sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Que me importa o que possam dizer de mim?...


Nunca me interessei,
Sobre o que pensam de mim.
O que dizem que falei,
O que fiz, ou não fiz.
O que fui,
O que inventei…

Se me julgam,
Se me condenam,
Nem dou conta do julgamento.
Sigo serena ao vento,
Brincando descarada com o tempo.
Fui sempre desta maneira.
Sempre só comigo,
A vida inteira.

Aprendi que só me preocupo,
Com a opinião das pessoas de quem gosto.
Em não as desapontar,
Em não lhes dar desgosto…
O resto do mundo…
É muita gente!...
Impossível deixar todo o mundo contente!…

Descobri muito cedo como ser dona do meu nariz,
Como viver do modo que sempre quis…

Quando se julgam senhores de mim,
Do que sou,
Ou do que pensam ser eu assim,
Desapareço.
Mudo,
Escureço…
Reinvento o meu fim
Escrevo outro começo…

Pouco me importa o que pensam,
O que julgam ter de mim…
Não me desvendam.
Procuram-me no jardim...
e eu vivo no meio do capim…

Não estou entre as flores,
Não me dou a todos os amores,
Não me encontram assim…

Sou uma sombra…
Não tenho rasto…
Nem passado, nem cadastro…

Para que havia de querer saber
Do que dizem de mim?

domingo, 28 de outubro de 2012

Portei-me bem...


Guardei dentro da algibeira…

Pisei a relva, falei com estranhos,
Mas o papel não,
Não deitei no chão…
Guardei dentro da algibeira.
Beijinho, papá… mereço.
Fui uma linda menina!

Quanto ao resto,
Desculpa…
Um desastre.

Sem controlo,
Sem juízo
Eu sei…
Ela previu,
Ela viu…
Mas não foste tu que erraste,
O mundo é que me seduziu…

Ou fui eu que me apaixonei pelo mundo,
Que namorei com a vida…
E tu avisaste,
Eu sei…
Nunca me deixaste
Acreditar no que sempre acreditei.

Carinhos,
ternuras,
Sentimentos pequeninos,
Vãs loucuras…
Tu dizias que ninguém valia
Mais do que um pensamento.
Pensei que estavas errado,
E que por isso vivias em tormento…
Acreditei que o que valia era o momento.

Mas o papel,
Guardei na algibeira.
Guardei comigo o lixo de uma vida inteira…,
Mas não deitei no chão…
Fui bem educada,
Não falei alto,
Não gritei,
Não fui desenvergonhada…
Beijinho, papá… mereço.
Fui uma linda menina.

Podes ficar descansado…
O mal que fiz foi sempre só a mim,
Não te deixei envergonhado.

Põe o chapéu…
Abotoa o casaco,
Pega-me na mão
Leva-me contigo a qualquer lado…

Tenho saudades de quando éramos os dois contra o mundo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Espírito da noite


Eu sei que não é a sério.
Sei que não!
Mas de vez em quando
Gosto de fazer amor com a imaginação…

Deixo-me ir,
Deixo-me envolver…
Fecho os olhos como se fosse dormir,
Durmo como se fosse viver…

E o sonho chega,
Acerca-se de mim.
Olha-me a ver se estou pronta,
Se não vou resistir.
Tonto que ele é!
Como se não soubesse que estou a fingir!…
Sonho que ninguém dormiu,
Numa noite que nem começou…
Num dia que ficou por vir…

E toca em mim de mansinho…
Passa a mão em mim devagarinho…
Sabe tão bem ter carinho!…

Sonho sem rosto,
Escuro informe,
Sombra escura que eu gosto
Caricia que mata a fome…

E quando me viro para o olhar,
Quando abro a boca, vencida,
Perdida de desejo para o beijar,
Ele some…
O meu fantasma sem nome…

Quando estou a querer,
Quando me conseguiu molhar
De vontade, de prazer,
Desaparece sem nada dizer.
Desaparece na sombra que o fez nascer…
O meu sonho que me vem ver
Quando a noite chega,
Antes de eu adormecer…

Não sei aonde vai, mas aposto
Que se esconde por detrás do rosto
Do escuro informe…
Lá onde o mundo dorme…
É lá aonde espera por mim,
O meu fantasma sem nome…

Espirito da noite,
Se me queres, vem-me buscar.
Se não me queres,
Fica comigo no meu sonho
Não me deixes acordar.…

Estou perdida entre este mundo e o outro,
Entre a morte e a vida…
E tu és uma sombra escura vestida
Com a luz da minha imaginação.

Se eu apagar a luz… vejo-te, ou não?

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Desculpa, eu sou assim...


Desculpa…
Eu sou assim.
Eu disse-te o que podias esperar de mim.

Demoro para confiar,
Demoro para acreditar.
Já sofri demais,
Não quero mais chorar…
Tenho a alma defendida para não me magoar.

Tenho receio.
Tenho medo.
Vivo guardada em segredo…

Pareço fácil,
Pareço perto…
Mas estou aonde não consegues chegar…
Não mais alto,
Não mais baixo,
Errando perdida a pairar…

Estou muito para lá do que podes tocar.
E nem sei se mereço
Que arrisques, que tentes,
Que te disponhas a pagar o meu preço.

Existem vozes dentro de mim que não sabem falar.
Podem ser mudas para sempre,
Podem nunca saber explicar.
Talvez eu vá ser distante eternamente,
Talvez nunca saibas o que tenho para contar.

Talvez tudo o que possas ter comigo,
Sejam momentos de prazer.
Quem sabe se é só isso que sei fazer?
Quem sabe se nada mais tenho a oferecer?

Desculpa,
Eu sou assim.
Tentei avisar-te,
Tentei fazer com que não gostasses de mim.
E tentei proteger-me também
Do que irias dizer, quando me conhecesses bem.

Acredita que queria ser doutra maneira.
Sei que não vais esperar a vida inteira…

Porque não tenho nada que me recomende,
Nem nada que valha tanto a pena,
E a realidade é pequena,
E o tempo está a passar por mim.

Desculpa…
Eu sou assim…

Vais também tu, desistir de mim?

sábado, 20 de outubro de 2012

Amigos do coração


Não tenho muitos
Amigos do coração…
Cabem todos juntinhos na mão…

Queria protege-los do frio,
Do medo…
Queria que a vida lhes sorrisse,
Que os guardasse em segredo.
Que os poupasse, que não os levasse,
Que não os tirasse de mim…

Já perdi tantas pessoas!
Já perdi tantas coisas!
Já fiquei órfã sozinha no escuro da rua,
Sem ninguém que me chamasse sua.
Vagabunda perdida
Nas ruelas da vida…

Quase ninguém pude trazer comigo…
Quase todos se perderam de mim…

Nem os lugares eram meus,
Nem as terras eram minhas
Nem as coisas me pertenciam,
Nem os sonhos aconteciam…

Não tenho muitos
Amigos do coração…
Cabem todos juntinhos na mão…

Queria conservá-los comigo,
Abraçados,
Bem perto,
Contos inacabados
Oásis no deserto…

Queria oferecer o céu
Colorir a lua.
Espantar o breu,
Enfeitar com pedrinhas de vidro a rua…

Devolver a cada um
O que a vida lhes levou…
Reparar as injustiças que o mundo causou…

Se eu fosse rica!...
Ah se eu tivesse um avião,
Íamos todos lá dentro,
Seguir o coração…
Eu e os meus amigos,
Que me cabem numa mão…

Tu, nas alturas…
Deixa-os em paz!…
A ti tanto te faz…
Será que não és capaz
De ser bom rapaz?
Vou contar á tua mãe que te portas mal, vais ver…


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sem futuro...

Antes de ter futuro,
Tens que ter presente.
Tens que pensar de forma diferente.

Amanhã está longe
Ontem já passou.
É hoje que conta.
E hoje ainda agora começou.

Sem futuro…

Deixa…
O futuro será quando lá chegarmos,
No fim do presente,
Depois de andarmos em frente.

Baixa a vidraça,
Presta atenção na paisagem…
É assim que se faz a vida que passa…
Sente o vento,
Goza a viagem.

Destino é no fim.
Meta é só depois.
Hoje é aqui,
E hoje somos os dois.

Sem futuro…
Sem sorte?
Então que é tanta beleza em volta?
Que é este amor tão forte?
Como se chama continuar a acordar a cada dia,
Que nome se dá a sentir alegria?

Problemas
São só perguntas com respostas difíceis…
Ou não tão difíceis assim…
Como os da escola, lembras?
Enunciado,
Dados,
Indicações…
Soluções.
Sempre há soluções…
Para que serviu decorarmos a tabuada?
Nove, noves fora nada.
Sabemos fazer as operações,
As provas reais, as multiplicações…

Sem futuro?
Procura,
Resolve…

Olha… trouxe-te a borracha,
Podes apagar,
Recomeçar depois.
Sento-me na tua carteira,
Fico contigo a aula inteira…
Vá… pensamos os dois.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Tu não fazes ideia de mim...


Não penses que me tens,
Não me tenhas como tua.
Não me tomes como certa,
Só porque te dou a mão na rua…

Tu não fazes ideia de mim!…

Não há argola,
Não há cadeado,
Não há documento que me prenda,
Que me cole ao teu lado…

Porque vivo noutro mundo…
E o ar que respiro vem de um poço sem fundo.
E o sangue que tenho é sangue inventado…
E não tenho ainda nome encontrado…

Tu não fazes ideia de mim!…

Quando pensas que estou vencida,
Submissa,
Rendida,
Fugi já.
Estou tão longe de ti
Quanto o sol da lua!
Quanto o que falta para me fazeres tua…

Não tentes assim.
Não é dessa forma que chegas a mim.

E não quero presentes,
Nem lembranças,
Nem promessas…
Nem coisas dessas…
Estranhas artimanhas
Para me seduzir…

Quando o que ambiciono,
Nem tem preço para pedir!...

Tu não fazes ideia de mim!…

Não me prendas,
Não me compres, nem me vendas…

Só me vem falar a cada vez que te vir.
Só diz que me amas mesmo sem eu te pedir.
Não compitas,
Com aquilo com que não se pode competir.

E sê simples como tu és.
Fácil e claro como o sol da manhã que está por vir.

Não sou mulher de muita complicação
Mas sou mulher difícil de atingir.

O que é bom para mim?
Orgasmo tem que ser prazer sem fim…

Dá-me um assim…
Fora da cama,
Fora dos lençóis de cetim…

Faz-me tremer de desejo,
Mesmo sem me dares um beijo

Tu não fazes ideia de mim!…


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Leva-me a passear...


Leva-me a passear…
Leva-me a Paris,
Subir a Torre Eifel…
A Itália,
Enrolar esparguete e comer piza…
Leva-me a Veneza
Andar de gondola embalada nas águas calmas…
Vamos cheirar caril a Goa,
E andar de elefante na Índia.
Atravessar os desertos da Sará montados num camelo,
Espreitar como é em cima do Empire State Building…
Viver num igloo no Polo Norte…
Vamos enfrentar as maldições dos faraós no Egipto…

Leva-me a passear…
Leva-me á minha casa…
Às minhas ruas,
Ao meu lugar.
Deixa que cheire as acácias em flor,
Deixa que rebole no capim molhado de cacimba…
Faz amor comigo no mar quente da Costa do Sol…
Vamos ver as estrelas que são diamantes
E os diamantes que são estrelas penduradas no céu da nossa terra.
Fica em silêncio…
Em chão sagrado do sentimento não se faz barulho…
E tenho tantas saudades de ouvir os grilos a cantar!...

Leva-me a passear…
Dá-me a tua mão,
Vem-me buscar.

Qual o problema se Paris for ali ao lado,
Se a Itália ficar no outro quarteirão?
Que interessa se Veneza é o lago dos peixinhos das tardes de domingo?…
O que é que tem se Goa fica na rua logo a seguir,
Se a India se instalou no bairro mais próximo?
Que importa que o Sará não vá além da areia da minha praia,
E que os Estados Unidos fiquem na outra ponta da cidade?
Quero lá saber se o Polo Norte se resumir á geada do quintal da vizinha,
E que as pirâmides do Egipto estejam á venda no balcão do café da esquina!…

Nem fico muito triste se Lourenço Marques
Se tiver mudado só para dentro do meu coração.
E se as minhas ruas,
As da minha recordação
Não passarem disso mesmo,
E não voltarem a poder estar na minha mão…

Só me leva daqui!…
Só me guarda contigo!…
O lugar não interessa,
O país não importa…
Só me vem buscar…

Encosta-me juntinho a ti...

Ficamos fora até nos dar prazer.
Mesmo que fora seja um sítio que não sabemos nomear…
Ficamos fora até se fora for cá dentro,
Até se não sairmos do mesmo lugar.
Mas, meu amor…
Deixa-me ser contigo…
Leva-me a passear.