sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 2 de julho de 2013

Conversas em Família- III

Puxo-te os tótós…
Olha quem fala! Agora usas um também…

De lado! Não daqueles que fazia a nossa mãe…
Não… Com ganchinhos de joaninhas vermelhas nas pontas…

Escondias-te no quarto para não apanhar…
A mãe ficava brava com pouca coisa… Ao pai bastava olhar…

E fazíamos desenhos em papéis amarrotados…
Enquanto o mundo lá dentro caia aos bocados.

Roubei-te um namorado…
Sempre foste assim, sempre gostaste de brincar.

Íamos à missa ao Domingo, lembras?
Claro, a mãe dizia que era coisa de meninas de bem…

E esticávamos o caminho até voltar.
Tu esticavas! Eu não me queria era atrasar!…

Disse-te logo, ele era muito mais velho do que tu…
Tinhas grande moral para me avisar!…

Tu tinhas juízo… Contigo podia ter sido diferente.
Nós sempre fomos diferentes do resto de toda a gente…

Sempre.

Menina, que saudades!. Minha maninha pequenina
Já há algum tempo que… Mas sabemos. Não precisamos de...

De salamaleques, como dizia a mãe… Não, não precisamos.
A gente sempre se entendeu no olhar, sem precisar falar.

Aprendemos a não ter que falar.
Estamos longe, mas tão perto quanto podemos estar.

Já estivemos mais longe, nós duas.
E nem assim… Nunca nos conseguiram separar.

Sabes que estou a ficar cansada?
Estás há muito tempo longe de casa…

Já não sei aonde isso é…
Constrói uma, num lugar especial…

Prefiro deixar os sapatinhos á beira da chaminé…
Tu ainda acreditas no Pai Natal!...
À minha maneira maluca, nunca deixei de ter fé.

4 comentários:

  1. ... tríptico familiar intimista
    a mãe, o pai, a irmã
    fez-me sentir como um voyeur

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    1. E não nos sentimos sempre voyeurs quando espreitamos para dentro de algum poema, livro...? Talvez ler seja isso mesmo. Um acto de voyeurismo consentido por quem é espreitado...
      Beijinhos, FM. Obrigada pelo comentário

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  2. Respostas
    1. Obrigada, Henrique! Muitos beijinhos também para ti!

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