sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Dourar a chuva

Chuva dourada...

Andar à chuva é tão bom!
Bom como fazer xixi pelas pernas abaixo.

Verdade!
Sensação de liberdade!

Guarda-chuva,
Gabardina,
Casacão…
Apanhar chuva, isso não!

Fechar a porta da casa de banho,
Descer a tampa da sanita,
Lavar as mãos com sabão…
Menina bonita.
Mas pelas pernas abaixo, isso é que não!

Ah, não?

Sim!
Posso sim!

É meu o corpo molhado de chuva, molhado de tesão!
É minha a vontade de fazer xixi em qualquer ocasião!
Até no chão.

Frio e quente,
Os dois a descer,
Os dois a meus pés,
Como amor acabado de fazer.

Poucas coisas na vida dão mais prazer.

Deixar molhar,
Deixar acontecer.

Dourar a chuva quando tiver que ser.

Varre bem, vassourinha

“Varre, varre vassourinha.
Varre bem esta casinha.
Se varreres bem,
Dou-te um vintém.
Se varreres mal,
Dou-te um real.”

Varre vassourinha, varre.
Não te queixes,
Não te descanses.

Começa de manhã.
Labuta até á noite.

“Quanto maior fosse o dia,
Maior era a romaria.”

Varre, varre bem.

Lembras-te dos cadernos de apontamentos
Cheios de letras lá dentro?
Aprendeste a lição a contento.
Entraste no mundo pela porta que te era destinada.

Varre, varre vassourinha.
Varre tudo,
Não deixes nada.

Varre bem,
Não varras mal.
Dão-te um vintém,
Dão-te um real.

Estás a ficar careca, vassoura…

Varre sem parar!
Para trás,
Para a frente.
Não tem como enganar.

Não se te pede pensamento,
Nem entendimento
Que vá além daquilo que podes ganhar.

Morta estás tu já, vassourinha.
Só não deste conta ainda…

Para que queres tu afinal viver?

É assim tão bom passar a vida a varrer?

Será este o dia?

Será só mais outro dia,
Este dia que começa…?
Ou será este o dia?
Outra a conversa…

As gentes seguem adormecidas sobre as pernas.
Não vislumbro neles espectativas ou esperanças.
Andam de cá para lá,
Como logo andarão de lá para cá.

Dizem que é bom que nos saibamos conformar…
Sei o que dizem.
Mas nunca consegui acreditar.

Se não for porque pode melhorar,
Então porquê mexermos os pés e andar?

Olhem que esta! Então porque haveria de ser?
Já que cá estamos,
Temos que viver!

Não!
Não temos não!
Se não prestar,
Não tem que se aturar!

Se lemos um livro aborrecido,
Temos que continuar?
Se virmos um filme que não interessa,
Não podemos simplesmente levantar?

Podemos, claro que podemos!

Eu sei,
Está certo.
Tem que se esforçar,
Tem que se fazer por melhorar…
Sei.

Tem,
Tem,
Tem.
Sempre temos que alguma coisa.

E se fosse só um sopro que podemos abafar?
E se não houvesse mais do que apenas outro esboço para inventar?
Teríamos mais coragem então?

É proibido assustar as crianças com o bicho papão.

Não era proibido no princípio da minha geração.

Meninos de mama, à procura da mãe

Não mais papeis!
Não mais isto é o que fareis!

Não há caldeirão eterno em chama.
Só há calor que chama.

Não existem harpas também.
Nem…
Nem.

Está tudo aonde sempre esteve.
Sempre.
Desde os tempos primeiros.
Aonde sempre estará.
Debaixo da pele, enfiado na carne.

Inferno,
Céu,
Paraíso…

Tudo está em nós contido.
Contigo,
Comigo…

Informações antigas,
Recados de outras vidas.
Lembranças.
Doces esperanças.

Bem-aventurados os que acreditam.
Desgraçados os que não sabem crer.

Ninguém a nos condenar,
Ninguém a nos absolver.
Só a nossa consciência.
Só ela!
Velha meretriz batida nos becos sem saída…

Castigo,
Recompensa…
Masturbação gostosa,
Castração horrorosa.

Somos sós, nós.
Tão sozinhos nós!
Perdidos no que criámos,
Inventámos.

Ranhosos e pequeninos.

Meninos de mama à procura da mãe.

Alone in the park

Alone in the park.
Nenhuma alma por perto.
Estacionamento deserto.
Fim de Verão,
Fim de estação.

Alone in the park.
Todos os lugares meus agora.
Todos, a qualquer hora.
Ninguém para disputar aonde estacionar.

Alone in the park.
Que fazer dessa sensação,
Dessa solidão?
É como privação.
Tecto do mundo perto da mão.
Descapotável parado a travão.

Alone in the park.
Passa tempo, passa…
Volta sol, volta…
Saudades das enchentes e dos risos.
Saudades dos bikinis bonitos.

Saudades, tantas!
Todos os anos é assim…
O calor vai embora de mim.
Deixa-me sem esconderijo,
Tira-me o chão.

Poder ficar, posso.
Mas não é igual.
Alone in the park.
Deserto o meu areal!
Fica tão cinzento este Portugal!

Do outro lado do mar…


Eu estive numa praia de areia cor de lama…
E foi o mais perto que estive de casa, desde que fugi...


Se isso é tudo o que tens...

Não me prometas nada.
Não me compres pedras caras.
Não me faças favores.

Se não me proteges,
Se não me resguardas,

Então não me dês nada.

Deixas que eu chore,
Deixas que me perca no escuro.

Deixas-me sozinha comigo…
Tão sozinha
Como sempre fui.

Aparências.
Vives de aparências.
De conveniências.
Eu não.

Eu vivo aonde rebenta a maré cheia de água.
Eu vivo no meio do riso e da mágoa.
Aos trambolhões na trovoada.
Á chuva sem roupa,
Com frio, encharcada.

Tenho por dentro a alma assustada,
A lutar desesperada.

E tu…
Tu não vês nada!
Não fazes nada!

Para que quero anéis,
Pulseiras,
Fios e passeios?
Para quê?
Que faço com eles?

Quero poder descansar em alguém.
Quero nunca mais ter medo.
Se de tudo o que é teu,
Isso é tudo o que tens,
Guarda para ti.
Não me convém.
Não quero nada.

Nada de nada.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Cacimba molhada

Não sei se era noite,
Ou se não era nada.
Sei que eu ia de mão dada.
E os grilos cantavam.
Isso!
Cantavam.

E havia capim à nossa frente…
Cacimba…
Caía cacimba, caía.
Eu tinha medo,
E sentia-me sozinha.

Ela não estava.

Havia já dias que não estava,
Ou então o tempo tinha alargado as medidas…
Disseram-me que andava perdida.
Mas eu sabia…

Ela estava fugida.

É triste a sensação que temos quando alguém nos foge.
Passei a vida a fugir de tudo que é lugar.
Daquela vez,
Soube o que é ficar.
Ficar é quando se vão.
Vão-se sem nos levar.

Ela voltou depois.

Antes não tivesse voltado!
Antes não tivesse sido nada assim!
Antes não houvesse ela, e não houvesse mim.

Mas ainda hoje lembro os grilos que cantavam.
O capim á frente na estrada…
A cacimba molhada…
Eu de mão dada…

Sozinha.
Não sei se de noite,
Se de dia,
Se de nada.

Só nada.