sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O meu filho não sabe, não tem como saber

O meu filho não sabe.
Não percebe como eu consigo ter carinho pelo pai dele depois de tudo.

Ele não pode saber.
Não estava lá…

Não nos viu aos dois, quase miúdos.
Cheio de sonhos, de fantasias.

Não viu quando ficámos na rua a dormir, porque não tínhamos para onde ir…
Morremos de frio, descongelámos ao sol, passeámos na chuva…

Fizemos tantos planos, tantos e tantos mais!
Nós dois contra um mundo sempre bravo demais.

Tivemos medo, muito medo!
O escuro rondou a nossa porta, calado, em segredo…
Festejámos alegrias
Em dias bonitos, que não foram muitos dias.…

Ele nem sempre foi assim, do jeito que é hoje.
E alguma da culpa também foi minha.
Esperei demais, sonhei demais…

O meu filho não sabe.

Compaixão…
Vontade de pedir perdão…

Perdão porque tudo falhou.
E ninguém falha sozinho.

Saudade de nós dois quase meninos!

Olho para ele e não vejo só um homem envelhecido, alcoolizado.
Vejo ainda o rapaz bem-parecido e bem-humorado,
Que andava quilómetros a pé para me vir ver…
Que me trazia latas de ração militar da tropa, escondidas, sem ninguém saber.
Que enfrentou a fúria terrível do meu pai, para não me perder.

Dividíamos os pacotes de bolacha Maria a meias, quando não tínhamos o que comer.

O meu filho não tem como saber.
Mas um dia, quando for mais velho, há-de perceber.

Há muitos anos que não amo o pai dele, como uma mulher ama um homem.
Mas no meu coração, a lembrança do que fomos, continua a viver.


E não gosto de falar nisto, caramba! Faz-me sempre chorar…

12 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigada, FM. Beijinho para ti! Uma noite feliz:)

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  2. Há tanta coisa que eles não sabem... mas um dia hão-de saber! :)

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    1. Vão sim, São. Pena que talvez já não estejamos por perto nessa altura. Eles vão ter vontade de nos dar muitos beijinhos. Sei muito bem como é...
      Beijinho, São! Olha, hoje vou a Benfica almoçar com a Paula. A ver se um dia destes combinamos todas e nos encontramos por lá... a modos de matarmos saudades umas das outras:))

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  3. É tão Lindo, tão Comovente este Seu poema que me faz lembrar a minha ida a Moçambique em Serviço Militar, as vivências que lá tive o meu regresso a casa a vida posterior como casal e seu fruto.Há tanto que o filho não sabe... mas vai descobrindo pouco a pouco... Agradeço este Seu Poema que retrata uma Época
    na Vida de muitos de nós. Com Amizade JSGomes

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    1. Olá, José Gomes^
      Obrigada pelo seu comentário tão bonito! Os nossos filhos desconhecem muitas coisas. Mas o tempo ensina muito, amacia o temperamento indomável dos jovens... chega um dia em que eles acabam por nos perceber. Não foi assim connosco também?
      Um beijinho muito grande para si, com amizade.

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  4. Bom dia
    Lindo de ler, Gostei
    beijo
    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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    1. Obrigada, Cidalia! Beijo para ti também! Uma noite feliz!

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  5. Glorinha, o filho não sabe... Mas tu sabes. Sabes das partilhas, das cumplicidades, das ilusões e desilusões, da vida vencida em cada dia, do desgaste, da amargura, das dificuldades e angústias que destroem, às vezes, os casais... Das esperanças e desistências, da coragem, que nem todos têm...
    Do carinho que fica e ainda vos liga...
    Deixa-o amadurecer mais...
    E já estou a chorar também.
    Um beijinho muito grande para ti.

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    1. Sei, Milly. E tenho esperança que ele venha a compreender um dia, e não seja tão duro a julgar...
      Sabes como são os jovens.. cheios de idealismo, de grandes certezas. Mas passa. É como dizes, quando amadurecer um bocadinho mais.
      Obrigada, Milly! Beijinho muito grande também para ti, e um restinho de noite feliz! Não chores... sorri...
      <3 <3 <3

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