sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 28 de junho de 2013

E agora...

Oito horas da manhã e eu ia a caminho da praia.

E já o mundo tinha acabado para alguém.

Na estrada,
Caído,
Desamparado..

Sem perna,
Sem braços…
O sol da manhã morto nos olhos baços…

Quantas palavras deixou por dizer,
quantas coisas ainda por fazer…

Inerte, sem se mexer.

Talvez para o ano faça…
Talvez para próxima vá ver…
Agora não posso.
Tenho compromissos,
Horários,
Problemas por resolver.

Quantas mulheres deixou por beijar,
Quantas loucuras por realizar,
Porque não era o mais adequado.
Porque gente crescida tem o futuro planeado.

E agora…

Todo arrebentado.
Pedaços de carne vermelha por todo o lado.
O trânsito horrorizado, parado!

E ele com todo o tempo do mundo, quieto num vazio profundo…

Sem capacete, sem sapato, sem nada.
Como um pobre bicho vadio esborrachado na estrada.

É para isto que temos tanto cuidado?
Tanto juízo, tanto sizo, tanto sonho adiado?…

Se ele tivesse sabido antes de sair…

Ah, se a minha avó soubesse, ainda hoje era viva!...

Viva também não digo.

Mas mais feliz sim… isso tinha sido!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"Outras direcções"...

Outras direcções…

Para ali, fica o lugar tal,
Para acolá, o que se chama assim…
Em frente, este e mais aquele…

E por ali… outras direcções.

Direcção que pode ser qualquer lugar do mundo…

Porque o encanto está em seguir pela estrada que não diz aonde vai ter.
E o gostoso é arriscar sem saber.

Outras direcções era aonde íamos todos os dias de manhã,
Mal o nosso pai virava a esquina para ir trabalhar…
Outras direcções era ao fundo das Pedralvas,
Era a Estrada de Benfica sempre em frente,
Era Sete-rios.
Era o Rossio…
Era aonde a aventura nos quisesse levar…

Saudades!

Saudades gritadas.
Porque ´murmuradas ficam com paladar de água morna com açúcar.
Ficam com gosto de sede, e de quero mais…

Cada dia uma promessa,
Um livro em branco.
Tanta alegria no coração!…

Outras direcções…

Sempre segui outras direcções.

Comecei lá longe,
Quando largava a mão do meu pai
E me aventurava dentro do jardim…

E ele só olhava daquele jeito sério dele,
Assim como quem sabia que o mundo um dia
Ia ser pequenino demais para mim…

Outras direcções…
As que me levam e trazem por fim.

Por perceberem a aventura da nossa jornada,

Muito obrigada aos poetas das tabuletas de estrada…

quarta-feira, 19 de junho de 2013

50- Velocidade Controlada

50- velocidade controlada

Não ultrapasse, ou cortam-lhe a estrada.

Não creia que pode mudar o mundo velho.
Olhe lá à frente o sinal vermelho…

Não queira voar mais, sempre mais.
Contenha-se…
Seja igual aos demais.

Siga a boa velocidade!
Sendo que boa, é a que determina a tabuleta.:)

Nada de ideias de que pode vencer o vento…
E que consegue enganar as máquinas.

Cometa loucuras, atreva-se!
Que diabo espera para ir correr aventuras?…

Mas sem tomar o freio nos dentes.
Espetam-lhe a espora nos flancos…
Fazem-no baixar a garipa à força da chibata.

Ultrapasse a velocidade controlada,
Ouse pisar o acelerador,
Queira viver sem temor,
E cortam-lhe a estrada.

É ilusória a liberdade que o asfalto nos dá…

Finja que é livre na gaiola dourada que lhe coube nesta insana jornada.
Respeite o que alguém disse que você não pode ultrapassar.

Faça dos nossos, os seus limites!
Está na sua mão ser feliz.:)

Pode parar, inverter, virar!
Se preferir pode até travar!
E levar a sua viagem a fingir que está a andar.:)

Mas não passe dos 50-velocidade controlada.
Ou então quem pode, corta-lhe a estrada.

E mais nada.


Não há detector de radar que nos possa salvar.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Sem ciumes do passado que não era teu

Sem ciúmes de um passado que não era teu.

Não sou pura, não caí imaculada do céu.

Vivi muito.
Por aí…
Quem não viveu?
Alguns mais, outros menos do que eu…

Mas naquela altura, nada meu era ainda teu.

Se hoje deste por mim no meio da multidão,
É porque as minhas cicatrizes me distinguem dos demais.
Porque me tiram do rol das pessoas normais.

Seios que palpitam, pernas que se abrem,
Todas têm iguais…
Umas menos, outras mais.

O que viste em mim é só meu.

Lutei em muitas guerras.
Guardei troféus inúteis de muitas conquistas.
Às vezes perdi, e tomaram-me à força nas estradas da vida.
Outras vezes dei-me, porque me deu vontade de ser possuída.

Em todas as alturas estive tão desprotegida!…

Não tenhas ciúmes de um passado que não era teu...

A minha alma cansada erra por aqui desde o princípio dos tempos…
E às vezes sinto-me a mais sozinha das criaturas.

Não foste o primeiro a quem amei.
Chegaste com séculos de atraso para isso.
Mas podes tentar ser o último, se o teu coração quiser.

Melhor do que isso não tenho para te oferecer…

Talvez eu me tivesse guardado para ti,
Se soubesse que ias aparecer…


Mas eu ainda sou eu, para quem me souber reconhecer.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Vou acabar por me constipar...:))

Adoro as pessoas que saem mesmo quando chove!

Só se não chover…
Se o tempo estiver bom…

E eu de nariz colado na janela,
A avaliar…
A ver o céu a mudar…

Nossa Senhora da Conceição, faça sol e chuva não!
Nossa Senhora da Meia-Lua faça sol que eu quero ir para a rua!

Como um mantra cantado de coração.

Às vezes fazia sol, outras não...

E se chovia, ninguém saía.

Lá se ia o Dragão de Ouro,
Os gelados no Scala…
A voltinha da Marginal…

Adoro as pessoas que saem mesmo quando chove!

Um dia quando eu for grande, quando eu crescer,
Eles vão ver!
Saio sempre que me der na gana,
Saio mesmo que esteja a chover!

Assim tenho vivido a fazer.

Amo de paixão os resistentes como eu, que encostam os carros,
Tiram as toalhas e as lancheiras cá para fora.
E carregam o guarda-sol num grito descarado de desafio à chuva,
Encarando de peito aberto a escuridão.
Vem! Não me estragas o dia, não!

Não sou a única que sai quando chove.
E que acredita que mesmo sem sol se pode ver o mar…

Menina que choras porque não foste passear,
Não fiques triste,
Um dia eu vou-te buscar.

Um dia pego na tua mão, quer faça sol, quer não,
E por muito que chova,
Trago-te para sair, no meu coração.

Tanta chuva que é precisa atravessar!...

Já sei, mamã… vou acabar por me constipar….:))

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ver o mar...

Poeira dourada,
Pó de estrelas misturado no nevoeiro da manhã.

Como língua molhada nas pernas,
Subindo pelos joelhos…
Coisa viva que cola na gente.

Tantas rochas!
Tantas arribas!

E o mar…

Não ao fundo de cada rua,
Como na minha princesa quente.
Mas sempre comigo,
Desde sempre.

Felicidade é aquilo que se come às dentadas,
Quando o vento da praia entra na nossa boca…

Frescura que molha o corpo,
Que acelera o coração…

Tão bonito!
Arrepio gostoso, que não vem do frio.

Podia acabar o mundo que estava tudo bem.

Se eu tiver o sol da manhã, que todos os dias vem.
Pelo menos para mim,
Ainda que para mais ninguém…

O pó dourado das estrelas…
As estrelas vêm de noite fazer amor na areia…
E é bom! Sabe bem…

Colchão de lua, cama de nuvem.
Lençóis de vento a ondular…

Prazer…

E quando ando pela areia o mundo todo fica cor de laranja.
O mundo sou eu e o nevoeiro dourado no ar…
Ninguém acordado para me fazer chorar.
Mal nenhum me consegue lá chegar…


Como é bom ir ver o mar!..

domingo, 9 de junho de 2013

Se quiseres...

Olhos sem vida…
Se quiseres, passa-me por cima.

Nem grande, nem pequeno,
Um cão rafeiro.
Magricelas e mal tratado…

Atravessou em frente do meu carro.
Devagar,
Numa indiferença sem tamanho, nem consciência.

Olhou,
Eu sei que olhou.
Se quiseres, passa-me por cima.

Sem se importar…
Cansado de ter cuidado com os carros.
Cansado de ter medo.

Jacob...

Viola ao ombro,
Mochila ás costas,
Pé no mundo.

Olha o comboio!
Que se dane o comboio…

Olhou…
Farto de correr.

Se quiseres, passa-me por cima.

Um abraço de frente.
O comboio levou-o.
A ele,
A viola e a mochila.

O cão olhou para mim.
Sei que olhou.
Estava escuro, mas eu vi!

Segue o teu caminho cãozinho cansado.
Talvez seja essa a estrada que te leva a algum lado.

Jacob…

Olha o comboio! Cuidado…


Agora já quero… vamos dar a volta ao mundo…

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Tão diferentes!...

Faz-nos bem
Quem nos faz felizes.

Eu sou ardente, e apaixonada.
Tenho sangue quente,
Choro e rio por tudo, e por nada.

Corro sem destino e sem sentido,
Espreito sempre aonde é proibido…

Não conheço limites, e canso-me demais.

Ele não.
Ele vive em paz.

Eu fui e voltei,
Perdi-me, esfalfei-me, ri, chorei!
Ele não saiu de onde estava sentado.
E olhou calmamente o meu ar desarrumado.

Ah, mas eu vivi!
Fui aqui, fui ali!
Fiz quanto quis!

Sim, mas não vieste feliz.

Que raiva,
Que fúria!
Não, não vim feliz!

Eu dou mil voltas à pista
Para descobrir que ela é redonda e não tem saída.
E ainda assim digo que não foi uma corrida perdida…

Ele tranquilamente explica que bastava ter prestado atenção
Antes de começar a correr.
E que deitar os bofes de fora,
Não implica saber o que estamos a fazer.

Tão diferentes!

Mas quando estamos juntos é como se o mundo estivesse a acontecer.
Quando estamos juntos é tão bom, que melhor não podia ser!

Ele põe sanidade na minha loucura…

Orgasmo bem sentido, é aquele em que o prazer dura.
Não aquele que chega, e vai embora depressa demais.


Encosto, e aquieto nele os meus temporais.

domingo, 2 de junho de 2013

Dono de todo o mundo

Hoje na praia estava um vagabundo.
Um como eu, dono de todo o mundo.

Foge dessa gente que tem piolhos!
Mamã querida,
Piolhos fazem parte da vida…

Olha-se e vê-se que não é boa rês!
Se soubesses, minha mãe,
As coisas que a tua filhinha já fez!…

Olhou para mim e percebeu.

Não viu o bikini pequenino de cor garrida.
Não me viu como uma mulher gostosa estendida…

Sorriu para dentro de mim.
Cheirou a minha alma perdida.

No seu rosto escurecido pelo pó de toda a vida,
No seu olhar cansado por tanta estrada batida,
Eu reconheci-o também.
Tenho pena, minha mãe

Um igual a mim.
Outro sem abrigo.

Sem eira nem beira.
Sem ninguém que o queira.

Perdidos na praia das pessoas normais,
Fingindo ser como os demais…

A apanhar sol.

Nem ele homem, nem eu mulher.
Foragidos anónimos de uma terra qualquer.

Quem passava por nós não percebia.
Mais ninguém via…

Olhos cheios de vendavais,
Raiva e fúria em doses iguais.

Deitados na areia escondidos da Inquisição.
Com medo da fogueira que nos condena o coração.

Feiticeiros antigos do princípio do mundo.

Uma sem abrigo e um vagabundo.