sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 21 de abril de 2013

Aprende a esperar


Falta muito para o Natal? Falta?
Aprende a esperar, filha…

Ecos…
Vindos de longe,
De dentro de outro tempo…

Quantos dias? Quantas noites?
E se eu fechar os olhos e acordar lá?

Posso adiantar o relógio?
Riscar os dias no calendário? Posso? Posso?

Nada disso trará o Natal mais depressa.

Existem coisas no mundo
Que não consegues influenciar…
O caminho da vida só se faz a andar.

Mas e se toda a gente julgasse que agora é Natal?...

O fumo volteava no ar, em forma de espiral,
A brasa vermelha chupada alargava, morria, crescia…
Aquele cheiro gostoso de tabaco de pai!…

Ainda que todos cressem ser Natal, ainda assim não o seria.
Só quando chegar o dia.

E eu cá de baixo pensava que ele podia.
Podia fazer chegar tudo o que queria.
Se perdesse aquela sensatez,
A tal compostura que sempre lhe via.

Caramba! Tanto que eu queria!!

Nunca encontrei tamanha calmaria.
Nunca aprendi a esperar o que seria…

Ah, se eu pudesse!

Entrava no castelo encantado do tempo,
Abanava-o pelas bases e depois logo via…
Natal, felicidade, amor, tudo viria!

Aprende a esperar, filha
Tudo vem quando chegar o dia.

            Saudades, papá, da tua companhia…

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Eu volto qualquer dia


Volta depressa, ele pediu…Volta depressa…
E ela assentiu, distraidamente. Claro, depressa…

Todos os dias ele colava os olhos e as esperanças na janela.
No toque desejado da campainha…
E a ideia sempre à espera dela,
E ela nunca vinha!…

Porque o tempo não passa à mesma velocidade para quem tem mais idade.

Volta depressa…
Ou posso já cá não estar.
Teria gostado de acrescentar.
Impediu-o um assomo de dignidade, de orgulho…
Mendigar carinho, não!
Esperar…

E já não espreitava á janela.
Já nem o deixavam levantar da cama!...
Aonde estava, quando viria ela?

Então, será hoje?
Perguntavam carinhosamente.
Que sabiam deles aquela gente?
Não foram eles que a cuidaram,
Nem sabem o quanto passaram!
Hoje ou amanhã, que importa?
É certo que vou tê-la ali a entrar a porta.

Que não o olhassem!
Que não o lamentassem!
Toda a vida fora assim.
Orgulhosamente de nariz no ar.
Ser velho não é que o ia mudar.

Ela má? Não é que fosse má...
Era jovem.
Tantos planos que mal cabiam na vida…
Tanta coisa nova a ser vivida.

Ele é rijo, dizia ela a quem a ouvia.
Está para durar, e mal ela sabia.

E finalmente voltou.
Esperou por si tanto quanto podia…

Volta depressa…
Eu volto qualquer dia…

Porque nunca sabemos quando é a última vez…

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Loucos nós dois...


Louco tu, que tentaste guardar-me no teu abraço,
Mesmo sabendo que os meus ombros são mais largos do que o mundo,
Maiores do que qualquer espaço!...

Louca eu, que por momentos acreditei
Que podia ser uma pessoa de verdade,
Como um Pinóquio de pau, trazido para a realidade.

Loucos nós dois…
E quem olhava para nós, e nos via como normais…
Alegres, simpáticos e joviais…por um instante…

Por um instante mais…

Outra vez em que estive perto…
Estive tão perto de querer aterrar!
Romeira errante no deserto…
Dona dos sonhos que quero sonhar…

Tão mais belo é voar!…

Mesmo sem sair do mesmo lugar.

Aprendi que um “vem comigo”,
Muitas vezes equivale a um “desiste de ti”.

E sei que não me entram no coração,
Com a mesma facilidade com que me põem a mão…

Porque o corpo
Esse pode ser fraco, e ir com a tentação.

Mas dentro de mim, há um lugar em que não entram, não…
Um cantinho isolado na minha acompanhada solidão.

Aí, só os loucos encontram salvação

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Deixa-me livre, ama-me solta...


Vem e roça…
Encosta em mim e estremeço…
Vem aragem que sopra,
Caricia de vento,
Cor de alegria que pinta o meu dia.

Ciclistas vestidos com calças garridas,
Caminhantes com fitas nos cabelos…
E ao longe as montanhas, as árvores…
O mundo baixinho, pelos tornozelos…

Entra no meu decote
Raio de sol que aquece o mundo inteiro.
Azul de um céu mais real do que verdadeiro
Som de gargalhada cristalina que brota de alguém feliz…

Venham todas as coisas bonitas,
Gostosas,
Que fazem a minha vida ser mais bela.

Venham e fiquem comigo!

E apanho uma bebedeira de cor, de som, de alegria.
E bebo, caio, curto e ressaco no mesmo dia.

E sou á uma
Mulher menina, sedutora doce criatura…

Vem e cheira-me,
Encosta e passa a mão com calma,
Passa o dedo devagarinho, assim … faz sim...
O rastilho aceso que deixares a queimar a minha alma,
É por onde a vida vai entrar em mim.

Essa mão humana com que me dás prazer,
É só a forma que a Natureza encontrou de me ter,
De me namorar e surpreender.

Aprende comigo, enfim…

Não sou mais tua,
Do que a vida é de mim.

Deixa-me livre… ama-me solta.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Amigo é... a melhor coisa do mundo!...


Num dia em que estava mais triste, e a sentir-me abandonada. Depois passou, sempre passa, mas ficou o poema...

Meu amigo
Não é o que ri comigo,
Mas corre assustado quando o céu escurece.
Nem aquele que foge com medo e estremece.

Meu amigo é o que fica
E não desfalece.
Aquele que enfrenta o mundo para me apoiar.
E aquele que não tem receio de se mostrar.

É o que me ampara se eu cair,
Aquele que quando eu não conseguir,
Me dá a mão, me ajuda a seguir…

Porque se for menos do que digo,
Então não é meu amigo.
É só mais outro conhecido.

Às vezes
Estamos tão perdidos, e sozinhos,
Tão à toa nos caminhos,
Que julgamos amigo qualquer um que aparece…

E é ilusão,
E nem sempre acontece.

Nenhum de nós é perfeito,
Nem ideal,
Nem maravilhoso.

Mas quando gostamos de alguém,
E quando lhe queremos bem,
Não há perigo que nos faça fugir,
Nem decoro que nos impeça de o seguir.

Os que mudam o trato,
E variam o discurso,
Conforme é mais conveniente usar,
Não são mais amigos
Do que aqueles que não conhecemos,
Dos que não têm porque nos gostar.

Sinto-me bandeirante num oceano sem fundo…
Assinalando como falsos os portos do mundo…

Quem desenhou a minha carta de marear,
Se calhar nunca foi sozinho, por aí, a navegar…

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Mania de acreditar...


Seria um dia igual a qualquer outro dia,
Se não fosse mais um dia em que ele tinha combinado aparecer…

Desde cedo, ela o esperava.
Lavada, perfumada, a mais bonita roupa vestida.
Já não era a primeira vez… e mesmo assim ela esperava…
Ele hesitava, vinha e não vinha.
Prometia e desistia, ganhava coragem e recuava.
Como um menino assustado que tem medo de atravessar a estrada.
Ela esperava.
Como sempre, acreditava

E as horas passavam num desdobrar preguiçoso de tarde que nada tem para oferecer.
E os longos cabelos molhados da manhã estavam secos agora.
E o cheiro a lavado de sabão fresco, perdia-se no tempo que deslizava.

Ele tinha dito que vinha.
Ela esperava.

Outra fosse, e há muito que o tinha posto com caminho.
Que o tinha despachado, deixado a falar sozinho.
Outra fosse que mesmo que ele a quisesse agora, dela só encontrava o lugar, e a saudade na boca. 
E o amargo no coração, de a ter deixado ir embora.
Outra fosse, que não ela…
Porque ela esperava.

E insistia, e perguntava, e confiava.

E a cada pergunta que ela lhe fazia, e que ele não respondia,
mais certo era já que não vinha.
Que nalgum recanto do mundo, estava escondido com medo, enrolado em segredo.
A odiar cada segundo…
A odiá-la a ela que perguntava,
Que o atormentava.

Porque pior ainda do que ele saber que não tinha coragem,
Era aquela certeza, assim, escarrada,
De que ela ainda estava lá.
De que não era zangada…

Porque era tão mais fácil se ela o insultasse, se não lhe falasse!…
E assim ele podia dizer, como costumava fazer,
que a culpa era da vida, do que tinha que ser…
Que se fosse para ser, tinha acabado por acontecer.

Como era bom se pudesse ele ter esse sossego, esse descanso!
Mas não!
Ela esperava!
Malvada, ela! E chamava!
Pior ainda… acreditava!…

Porque carga de água a vida tinha que lhe ser tão madrasta?
Porque é que ela não era só mais uma mulher igual às suas outras,
Que se iam caladas, amuadas,
Que o deixavam em paz,
Às voltas com os seus fantasmas?

E quando a noite caísse,
Ele voltava a procura-la…
Num desejo de paixão
Que não controlava.

Ela ouvia tocar o telefone, e hesitava…
Do outro lado da linha, aceso e quente, agora ele esperava…