…

Mas não desgosto dele,
Sinto-me bem perto dele…
E é bom rapaz, como dizia a minha mãe…
E é para isso que as pessoas namoram, como sempre dizem…

E a tal outra coisa que tem que haver?
Para lá de tudo o que se consegue dizer?
O amor que faz a cabeça rodar,
O coração disparar,
O só querer por querer…

Da outra vez deixei-o ir…
O namorado que queria casar…
Fiquei com os meus sonhos, 
As minhas músicas para escutar,
Ao meu ritmo,
Ao meu compasso,
Com o par que eu escolhesse para dançar…

E agora?
Que hei-de fazer desta vez?
Desisto,
Fico, vou,
Ou só deixo andar?

Tudo tem que nascer de alguma coisa, dizem…
Como o meu pai aconselhava…
Aprender a saber esperar…
Ah, não sei!
Tanta estrada bonita para andar…

O peito a explodir de tanto sonhar!...

As minhas ruas de hoje, já não têm ao fundo o mar,

Mas têm sempre uma esquina nova para dobrar…
E sabe-me tão bem poder passear…




sábado, 16 de junho de 2012

Simples, tão maravilhosamente simples!...


Tão habituada estava a ver nuvens no firmamento,
Que quase esquecia a simplicidade bonita do céu azul…

Tantas palavras elaboradas que me disseram,
Trabalhadas,
Escolhidas,
Estudadas…
Quase me fizeram descrer das mais comuns,
Das menos complicadas…

Do bom que é quando ele me diz só “tenho saudades…”

Tantos beijos mentirosos que me deram,
Experimentados centenas de vezes,
Treinados numa multidão de bocas,
Aperfeiçoados, fingidos, melhorados,
Quase me fizeram esquecer de como é bom beijar…

Do prazer que dá alagar a boca numa confusão de língua e saliva…

Tristezas que me fizeram sentir,
Inseguranças de que me conseguiram invadir,
Lágrimas que me deixaram chorar,
Sem saber o que vem, o que está, o que será a seguir,
Iam fazendo com que eu deixasse de confiar…

Na simplicidade de um abraço que faz suspirar…

Perguntas sem resposta…
Respostas sem sentido…
Necessidades de tempo, de espaço,
Tudo misturado,
Tudo perdido
Numa confusão informe,
num bater repetido… 
Tudo isso ia conseguindo
Com que eu quase tivesse esquecido,
Que gostar é felizmente só gozar,
Falar não é mais do que conversar,
E paixão é apenas beijar, abraçar…

E que eu não preciso de ser uma estatística, para constar…

Eu que sempre fui tão amiga de me divertir,
Dei por mim a teimar,
A pedir,
A insistir…
A querer ficar
Num lugar aonde nem tinha chegado a entrar!…

Que bom ter encontrado
Alguém que quando me quer falar,
Quando quer estar ao meu lado,
Só aparece, só telefona!...

E que quando me quer ver, me vem só ver,
Sem precisar de se esconder!

E que quando me quer ter,
Só me pega e me agarra,
Sem precisar de dramatizar,
De inventar…
De pensar como fazer…

E que quando me diz que teve saudades minhas,
Me diz só assim,
De forma simples,
E me faz acreditar.

E não se perde em frases mentirosas,
Nem se consome em trevas perigosas,
Nem me põe chave na porta,
Não me deixa de fora para eu não entrar.

Estava tão esquecida de como é bom namorar!