sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Senhora do Auto da Vida


Entre aquilo que se diz,
E o que não se consegue dizer,
Está tudo o que somos.
Aquilo que escondemos,
Para ninguém saber.

Tenho medo do escuro quando vejo o pano a descer,

Quando as cadeiras ficam vazias,

E o teatro fecha as portas.

E o ponto há muito tempo que foi para casa.

E não ficou ninguém para lembrar as minhas deixas.

Às contas com os fantasmas da noite.
Sozinha com as sombras da vida.
Princesa sem reino,
Moura vencida.
Feiticeira violada numa Inquisição sofrida.
Bruxa queimada numa fogueira esquecida.

Sufocada entre beijos,
Entre mil abraços contida,
Vagabunda e foragida.
De todos os sonhos despida.

Tomada sem amor em todas as camas
Nua com um manto de estrelas vestida.

Com medo do papão que vive no armário,
A desfiar em segredo as contas do rosário.

A recitar em mente os clássicos da literatura,
Enquanto mãos ávidas me deixam mais impura.

Obrigada a olhar nos olhos,
E a ficar acordada,
A fingir que sinto o que não sinto,
A odiar-me quando sinto, e sei que não devia sentir nada.

Imoral, impostora, mulher vendida?

Não. Só senhora do Auto da Vida.
Figurante de luxo numa taberna perdida.
Prima-dona de uma história fingida.

Comédia ou tragédia,
Em vários actos inventada,
De um drama que nunca foi á cena,
Numa obra que está amaldiçoada.

1 comentário:

  1. Ola Glorinha gostei acho que deve escrever um livrom de poesias ou de uma Historia

    Antonio

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