sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dia 26 já pode o mundo acabar

Saberia que é Natal mesmo que não soubesse.

Ainda que os calendários acabassem…
“Se o relógio parar, continua a ser Natal”

Era verdade então,
E continua a ser assim.
Natal é magia para mim.

A canela agora é açúcar branco de compra.
O pinheiro fica parado sem piscar.

Eu saberia que é Natal
Só pelos sinos a tocar,
O algodão a nevar.

Que sinos?
Que algodão?

Fecho os olhos.
Dlão, dlão, dlão…
Branca noite a chegar.

Não bebes mais nada hoje.

Meu Pai Natal velhinho de barbas grandes.
Minha estrela pendurada a faiscar…

Reis Magos com esperança de um dia chegar.

Prendas são embrulhos que nunca vou desatar.

Fitinhas coloridas cheias de vida,
Veneração pelo que não sei explicar.
Presépio de barro para adorar.
Consoada,
Noite de Galo.

Saberia que é Natal.
Saberia sempre que é Natal!

Portei-me bem,
Portei-me mal…

Antes do cigarro acabar.
Espera.
Aprende a esperar.

Eu sei que é Natal.

E dia 26 já pode o mundo acabar.

A tua casa sou eu...

Vi o mar ao fundo.
Mar da minha vida.
E soube que estava em casa.

Um fiapo de azul,
Espuma que se vem em mim.
Procurei o mar ao fundo,
Desde que vim.

Dobrava as esquinas em todas as avenidas,
E descia as ladeiras de todos os lugares…
-E o mar, papá?
-Aqui não se vê o mar, minha filha.

Quando cresci namorei na areia,
E rebolei em dunas sem fim.
Queria o gosto da maresia,
Queria o oceano para mim.

Procurei debalde em loucas cidades.
Naufraguei em inexplorados lençóis,
Acostei em anónimos abraços.
Olhei o fundo do copo em tantos bares!
Reflexos.
E só encontrei reflexos.

Ao fundo da rua…
Nunca mais o tinha visto assim.

-Do outro lado tens a costa de África.

Do outro lado já nada há para mim.
Só saudades e reflexos,
E fantasmas dos que se foram para longe sem fim.

A busca que fiz trouxe-me até aqui.
O que eu procurava ao fundo de cada rua,
Era a alegria perdida de quando conhecia a minha vida.
E de quando tudo em volta eram certezas e calmarias.

Mar azul da minha cidade bonita.
Casa…
Minha casa agora é quem me trouxe a ver o mar.
Minha casa agora é quem gosta de mim.

Junto todas as ruas do mundo numa só,
E junto todos os mares num oceano que não tem mais fim.

-A tua casa sou eu.

…E nunca me disseram nada tão bonito.