sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O tempo em que mudávamos o mundo

Lembro-me do tempo em que mudávamos o mundo…
Em que nenhuma dificuldade era mais forte do que a nossa vontade de viver.
Se não havia dinheiro para comer, inventávamos comida.
Se não tínhamos casa, brincávamos ao faz-de-conta que esta casa é nossa.
Lembro-me…
O mundo rugia para nos assustar, e respondíamos com gargalhadas...
Até as lágrimas não pareciam como hoje parecem, não tão salgadas.
Nada era impossível então para nós. Nada!
Quando alguém pensava que não íamos conseguir, largávamos a rir.
Eles nem sabiam o que diziam.
Derrotávamos o universo e ainda respondíamos em verso.
Lembro-me dos problemas que nasciam como cogumelos em terra farta.
E vencíamos. Sempre vencíamos!
Aparecia uma solução de onde menos esperávamos.
E quando não aparecia, éramos nós que a fabricávamos.
Improvisávamos.
Remediávamos.
Inventávamos.
Atravessámos anos assim…
Tantos anos que o tempo se enroscou em mim…
Ainda hoje,
Ainda hoje quando a vida me faz chorar, dá-me uma vontade tão grande daquele tempo!
Daquele tempo que não sei olvidar.
Éramos fabricantes, artesãos, criadores.
Éramos o que fosse preciso ser, pintávamos o nosso sol com mil cores.

Eles dizem que o carro não é capaz de sair donde está… Tolos!
Nós tirávamos-lo de lá, nem que fosse desmanchado.
E é dessa certeza que tenho saudades...
Desse perpétuo e sempre possível disparate.
Desse tempo ao de leve, em que viver era apenas fazer um biscate.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Não tenhas pena de mim

Se eu morrer antes de ficar velhinha,
Meu filho, não tenhas pena de mim.
Talvez seja melhor assim.
Eu não ia aguentar estar presa.
Não ia suportar, com toda a certeza.
Iam dizer para me portar bem,
Porque se for uma menina linda, o seu filho vem
E iam dizer para eu comer a papinha toda,
Quem come tudo volta para casa mais depressa.
Não, muito obrigada!
E eu ia ser linda, e tu não vinhas nunca,
E eu comia tudo e não voltava para casa nada.
Mesmo que quisesses,
Pudesses,
Não ias conseguir tomar conta de mim.
Velhinhos não comem sozinhos.
Velhinhos precisam de quem lhes acenda o lume.
Que lindo dia está para passear.
E “passear” seria ir ao fundo do quintal e voltar.
E o portão havia de ter chave,
E a chave não tinha ordem de rodar.
Não, não!

Se eu morrer antes de ficar velhinha,
Meu filho, não tenhas pena de mim.
Talvez seja melhor assim.
Antes quero ir embora enquanto sou bonita.
Enquanto tenho as ruas todas para andar,
As praias todas para me deitar,
Enquanto bebo café aonde me apetece parar.
E sou livre.
Livre até para deixar de respirar.
Quando eu me for,
Meu amor,
Não gastes muito do teu dinheiro para me enterrar.
Nem precisas levar flores que eu não vou poder cheirar.
Não vou estar lá.
Vou ter fugido para longe,
Para onde não me possam deitar a mão,
Para onde não me possam agarrar.
Nunca vou ser uma ajuizada velhinha,
Uma pacata e doce avozinha.

Se eu for,
Meu amor,
Deixa-me ir.
Antes que toda eu seja dor,

E me custe mais ter de partir.