sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 29 de março de 2013

Espectro sem luz...


Quando a luz se apagou
E o espectro tirou o capuz
O que dele se mostrou
Foi falta de luz.

Nem medo,
Nem segredo…

Nem coisa de outro mundo.

Só no buraco dos olhos
Um abismo profundo.

Quando a hora soou,
E o tempo passou,
A magia acabou.

Em baixo da cama
Não ficou mais nada…
Só pó antigo de casa cansada.

Vida nova
Depois de vida passada.

E a saudade daqueles olhos!…

E a falta do mistério da noite…
O fascínio quase feito consolo,
O abraço frio que me queimava o colo…

Espectro sem luz…

Se pudesses deixar de ser espectro!
Se pudesses andar sem capuz…

Nenhum outro como tu me seduz.

Se quiseres
Eu passo contigo a fronteira,
Enfeitiço os guardas,
Troco a bandeira…

Falta-te ainda a vida inteira.

Confia em mim para atravessar a estrada.

terça-feira, 26 de março de 2013

A todas as coisas do mundo...


A todas as coisas do mundo
Que não vão embora a cada segundo,
Obrigada.

Obrigada de coração,
Por serem para sempre,
Por serem o que são.

Ao sol que brilha no céu,
Até à chuva que está a cair,
Ao mar que vai e vem
A descer ou a subir…

Ao vento que desarruma o meu cabelo,
Que levanta a minha saia de mansinho…
Às estrelas da noite, às pedrinhas soltas do caminho…

Obrigada.

Por não me enganarem,
E por não me abandonarem.
Por não serem também elas, fruto da imaginação,
E por não deixarem triste o meu coração.

Obrigada às coisas, que às pessoas não!

Porque até as mais bonitas
Me fazem chorar.

Porque não vêm para me abraçar.

E perdem-se em corredores complicados,
E gostam de jogos sofisticados.

E o sol,
O mar,
As estrelas no céu a brilhar,
São sempre lá,
Para eu olhar. 

Quero antes ser sozinha,
De ninguém senão minha.

E ir a ver o mar.
Namorada do tempo, solta no ar.
Vagabunda de praia, que não sabe nadar…

segunda-feira, 25 de março de 2013

Pressentimentos...


Pressentimentos…
Impressões…
Sensações…

Não sei se são reais,
Ou se são ilusões.
Mas tenho de vez em quando.

Certo frio na alma
Que me leva a arrepiar caminho
Quando dobro alguma esquina.

Perigo no olhar de alguém com quem cruzo.
Cheiro estranho de segredo,
Ou de inseguro…

Coisa de mulher.
Nunca se enganam as mulheres…

Nestes dias tem sido…

Como se o escuro me esperasse lá á frente.

Esquisito isso!

Meu pai diria que é feitiço.
Sinal de forças que se desdobram
No nevoeiro profundo, que existe sem sabermos,
Desde que o mundo é mundo.

Minha mãe diria que é maluquice.
Vês o resultado dos filmes,
Dos livros,
Não te disse?

Eu não sei…
Não consigo nomear o nome…
Sei que sinto,
E é como que um abraço informe.
Como que uma sombra enorme…

Á espera que eu chegue.
Para me deitar a mão,
Para me encostar na parede…

Pressentimento, ilusão ou medo…
Seja aquilo o que for,
Que eu não chegue lá cedo.

… Não deixes que me faça maldades…

domingo, 24 de março de 2013

Enquanto o sol se põe na sombra da lua


Deita-te comigo,
Chama-me tua.

Ainda te lembras do caminho
Para a minha rua?

Hoje queres-me,
Amanhã não.

Namoras-me o corpo
De olho no coração.

Brincas que choras,
E choras sem sentir…

Chegando cedo demoras,
Sem estares, começas a ir.

Queres-me boneca que ri.
Vazia sem alma por dentro.

Que finja não sentir o que sinto,
E que serene o fogo do meu tormento.

Que desejo é esse que tens?
Que paixão, se morta, queima de tesão?

Se tens medo porque vens?
Se gelas, como te bate o coração?

E dizes que faço filmes e que invento!
Quando tu és ilusão durante quase todo o tempo!

Só atraio homens complicados…
Mas os simples não deixam história.

Os difíceis são lembrados.
Dos cinzentos não guardo memória.

Deita-te comigo
Chama-me tua.

Enquanto o sol se põe na sombra da lua.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Só outra vela apagada


Eu não quero presentes,
Nem brilhantes cravejados de diamantes.
Mas quero sentir-me segura e protegida.

Quero que quando o mundo
Vier para me agarrar,
Eu tenha alguém nesta vida que o faça recuar.

Quero nunca mais ter frio,
Nem tremer sozinha com medo.

E vou dizer-te um segredo…
Tantas vezes fico feliz
Com um dedo a enlaçar outro dedo…

Nunca te pedi passeios prolongados,
Nem jantares sofisticados,
Nem que me levasses a sítios nunca antes visitados…

Mas pedi-te
Que não me deixasses chorar
Quando o escuro começa a chegar.

E tu escolheste ignorar.

Não é qualquer um que paga o meu preço…
Porque eu quero tanto quanto dou.
Dama da noite sem fim nem começo…
É aquilo que eu sou.

Não imagines tabela para as minhas horas,
Nem faças cálculos de quanto vale um meu dia…
Não há fortuna que chegue para comprar a minha alegria.

Se eu conseguir sobreviver até a noite estar passada,
É sinal de que posso continuar sozinha,
Sem ter que pedir nada de nada.

Se o sol nascer,
e me encontrar ainda acordada,
É porque tive em mim força para fazer
Nascer do escuro,
A mais linda madrugada.

E tu podias ter sido mais
Do que só outra vela apagada.

Podias ter sido tudo,
E ficaste sendo quase nada…

terça-feira, 19 de março de 2013

Se soubéssemos quando vamos...


E se soubéssemos
Quando vamos…
Será que íamos chorar menos?
Será que íamos sofrer menos?

Quantas palavras não calamos
Porque pensamos que temos todo o tempo do mundo!...
E julgamos que podemos a qualquer altura dizer…
Como se não houvesse no fundo
Limite de tempo para viver.…

Porque não deixar saber?

Depois é tarde.
Já não ouvimos,
Já não sentimos.
Já não há nada a fazer.

Falar enquanto nos podem ouvir.
Elogiar enquanto nos podem sorrir.

Depois não interessa.
Depois nada vem, do que ficou por vir.

Se eu for amanhã
E se nunca mais nos voltarmos a ver,
Não levo comigo nada por te dizer.

Nem te guardo rancor,
Nem mágoa pelo que não conseguiste fazer.

Continuei a viver
Do jeito que me ensinaste…
Um dia de cada vez.
Um presente novo em cada momento,
Prazer e alegria no pensamento.

“Um dia quando eu morrer,
Ensinas a outro qualquer
O que estás a aprender”…
Lembras-te?
Nunca consegui esquecer.

Se fores antes de mim,
Não te preocupes,
Eu sei tudo o que não me chegaste a dizer.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Dona de mim.


Eu sou dona de mim.
Desculpa, mas sou assim.

Não vim de tão longe,
Nem andei tanto caminho,
Para me perder do que sou,
Pra mudar o lugar aonde vou.

Por muito que goste de ti,
Gosto-me a mim primeiro.
E por muito que o teu amor seja verdadeiro,
Se prende,
Se ata,
Não é amor inteiro.

Porque quero um amor que liberte,
Que seja solto no meio das tentações,
Que me prove e me adore,
Mas que não imponha condições…

Se me fechares a janela,
Eu salto por ela
Se não me deixares voar,
Eu fujo de ti,
Nem que seja a rastejar…

Não me conheces, tu…

Nem sabes há quanto tempo estou a andar!
Desconheces os lugares aonde passei,
Os amores que eu amei…
O que cada um deles me fez mudar…

Nem penses seres capaz de me segurar.
Sou luz que não escurece,
Quando mandam apagar.

E tenho em mim qualquer coisa que enlouquece,
Que se revolta e estremece
Se me querem domar.

Sou como sou.
Nunca serei ovelha que vai no rebanho.
Tenho muito de louca, com muito de estranho…

Diferente de todo o mundo, é o meu tamanho...

sexta-feira, 8 de março de 2013

Esperança da madrugada


Não me chames,
Não me prendas,
Não digas nada.
Só te deixa ficar perto,
Para quando a tempestade estiver passada.

Eu estou acostumada.

Não tenhas pena dos meus gritos,
Nem te condoas com os meus ais…
Se nunca desceste aos infernos para ver os aflitos
Agora comigo vais.

Depois foge, não voltes lá nunca mais.

Quando eu tropeçar,
Deixa-me cair.
Quando eu chorar,
Deixa o meu choro sair.
Não sintas por mim o que é costume sentir.

Eu aguento o chicote que vai e torna a vir.

Fica comigo mesmo quando eu te mandar embora.
Fica á minha espera do outro lado da porta,
Senta… às vezes demora.

Esquece o relógio, esquece a hora.

Não sou filha do tempo,
Nem sou herdeira de nada.
Sou viajante perdida
Que entrou na madrugada.
Não tenhas pena de mim.
Espera-me só…
Mais nada.

Quando passaste por mim na rua,
E me viste de cara lavada,
Não tinhas como saber que estou sempre maquilhada.

Não sou só alegria,
Não sou só obra acabada.
Fico triste como a anoite
Sem precisar de quase nada.

Se mesmo assim me queres,
Espera por mim até a noite estar passada.

A única coisa que tenho para te dar, é a esperança da madrugada…

segunda-feira, 4 de março de 2013

Minha cidade bonita...


Era a cor do sol que queimava,
Ou era o céu que de tão azul ofuscava?…
Era um tudo que parecia nada…
Era a minha cidade bonita que eu amava.

Parecia que tudo era para sempre,
E parecia que o tempo não mudava…
Lembro-me de andar pelas ruas com o meu pai ,de mão dada.
Numa conversa só nossa que nunca acabava.

O cheiro…
O cheiro a terra molhada.
O som á noite dos grilos numa sinfonia inacabada…
Para onde foi tudo o que era para sempre,
No tempo em que o sempre ainda tardava?…

Minha cidade bonita!…
Enfeitada de acácias encarnadas…
Milhões de diamantes em estrelas penduradas.

Uma terra que era minha…
Um lugar que era minha casa.

Ainda não voltei, papá.
E o nosso Scala já não está lá.
A tua Fazenda já não é mais Fazenda.
O Marialva mudou o nome…
Deitaram abaixo o Dragão de Ouro…
Fecharam o Costa do Sol…
A marginal aonde passeávamos está muito estragada…

Mas eu sei que de onde estás,
Tu vês as mesmas ruas,
As mesmas estrelas e a mesma cacimba da madrugada.
Porque o Homem pode mudar todas as coisas que são suas,
Mas dentro do nosso coração
O Homem não consegue mudar nada.

Leva-me contigo ao café aonde íamos…
Vamos os dois a pé como fazíamos,
No tempo em que o tempo andava, e nós não sabíamos…
Não dávamos por nada.
Eu pequena, tu grande, os dois de mão dada.

“Para mim uma coca-cola e uma arrufada…”
Para ti um beijo maior do que qualquer estrada…
E olhamos os dois a nossa cidade bonita…
Perdidos no calor da nossa terra amada.

            Um dia… um sorriso por cada lembrança guardada…