sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Conversas sem juízo

E porque nunca me conheceu
Olhou para mim e achou-me bem.
Declarou-me calma e equilibrada.

Bem se vê que não percebe nada!

E disse notar perfeitamente
Que eu tinha progredido,
Evoluído.

Via tudo claramente.

Está o mesmo escuro de sempre.

Os mesmos temporais.
Vento forte demais!
Cada vez mais…

Ondas de chuva,
Bofetadas com luva.

Tranquila.
Quem? Eu?

Incompetente!

Por mais que tente,
Por mais que aguente…

Nada à roda de mim.
Nada e este gosto ruim.
Este gosto azedo de medo na boca.

Não. Já não está louca.

Louca é a senhora sua mãe.
Ser louca é coisa tão pouca!

Não é o cérebro que se engasga,
É a alma que estica e se rasga.

Não sei que livros leu.
Não sei nada do que aprendeu.


Mas declarou-me boa e nunca me conheceu.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Nada me pertence realmente

Nada é meu,
Nada me pertence realmente.

Dizem que vai ser assim,
Que vai ser tudo diferente…
Dizem que.

E desdizem.
E mudam de opinião.
E…
Porque podem.
Porque se me dão,
Dão aquilo que é deles.

Descobri que não me importo.
Tão pouco quero saber.

Só me deixa triste aquilo em que acredito.

Desci as pontes levadiças,
Soltei os crocodilos no fosso.
Montei sentinela em mim outra vez.

Não aceito nada.
Nada do que me possam dar,
Vai ser de facto meu.

Assim sou livre e liberta.
E o mundo é uma porta aberta,
De onde posso entrar e posso sair.

Porque nada é meu.

E meu é só o caminho que eu quiser seguir.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Vá-te 69 e um café...

Vá-te 69 e um café…
Um convite para entrar.

Meninas bonitas à porta.
Ou não tão bonitas assim…

Mulheres que têm a idade que aparentam ter.

Calças coladas,
Saias arregaçadas…

Bocas pintadas.

Mancha de cor garrida
Na noite escura da vida.

E um café…
Com uma bebida.

69…
Número de magia.
Entra antes que seja dia!

Lá longe vai amanhecer.
Noutro lugar está a escurecer.

Beber…
Mulheres fáceis, e homens que não sabem foder.

Acreditam que compram prazer.

Que importa?

Vá-te 69 e um café…
Fumar, fingir…
Abrir a porta do inferno…

E a vida é o eterno que tarda a vir..

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Dourar a chuva

Chuva dourada...

Andar à chuva é tão bom!
Bom como fazer xixi pelas pernas abaixo.

Verdade!
Sensação de liberdade!

Guarda-chuva,
Gabardina,
Casacão…
Apanhar chuva, isso não!

Fechar a porta da casa de banho,
Descer a tampa da sanita,
Lavar as mãos com sabão…
Menina bonita.
Mas pelas pernas abaixo, isso é que não!

Ah, não?

Sim!
Posso sim!

É meu o corpo molhado de chuva, molhado de tesão!
É minha a vontade de fazer xixi em qualquer ocasião!
Até no chão.

Frio e quente,
Os dois a descer,
Os dois a meus pés,
Como amor acabado de fazer.

Poucas coisas na vida dão mais prazer.

Deixar molhar,
Deixar acontecer.

Dourar a chuva quando tiver que ser.

Varre bem, vassourinha

“Varre, varre vassourinha.
Varre bem esta casinha.
Se varreres bem,
Dou-te um vintém.
Se varreres mal,
Dou-te um real.”

Varre vassourinha, varre.
Não te queixes,
Não te descanses.

Começa de manhã.
Labuta até á noite.

“Quanto maior fosse o dia,
Maior era a romaria.”

Varre, varre bem.

Lembras-te dos cadernos de apontamentos
Cheios de letras lá dentro?
Aprendeste a lição a contento.
Entraste no mundo pela porta que te era destinada.

Varre, varre vassourinha.
Varre tudo,
Não deixes nada.

Varre bem,
Não varras mal.
Dão-te um vintém,
Dão-te um real.

Estás a ficar careca, vassoura…

Varre sem parar!
Para trás,
Para a frente.
Não tem como enganar.

Não se te pede pensamento,
Nem entendimento
Que vá além daquilo que podes ganhar.

Morta estás tu já, vassourinha.
Só não deste conta ainda…

Para que queres tu afinal viver?

É assim tão bom passar a vida a varrer?

Será este o dia?

Será só mais outro dia,
Este dia que começa…?
Ou será este o dia?
Outra a conversa…

As gentes seguem adormecidas sobre as pernas.
Não vislumbro neles espectativas ou esperanças.
Andam de cá para lá,
Como logo andarão de lá para cá.

Dizem que é bom que nos saibamos conformar…
Sei o que dizem.
Mas nunca consegui acreditar.

Se não for porque pode melhorar,
Então porquê mexermos os pés e andar?

Olhem que esta! Então porque haveria de ser?
Já que cá estamos,
Temos que viver!

Não!
Não temos não!
Se não prestar,
Não tem que se aturar!

Se lemos um livro aborrecido,
Temos que continuar?
Se virmos um filme que não interessa,
Não podemos simplesmente levantar?

Podemos, claro que podemos!

Eu sei,
Está certo.
Tem que se esforçar,
Tem que se fazer por melhorar…
Sei.

Tem,
Tem,
Tem.
Sempre temos que alguma coisa.

E se fosse só um sopro que podemos abafar?
E se não houvesse mais do que apenas outro esboço para inventar?
Teríamos mais coragem então?

É proibido assustar as crianças com o bicho papão.

Não era proibido no princípio da minha geração.

Meninos de mama, à procura da mãe

Não mais papeis!
Não mais isto é o que fareis!

Não há caldeirão eterno em chama.
Só há calor que chama.

Não existem harpas também.
Nem…
Nem.

Está tudo aonde sempre esteve.
Sempre.
Desde os tempos primeiros.
Aonde sempre estará.
Debaixo da pele, enfiado na carne.

Inferno,
Céu,
Paraíso…

Tudo está em nós contido.
Contigo,
Comigo…

Informações antigas,
Recados de outras vidas.
Lembranças.
Doces esperanças.

Bem-aventurados os que acreditam.
Desgraçados os que não sabem crer.

Ninguém a nos condenar,
Ninguém a nos absolver.
Só a nossa consciência.
Só ela!
Velha meretriz batida nos becos sem saída…

Castigo,
Recompensa…
Masturbação gostosa,
Castração horrorosa.

Somos sós, nós.
Tão sozinhos nós!
Perdidos no que criámos,
Inventámos.

Ranhosos e pequeninos.

Meninos de mama à procura da mãe.

Alone in the park

Alone in the park.
Nenhuma alma por perto.
Estacionamento deserto.
Fim de Verão,
Fim de estação.

Alone in the park.
Todos os lugares meus agora.
Todos, a qualquer hora.
Ninguém para disputar aonde estacionar.

Alone in the park.
Que fazer dessa sensação,
Dessa solidão?
É como privação.
Tecto do mundo perto da mão.
Descapotável parado a travão.

Alone in the park.
Passa tempo, passa…
Volta sol, volta…
Saudades das enchentes e dos risos.
Saudades dos bikinis bonitos.

Saudades, tantas!
Todos os anos é assim…
O calor vai embora de mim.
Deixa-me sem esconderijo,
Tira-me o chão.

Poder ficar, posso.
Mas não é igual.
Alone in the park.
Deserto o meu areal!
Fica tão cinzento este Portugal!

Do outro lado do mar…


Eu estive numa praia de areia cor de lama…
E foi o mais perto que estive de casa, desde que fugi...


Se isso é tudo o que tens...

Não me prometas nada.
Não me compres pedras caras.
Não me faças favores.

Se não me proteges,
Se não me resguardas,

Então não me dês nada.

Deixas que eu chore,
Deixas que me perca no escuro.

Deixas-me sozinha comigo…
Tão sozinha
Como sempre fui.

Aparências.
Vives de aparências.
De conveniências.
Eu não.

Eu vivo aonde rebenta a maré cheia de água.
Eu vivo no meio do riso e da mágoa.
Aos trambolhões na trovoada.
Á chuva sem roupa,
Com frio, encharcada.

Tenho por dentro a alma assustada,
A lutar desesperada.

E tu…
Tu não vês nada!
Não fazes nada!

Para que quero anéis,
Pulseiras,
Fios e passeios?
Para quê?
Que faço com eles?

Quero poder descansar em alguém.
Quero nunca mais ter medo.
Se de tudo o que é teu,
Isso é tudo o que tens,
Guarda para ti.
Não me convém.
Não quero nada.

Nada de nada.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Cacimba molhada

Não sei se era noite,
Ou se não era nada.
Sei que eu ia de mão dada.
E os grilos cantavam.
Isso!
Cantavam.

E havia capim à nossa frente…
Cacimba…
Caía cacimba, caía.
Eu tinha medo,
E sentia-me sozinha.

Ela não estava.

Havia já dias que não estava,
Ou então o tempo tinha alargado as medidas…
Disseram-me que andava perdida.
Mas eu sabia…

Ela estava fugida.

É triste a sensação que temos quando alguém nos foge.
Passei a vida a fugir de tudo que é lugar.
Daquela vez,
Soube o que é ficar.
Ficar é quando se vão.
Vão-se sem nos levar.

Ela voltou depois.

Antes não tivesse voltado!
Antes não tivesse sido nada assim!
Antes não houvesse ela, e não houvesse mim.

Mas ainda hoje lembro os grilos que cantavam.
O capim á frente na estrada…
A cacimba molhada…
Eu de mão dada…

Sozinha.
Não sei se de noite,
Se de dia,
Se de nada.

Só nada.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Paz, amor e flores...

Já fizemos tantas coisas!
E já se passaram tantos anos!
Queriam os grandes que tivéssemos planos….
Nenhuns planos.
Nunca fizemos planos.

Só prometemos.
Nunca desistir,
Não deixar a vida fugir…

Tantas noites!
Tantas horas!
Para onde foram dias, semanas?

Que importa, não é?
Nada afinal importa.

Viver é tudo que se tem.
Apenas.

Fomos nós que vagueámos em círculos,
Ou foi a nossa estrada que nunca teve norte?

Desnorteados…
Engraçado, porque não nos sinto desnorteados.
Somos loucos, tresloucados.

Já fizemos tantas coisas!
E já se passaram tantos anos!

Agora são outros os lugares e outras as horas…
Outras as pessoas…
Porque choras?

Não chores.
Não vale a pena chorar.
Nada vale a pena,
Tudo tanto faz.


E já não escrevemos nas calças de ganga.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Só porque sim

Estupidamente feliz!..

Valeu a pena!
Todas as contas por pagar,
Tudo o que tive que abandonar.
Todas as preocupações.
Todas as noites mal passadas.
Guerras travadas.

Valeu tanto a pena,
Para poder estar agora aqui.
Vontade de me beijar por tudo o que fiz…

Tão bom!
Sensação gostosa!
O vento a tocar,
A lamber o meu ouvido,
A levantar o meu vestido.
Subindo pelas pernas…

O céu!
Azul,
Tão azul!
Que bom!
Como um braço em volta de mim.
Como uma mão a acariciar o meu seio.

O calor do sol na minha pele…
Cada poro a abrir-se,
A espreguiçar-se…
Humidade gostosa a alastrar.

A minha sede sem fim a ser saciada.
Só porque sim,
Sem precisar de mais nada.

Como sabe bem a vida!
Como é bonito este nosso mundo!

Há dias assim.
Dias em que estou como sempre quis.

Estupidamente feliz.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Vindo de longe

O homem teria entre quarenta a cinquenta anos,
Não sei bem…
Trazia uma mochila cheia sabe-se lá de quê.
As roupas não tinham estação, e estava triste.
Como é que sei que estava triste?
Hum…
Cheiro, coisa de pele.
Sei lá…
A gente sempre dá uns pelos outros.

Sentou-se.
Os olhos perdidos na areia dourada,
Afogados na imensidão do mar sem fim.
Errante…
Vagabundo…
Sem abrigo?
Vindo.
Foi o que me pareceu.
Vindo.

Eu se voltasse um dia de longe,
Também viria ali.
Embebedar os olhos de praia.
Minha praia!
Minha como não o é de mais ninguém.
Dele talvez, também.

Por cima do livro eu observava-o,
E ele a mim.
Se não me olhasse tão fixamente…
Tolice minha.
Medo porquê?
Não sou de ter medo.

Receio de um dia estar como ele.
Idade indefinida,
Mochila enrolada, perdida.
Pavor de ter saudades da vida.

Peguei no meu disfarce de veraneante normal
E mudei de lugar no areal.
Que ele me perdoe,
Que eu não fiz por mal.

Quanta pancada antes de podermos voltar?
Quanto a sofrer até sermos no nosso lugar?


Fazes muitas perguntas menina.