sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 15 de abril de 2014

Com "ses" é que não...

Se…
Se…
Se…
Tanta condição!

Se, nada.
Se, á fava!

Porque sim,
Porque é bom.
Ou porque não.
Mas sem ses pelo meio.
Sem algema na mão.

Sem ses de perneio.

Quando me dizem sim, mas se
Pronto, já era!
Se, tira a beleza a quase tudo.
Se, é limite de humana servidão.

Viver é ser, sem haver mas.
Viver é andar sem fronteira no chão.

Não!
Nada de ses daqui em frente.
Nada de abrir uma, mas fechar a outra mão.

Se, é rede de proteção.
Tira o gozo,
Tira a emoção.
Tiraniza,
Escraviza,
Acorrenta o nosso pé ao chão.

Inteira.
Toda.
Enquanto for eternamente.
Mas com ses é que não!


terça-feira, 8 de abril de 2014

Velha que chora

Tenho em mim uma velha esfarrapada.
As unhas crescem-lhe como garras descarnadas.
Os cabelos são farripas dependuradas.

Veste uma coisa que foi roupa,
Mas que há muito perdeu a cor.
Os pés estão descalços e são grotescos.

Não sei se é alta,
Se é de baixa estatura.
Passa o tempo encolhida,
Não tem ancas, nem peitos,
Não tem cintura.

Pode ser que seja negra, amarela, vermelha,
Ou branca talvez.
A pele não se distingue no meio do cinzento da tez.

Chora e grita sempre.
Grita e chora a toda a hora.
Não percebo o que diz.
Só sei que é muito infeliz.

Tem medo.
Está sempre com medo.
Medo que dêem por ela, que a mandem embora.

Foge da luz,
Porque os olhos estão cegos,
E o seu reino é o da escuridão.

Arrasta-se e geme,
Rasteja no chão.

Sei quem ela é.
Está em mim desde sempre.
Veio comigo de longe.

Tenho pena dela.
Sofre.

Não sei se ela é deste,
Se é de outro mundo.
Ou se é fruto da minha imaginação.

Sei que quando ela chora,
Sangra o meu coração.

Só não consigo ouvi-la quando me falas ao ouvido.
Por me protegeres dela, obrigada, meu querido!


terça-feira, 1 de abril de 2014

Até a madrugada passar

Não me acordes de noite…

Não faças barulho a levantar,
Não me toques ainda que devagar.

Tu não sabes por onde ando,
Em que mundos me deito a vaguear.

Pensas que está na tua mão o meu despertar.

Não podes nem imaginar…

Quando durmo, eu viajo.
Quando durmo, estou sem estar.

Não se desperta quem dorme.
Pode a pessoa perder-se ao regressar.

Nem todos os lugares que visito,
Que costumo frequentar,
São lugares para onde te possa convidar…

Não me acordes de noite.


Espera até por mim… até a madrugada passar.