sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sapatos velhos sem fim

Os sapatos velhos da minha mãe
Não tinham idade e talvez nem fossem tão velhos assim
Mas sempre me pareceram velhos a mim.
Tinham o salto entortado de quem calcorreou ruas e avenidas.
Eram sempre mais largos do que deveriam ser.
Vistos por trás faziam lembrar grandes navios cansados de navegar.
Eu sabia sempre que eram sapatos dela
Mesmo que estivessem perdidos numa multidão anónima de sapatos sem dono.
Nunca soube porque pareciam velhos sem fim…
Não era velha a minha mãe...
Só os sapatos eram.
E os olhos que estavam cansados eram idosos também.
Minha mãe…
Zangada porque calçava sapatos velhos
E porque nada era novo.
Nada era dela.
Eu calço sapato alto mãezinha
Mas vistos por trás são iguais aos teus os meus,
São sapatos velhos,
Velhos sem fim.
Porque não importa o tamanho do salto
Nem a terra por onde seguimos.
O que importa é a forma como pomos os pés no chão.
E nós duas, mãe,
Nunca soubemos andar a direito sem pisar o capim.


Sem comentários:

Enviar um comentário