sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Não queiras saber nada de nada


Se estiveres comigo e a noite chegar…

E eu fugir com medo de mim…
Ajuda-me a voltar.

Segura-me de encontro a ti,
Não me deixes afastar…
Ainda que eu peça.
Ainda que eu comece a chorar.
Passa, sempre passa,
Eu volto a serenar.

É só porque tenho medo,
E vem o escuro e tenho medo…

Estou sozinha há tanto tempo
Que o tempo se perdeu do meu contar.
Só sei que o escuro vem sempre para me buscar.

O medo é como droga dura,
Que custa largar,
Que morde no corpo de quem a quer abandonar…

E vai e vem,
Chama como quem quer acolher, guardar,
E se o ouvimos e vamos
Não conseguimos mais voltar.

Se estiveres comigo e a noite chegar…

Não me deixes sozinha…
Vela comigo.
Não saias, não me deixes abandonada.
Não fujas, não me largues na estrada.

Quando eu acordar depois da tormenta passada,
Podes afastar os cabelos do meu rosto,
Podes beijar a minha boca molhada.
Faz-me esquecer porque estou tão cansada.

Não queiras saber que luta é a minha,
Não queiras saber nada de nada.

Porque eu perco-me no escuro sempre que a noite chega,
Mas sou de quem me espera na madrugada.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Amor feliz


Amores felizes não fazem canção.
É…
Talvez não.

Que se dane então a canção!…

Não me lembro de canção nenhuma quando eu chorava…
Nem recordo de melodia alguma quando perdida andava.

Poesia
Se a havia,
Era feita do sal das lágrimas que derramava.

Se os versos forem para ficar comigo,
Que riem e cantem quando os digo.

Versos chorados não quero mais.
Nem canções tristes nem outras que tais.

Sombras que entram no meu quarto quando não deviam entrar,
Fantasmas que se deitam comigo quando não se deviam deitar…
Não vos volto a conjurar.
Vou-vos exorcizar, soltar…

Porque amores felizes talvez não façam canção,
Mas deixam o coração a palpitar.

E o sol pode sempre mais do que mil lâmpadas a brilhar…

Palavras bonitas sem segredo
Ditas às claras sem medo…
Como dedo que entrelaça outro dedo.
Como prisioneiro que foge do degredo…

Tão perto que esteve de passar por mim sem parar,
Tão perto que estive de o deixar passar…
Amor feliz que me veio espreitar…

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Fazíamos desenhos em papel amarrotado


Porque eu me lembro…

Lembro-me de quando eles gritavam lá dentro…
Lembro-me de quando o mundo era do tamanho do nosso quarto…
Lembro-me de quando fazíamos desenhos em papel amarrotado…

Não eram grandes desenhos.
Eram riscos selvagens cheios de tristeza.
Não tinham grande significado…
Pintavam o nosso mundo cheio de incerteza…

E fazíamos desenhos em papel amarrotado.

Lá dentro estávamos seguras,
A luta era de peixe graúdo…
Se não incomodássemos…

E não incomodávamos.
Fomos bem ensinadas.
Bem-educadas…
Eles gritavam e destruíam a marteladas o universo todo.
Nós as duas, desenhávamos…

Por isso eu sei…
Porque me lembro…

Às vezes não é preguiça,
Às vezes não é ser bicho-do-mato.
Às vezes o nosso mundo é o nosso quarto.

E o papel amarrotado de antes,
Pode ser o computador de agora.
E as duas meninas assustadas que faziam desenhos,
Podem ser tantas outras meninas a esta hora…

E meninos…

E desenhos são riscos selvagens que fazemos
Ou letras que escrevemos
Ou jogos que jogamos, porque desenhar passou de moda…

Não ralhem tanto com os que vivem nos quartos…
Quem sabe se eles não construíram o seu mundo ali
Porque lá dentro estão a gritar…

E gritos também podem ser calados,
E gritos que só se pensam também podem assustar.

E as crianças fogem
Porque têm vergonha de chorar.
Quando estão bem ensinadas, bem-educadas,
Quando se sabem comportar.

Se não pedires para entrar


Podes descer a alça do meu vestido,
Podes roçar no meu ombro devagar…
Talvez eu goste,
Talvez me consigas arrepiar…

Podes ir com a mão mais abaixo,
Fechar os teus dedos á volta do meu peito
E acariciar…
Talvez eu gema,
Talvez eu me comece a abandonar…

E se me passares o braço nas costas,
Bem juntinho á pele,
Vais-me fazer arquear, suspirar…

Envolve-me,
Encosta-me a ti…
Beija-me, e saboreia-me com tempo para demorar.
Vou corresponder,
Vou gostar…

Quase sem noção do que estás a fazer,
Numa urgência de avançar,
Vem a mim, faz-me delirar…

E quando acabares e eu acabar,
E quando me olhares e eu te olhar,
Não é em mim que estás a reparar…
Já fugi, já me perdi, já estou em outro lugar.

Porque entre a altura em que desceste a alça do meu vestido,
E a altura em que te puseste em mim devagar,
Faltou-te a parte em que paravas,
E o teu coração perguntava ao meu, se podia entrar.

Ninguém entra em mim, se eu não deixar.

O resto?
O resto é só o corpo,
Numa ânsia de se aliviar…

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Carnaval


Baile de Máscaras…
Ritmo frenético do tambor, gemido do violão…
Cabelos transpirados, colados no rosto,
Roupa grudada ao peito, moldada ao coração…

Vieste,
Como sempre vens…
Disfarçado,
Sem nome,
Como se não fosses ninguém…

Protegido na tua capa de segredos,
Defendido de todos os teus medos.
Com os olhos carregados de desejo,
E o corpo tremente de paixão…
Urgente de amor, e tesão…

Chegaste em mim,
Tomaste a minha mão…

Baile de Máscaras…

Sem ninguém ver,
Sem ninguém perceber…

E dançámos como só nós dois sabemos fazer.
Daquela forma gostosa em que o corpo dança sem mexer…
Olhos presos nos olhos,
Amor proibido que teima em acontecer…

Rosto de sombras, sem luz no olhar…

Perdido no meu calor,
Em busca de fogo aonde queimar.
Gelo e labareda…
Num bailado de prazer que é mais do que gemer…
Que é mais do que orgasmo,
Mais que cheiro de mulher…
Que é cio eterno num corpo a arder…

E os meus olhos em silencio pedem “fica”,
E sei que nunca podes ficar.
E tu esperas que eu vá e te siga,
Aonde nem tu me sabes levar…

Baila de Máscaras…
Carnaval…

Vulto no escuro que se vira e vai…
Sem ninguém nos ver,
Sem ninguém nos notar…
Sem ninguém nos perceber…

Maus Rapazes


Maus rapazes…
Como dantes…
Falam alto,
Falam mal,
Andam em grupo…

Maus rapazes,
E enquanto o mundo hipócrita, assustado foge,
Eu sinto o mesmo apelo antigo, de longe…

O cheiro no ar…
A promessa de aventura…

Maus rapazes,
Como dantes…

Cigarro na mão,
Bicicletas toscas encostadas nas calças de ganga esfoladas…
Novos demais para ter barba,
Pobres demais para motorizadas…

Donos de todas as ruas do mundo,
Senhores de todas as horas do relógio…
Livres como nunca são livres os meninos-bem da escola,
Selvagens como nunca serão selvagens os filhos-lavadinhos das mães engomadas…

Maus rapazes,
E eu olhava…

Anos
Tantos anos passaram…
E no rosto de cada um,
Apesar de desconhecido,
Vejo as marcas que ficaram…

Como se estivessem comigo de novo
Fantasmas amigos que reencarnaram…
Vozes antigas que voltaram…

O calão é outro,
A ginga no olhar é igual…
A meiguice disfarçada na pose afectada de andar…

Maus rapazes…

Nenhum era capaz de ser mau de verdade.
Sinto-me ainda entre eles,
Sombra penada sem idade…

Princesa solta num grupo de rebeldes,
Que só queriam alguém para gostar…

Maus rapazes,
Não canso de os olhar, lembrar…

Em que esquina, em que rua,
Costumam agora parar?...