sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Senhora do Auto da Vida


Entre aquilo que se diz,
E o que não se consegue dizer,
Está tudo o que somos.
Aquilo que escondemos,
Para ninguém saber.

Tenho medo do escuro quando vejo o pano a descer,

Quando as cadeiras ficam vazias,

E o teatro fecha as portas.

E o ponto há muito tempo que foi para casa.

E não ficou ninguém para lembrar as minhas deixas.

Às contas com os fantasmas da noite.
Sozinha com as sombras da vida.
Princesa sem reino,
Moura vencida.
Feiticeira violada numa Inquisição sofrida.
Bruxa queimada numa fogueira esquecida.

Sufocada entre beijos,
Entre mil abraços contida,
Vagabunda e foragida.
De todos os sonhos despida.

Tomada sem amor em todas as camas
Nua com um manto de estrelas vestida.

Com medo do papão que vive no armário,
A desfiar em segredo as contas do rosário.

A recitar em mente os clássicos da literatura,
Enquanto mãos ávidas me deixam mais impura.

Obrigada a olhar nos olhos,
E a ficar acordada,
A fingir que sinto o que não sinto,
A odiar-me quando sinto, e sei que não devia sentir nada.

Imoral, impostora, mulher vendida?

Não. Só senhora do Auto da Vida.
Figurante de luxo numa taberna perdida.
Prima-dona de uma história fingida.

Comédia ou tragédia,
Em vários actos inventada,
De um drama que nunca foi á cena,
Numa obra que está amaldiçoada.

sábado, 24 de novembro de 2012

Um dia hei-de...


Um dia hei-de encontrar
Alguém a quem eu possa dizer “tenho saudades”,
Um dia hei-de encontrar alguém
A quem eu possa dizer “gosto de ti”.

Alguém que não se assuste,
Alguém que não tenha medo.

Alguém que me queira mais do que ao mundo.

Alguém que não me ame em segredo.

Um dia hei-de andar na rua de mão dada com um amor bonito.
E hei-de dormir abraçada quentinha num corpo querido.

Sem receios, nem desconfianças,
Sem limites, nem retrancas.

Nem jogos de salão,
Brincadeiras de sociedade…

Livre de amar em liberdade.

Livre de ser como sou sem precisar conter.
Sem juízo, nem recato,
Sem receio de perder.

Sem a tristeza do esfriar, do esmorecer…


E mostrar que gosto quando gosto,
E gemer de prazer quando tiver prazer.

Telefonar de minuto a minuto se me der na gana,
E saber que ele me adora,
Que ele não me engana.
Que se deita comigo mesmo fora da cama.

Que fazemos amor como quem respira.

E ser dele num abraço que ninguém tira.

Adormecer com a certeza de que está lá até ao fim.
Um dia hei-de ter um amor assim…

Um dia hei-de ter alguém que goste de mim.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O que queres ser quando fores grande?


- O que é que queres ser?
Tanta coisa que eu podia ter sido!...

- O que é que queres ser?
Antes de eu ter crescido…

- Engenheiro…
- Doutor…
- Policia sinaleiro…
- Nada, só ter dinheiro…

- Tu?
Sorria.
Não sabia.

- O que queres ser quando fores grande?
Meu pai sempre dizia
que ser médica era o que eu queria…
E eu pensava nas feridas,
No sangue,
Nas lágrimas perdidas…
Médica não!…
E não respondia.

- Á frente, o próximo… O que queres ser?

O que eu queria
Mas isso não podia,
Não vinha na lista para escolher,
Era agitar a varinha,
Fazer uma magia só minha,
Semear pó de estrelas,
Deixar toda a gente feliz.
Foi só o que sempre quis…

Fada,
Duende…
Feiticeira…

Anjo de alma perdida,
Virgem senhora da vida…

- Queria ser uma caricia.
Viver nas mãos de quem me desejasse,

- Queria ser um beijo.
Beijar quem me beijasse.

- Mal educada, atrevida!
Nunca vais ser nada na vida!

Que interessava o que eu queria ser?
Porque perguntavam,
Se não me deixavam responder?…

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Espero por mim...


Lá, aonde fiquei…

Sentei, esperei…

Passaram mais de quarenta anos,
Ainda não voltei.

Um dia venho-te procurar,
Menina gorduchinha de cabelo crespo
Não precisas chorar…

Sozinha,
Tão perdida,
A morder os lábios para não gritar…

Tantas pessoas!...
Pequenas, crescidas…

E eu sem conseguir voltar.

Um dia venho-te buscar.

Vou crescer,
Vais ver.
A vida vai mudar.

Tão caladinha,
Amor de menina!

Como se comporta bem, como é sossegadinha!…

Chorava sem lágrimas,
Sem incomodar.

Se eu fizer bem,
Se eu me controlar…


Olho-me no espelho.

Dentro dos meus olhos
Estou eu a esperar…
Se ao menos me conseguisse encontrar

Fiz tudo direitinho,
Ninguém deu por mim.

Mas começa a estar fresquinho,
Há cacimba no capim…

Dentro dos meus olhos,
Eu espero por mim.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Não sou um bom partido


Conduzo um carro velhinho de mais de vinte anos,
A desfazer-se em ferrugem e avarias…
Vivo numa casa bem pobre e perdida no meio de coisa nenhuma,
Aonde quase não se consegue chegar sem transporte próprio,
gastando rios de dinheiro em gasolina.

E sou baixinha…

Não sei porquê…
Pensam que sou enorme.
Uso saltos altos,
Mas sou baixinha.
Metro e sessenta, mais centímetro, menos centímetro…
E não sou um mulherão.
Sou só eu.
Magrinha, pequenina…

Não tenho dinheiro…

Bebo muitos cafés,
Passo o dia a passear,
Almoço e janto fora,
Mais vezes do que me posso lembrar…
Mas um café são sessenta cêntimos,
As minhas refeições nunca vão além dos cinco euros…
E faço opções…
Deixo coisas de lado para poder fazer outras…

Nem tenho emprego…

Não sou bem paga,
Não tenho conta bancária recheada.
Nem cartões de crédito sequer…
Familiares generosos e abastados,
São coisa que desconheço,
Nem vou receber heranças de primos afastados.
O que perdi,
Se alguma coisa material perdi,
Não vou reaver mais.

E não, também não…

Não vendo as minhas noites,
Nem alugo a minha companhia.
Também não vendo fotografias,
Nem tabelo a hora e o minuto.
(nem sabia que isso se fazia).
E sou tonta e infantil
Choro e rio,
Vivo cheia de fantasias…


Não tenho nada de meu, nem riqueza nenhuma.

Deixem-me no meu cantinho,
Não percam o vosso tempo comigo.
Não sou bom investimento.
Não me façam maldades.
Só gosto de conversar,
De escrever,
De publicar fotografias.

Aos possíveis interessados,
Futuros apaixonados,
Só para ficarem avisados…
Para não terem o vosso tempo perdido…

Eu não sou um bom partido.


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Queria ir para casa...


Papá,
Olha o que fizeram á tua menina…
Rasgaram a minha bata branquinha,
Desmancharam o meu cabelo…
Esfolei os joelhos,
Perdi todas as canetas,
Esqueci da lição na carteira…

Papá,
Não me deixaram entrar na roda,
Nem saltar á corda no recreio grande.
Não me escolheram para os jogos.
Tiraram o meu lanche do cesto que a mamã mandou.
Disseram que sou feia e não sei brincar.
Esqueceram de mim no cantinho da sala,
Quando acabei o castigo não me mandaram sentar.

Papá,
Queria ir para casa…
Sais da Fazenda e vens-me buscar?…
Pede ao colega chefe para vires mais cedo.
Diz que a tua Glorinha está a chamar.
Diz que estou sozinha e que tenho muito medo…
Ele gosta de mim, vai deixar.
Olha eu no portão a esperar…

Papá,
Estou tão triste!
Sei que não gostas,
Mas hoje, só por hoje, vem-me abraçar.
Depois não peço mais, depois vou-me comportar.
Chega perto de mim,
Encostadinho.
Afastado mas juntinho,
Do jeitinho que costumavas ficar.

Papá,
Fica de novo comigo.
Não me voltes a deixar.
Faço tantos disparates quando não estás a olhar!
Tu que acreditavas em almas que falam
E espíritos que voltam,
Porque demoras tanto tempo a chegar?

Papá,
No nosso Scala,
Na nossa beira-mar,
Naquele banquinho onde costumávamos conversar…
Se quiseres eu vou ter contigo…
Mas vem-me buscar.

Cansei, não quero mais brincar.
No recreio há meninos grandes e maus que me fazem chorar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

É o que basta para mim


Olho e vejo um jardim…
É tudo o que basta para mim.

Não me digas que a relva é a fingir,
Que as flores são a mentir…

Não me digas que as meninas bonitas de mini-saia,
Que estão só a ver os carros,
Que eu sei que é isso que estão,
Vão entrar no primeiro que parar,
Que lhes estender a mão.

Não me digas que os velhinhos do banco,
Que estão contentes a jogar dominó,
Que eu vejo que riem e que estão bem,
Vão dormir numa solidão de meter dó…

Olho e vejo um jardim…
É tudo o que basta para mim.

Não me digas que o menino de olhos vermelhos,
Tem medo de voltar para casa porque esfolou os joelhos…
Só parou a descansar!
Pára! Não está nada a chorar!…

Não me digas que o casal de namorados,
Sentados no banco ao lado
Estão a gritar, a discutir…
Falam alto porque estão apaixonados,
Não têm medo que o mundo os possa ouvir…
Só se esqueceram de ficar abraçados.

Olho e vejo um jardim…
É tudo o que basta para mim.

Não me digas que a dona de casa,
Vergada ao peso dos sacos,
Está preocupada… vazia, amargurada.
Está só a medir os passos.
A pensar o que fazer a seguir.
É a princesa do lar,
Não vai nada desistir!

Não me digas que o grupinho de adolescentes,
Com musica barulhenta,
Riem alto sem estarem contentes.
Só para não serem diferentes.
Riem porque eu sei que a juventude gosta de rir.

Tu, não me convides mais para sair!
Consegues fazer triste tudo o que eu vir!…
Não me digas que não é cor de laranja,
Que é tudo cor a fingir…

Eu sou assim!
Olho… e vejo o que basta para mim.