sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 28 de julho de 2015

A que espécie pertenço eu?

Que espécie de bicho sou eu?
Quais os instinto que me norteiam?
O que me faz correr?

Pior do que os leões que matam para comer.
Mais odiosa do que as hienas marrecas que riem sem querer.
Medrosa como uma ratazana de esgoto.

Que espécie de bicho sou eu?
Qual a criatura que me criou?
A quem sirvo?
Quem me governa?

Abaixo de todos os micróbios na cadeia alimentar.
Mais inútil do que qualquer bactéria num ecossistema.
Ruinosa aposta numa integração ordenada.

Invasora e parasitária.

Que espécie de bicho sou eu?
Para que sirvo?
Qual o propósito da minha existência?

Dissimulada como um camaleão fugitivo.
Ardilosa como as aranhas venenosas que tecem teias mortíferas.
Esquiva que nem uma cinzenta osga de quintal.

Peganhenta,
Peçonhenta.

Que espécie de bicho sou eu?
Em vias de extinção.
Felizmente em vias de extinção.

Cobarde demais até para morrer.
Erva ruim que não sabe viver.

Que bicho mau me mordeu?

O que sou eu?

Iguais até por demais

Somos iguais.
Estúpida, aborrecida e
Desesperadamente iguais.

Não só tu e eu.
Todos.
A inteira humanidade não é mais
Do que uma multidão de pessoas iguais.

Por isso é que…

Nem eu encontro o que busco
E nem tu fazes o que ensinas.
Nem se realizam os nossos ideais.

Não podíamos ser mais iguais.
E todos os que foram eram como nós,
Banais.

Individuais…
Únicos…
Especiais…
Não!

Como os demais.

Não esperes de mim mais.
Vê-me como sou,
Vê-te como és.

Iguais.
Todos iguais.


E durante todo este tempo esperei tempo demais!...

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sapatos velhos sem fim

Os sapatos velhos da minha mãe
Não tinham idade e talvez nem fossem tão velhos assim
Mas sempre me pareceram velhos a mim.
Tinham o salto entortado de quem calcorreou ruas e avenidas.
Eram sempre mais largos do que deveriam ser.
Vistos por trás faziam lembrar grandes navios cansados de navegar.
Eu sabia sempre que eram sapatos dela
Mesmo que estivessem perdidos numa multidão anónima de sapatos sem dono.
Nunca soube porque pareciam velhos sem fim…
Não era velha a minha mãe...
Só os sapatos eram.
E os olhos que estavam cansados eram idosos também.
Minha mãe…
Zangada porque calçava sapatos velhos
E porque nada era novo.
Nada era dela.
Eu calço sapato alto mãezinha
Mas vistos por trás são iguais aos teus os meus,
São sapatos velhos,
Velhos sem fim.
Porque não importa o tamanho do salto
Nem a terra por onde seguimos.
O que importa é a forma como pomos os pés no chão.
E nós duas, mãe,
Nunca soubemos andar a direito sem pisar o capim.