sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 8 de abril de 2014

Velha que chora

Tenho em mim uma velha esfarrapada.
As unhas crescem-lhe como garras descarnadas.
Os cabelos são farripas dependuradas.

Veste uma coisa que foi roupa,
Mas que há muito perdeu a cor.
Os pés estão descalços e são grotescos.

Não sei se é alta,
Se é de baixa estatura.
Passa o tempo encolhida,
Não tem ancas, nem peitos,
Não tem cintura.

Pode ser que seja negra, amarela, vermelha,
Ou branca talvez.
A pele não se distingue no meio do cinzento da tez.

Chora e grita sempre.
Grita e chora a toda a hora.
Não percebo o que diz.
Só sei que é muito infeliz.

Tem medo.
Está sempre com medo.
Medo que dêem por ela, que a mandem embora.

Foge da luz,
Porque os olhos estão cegos,
E o seu reino é o da escuridão.

Arrasta-se e geme,
Rasteja no chão.

Sei quem ela é.
Está em mim desde sempre.
Veio comigo de longe.

Tenho pena dela.
Sofre.

Não sei se ela é deste,
Se é de outro mundo.
Ou se é fruto da minha imaginação.

Sei que quando ela chora,
Sangra o meu coração.

Só não consigo ouvi-la quando me falas ao ouvido.
Por me protegeres dela, obrigada, meu querido!


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