sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Eu sei que vão


Vão-me julgar,
Que eu sei que vão…

E vão lançar-me pedras,
Que eu sei que vão.

Até aqueles que me amaram,
Até aqueles a quem me dei.
Vão-me negar e esquecer…
Vão continuar a viver.

E vão-me julgar,
Que eu sei que vão…

Minha mãe dizia
Que eu havia
De chorar lágrimas de sangue.

Dizia que nem os cães da rua
Iam querer olhar para mim.

Acertou sempre.
Cumpri a profecia.
Ela sabia!

Ninguém no meu enterro…
E porque até morta erro,
Vou de olhos abertos cheia de medo.
Mas não fecho os olhos assim.

E que julgamento faço eu de mim?

Queria sol,
Queria vento,
Queria fazer amor com o tempo…

Em todo o deserto via um jardim.

Vão-me julgar,
Vão pensar mal de mim.

Devem ter razão…
Ou não.
Que interessa?

Vão-me julgar,
Que eu sei que vão.

E eu vou deixar…
Porque nunca mais ninguém me vai  fazer chorar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Inconstante


Inconstante é o que sempre está em mudança.
É o que não é.
Talvez por não querer,
Talvez porque não consegue ser.

Se eu pudesse…

Será que deixava de navegar sem sair da praia?
E percebia o vazio que há entre a realidade e o sonho?
E desistia de ser laranja entre o cinzento do Outono?

Não!
Prefiro-me inconstante…
Inconstante até ao fim…

Porque em algum tempo da minha vida,
Talvez quando eu era uma sombra perdida,
Uma fada louca me viu,
E decidiu que eu fosse assim.

Tu que estás á minha porta com medo de entrar,
Se não fores capaz de me resgatar,
Não vou ser tua.

Não vais poder ter-me que por partes e em parcelas…
Metades soltas doutras elas,
Mas não vais ter-me a mim…

Porque eu sou inconstante,
E só me apanhas por um instante.

A não ser que me olhes e que me vejas,
E te percas assim.
E me vás encontrar aonde eu nem saiba que estejas.

A não ser que me ames tanto quanto me desejas.

E me dês alento,
Me disputes a braço com o vento,
E me ganhes para ti.

Se não,
Vou ser sempre inconstante.
Sempre nem de mim.
Fumo que paira errante,
Sozinha num caminho sem fim.

Quebra o meu encanto…
Vem…
Conquista-me, e sê príncipe de mim.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Sempre me olharam


Não sei…
Sempre esteve comigo…
Marca de nascença ou cicatriz.

Olham.
Sempre me olharam.
Não importa a roupa,
Ou a falta dela,
Não importa o que faça…

Só me olham.
Sempre me olharam.

E notam quando entro,
Sempre me notaram.

E não sou assim tão bonita,
E não sou fora do vulgar.

Só sei que respiro como vivo,
E isso nota-se no meu jeito de andar.

Não ponhas musica no caminhar…
Não, mãe, não é por isso…

É no cheiro que fica no ar.
É na promessa velada do olhar.

Disfarçada de mulher…
Doce que dá vontade de comer,
Menina que apetece proteger…

África escandalosa na minha forma de ser.

Sentem,
Porque eu sei que sentem
Que eu trago tempestades roubadas ao mar.

Até na forma como inclino a cabeça,
Até na maneira que gosto de sentar…

Sentem-me o sangue a escaldar.

Talvez porque eu não tenho medo.
Talvez porque não faço segredo,
Do prazer que tenho em gostar.

E isso quem sabe?
Talvez se adivinhe quando vou a passar…

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Todo o tempo tem um fim


Passou o tempo,
Tal como o tempo era conhecido.
Ela contou os dias,
Da forma como contá-los era sabido…

Ele não aparecia…

A esperança e a certeza foram dando lugar á tristeza.

O horizonte era um manto de nevoeiro sem sol,
E as estrelas perdiam o brilho no firmamento.

E ele não aparecia…

Cheio de medo, prisioneiro da insegurança,
Ele olhava a vidraça num terror de criança.

Ir ou ficar,
Atrever ou esperar…

Chamamento ao longe, no coração a gritar.

E o tempo dela estava a acabar.

Quando se resolveu a ir procurar,
Aproximou-se com receio,
Sem coragem de chamar…

Encolhida, triste e abandonada,
Viu-a a esperar.

Perdera o tino, perdera a razão?
Não parava de chorar…

Finalmente num minuto sem fim
Ela levantou desvairada o olhar.

Por entre as madeixas desgrenhadas ele sentiu-se renascer.
Ela sorriu-lhe como há muito não sabia fazer.

No meio dos sulcos que as lágrimas tinham aberto no rosto sujo,
Ele reconheceu o amor que não acaba, nem desiste,
O amor que é de tudo, o mais forte que existe.

Tinha chegado a tempo, pois.
Estavam salvos os dois.

Porque até a loucura respeita quem ama.
Porque não há medo que resista, quando o coração chama.

Mas todo o tempo tem um fim.
Quanto tempo tu… para chegares até mim?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Sem mágoa, sem ressentimento...


Cada alegria que sorri na minha vida, vale por si só…
Faz a realidade ser mais querida.

Mesmo quando as esperanças passaram,
Ainda bem que, por um bocadinho, ficaram.

Sem mágoa, sem ressentimento.

De sorriso em sorriso…
O renovar da alegria…
Uma luz nova que brilha…
E pouco mais preciso.

Às vezes, meses,
Às vezes dias…
Há horas que não se apagam,
E há eternidades que ficam esquecidas…

Lugares bonitos,
Toques atrevidos,
Caricias não contidas…

Ou palavras sussurradas, veladas, escondidas.

Amores livres que gostosamente me fizeram rir,
Amores proibidos que me recordaram como sorrir…

Alguns afectos que quase me cativaram.

Paixões que só me mexeram, e paixões capazes de mexer comigo.
Sonhos loucos aonde misturei amante e amigo…

Desejos em brasa que me queimaram como sol de verão em capim seco.

Se não ficaram, se partiram…
Foram momentos bons enquanto os sonhei.

Sem mágoa, sem ressentimento.

Os que ainda estão por vir,
Os sonhos de desejos que ainda vou sentir,
Que venham sempre meiguinhos para mim,
Doces no meu coração mesmo depois do fim.

Se algum sonho cruzar a linha da realidade,
Que me tome como cacimba da madrugada,
Refresque e mate a minha vontade…

E que eu seja sempre igual á minha verdade,
Sem mágoa, sem ressentimento.