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Quase um Conto de Natal

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A Eduarda era um misto de loucura, e de sanidade doseadas de forma estranha. Ria e chorava quando menos se esperava, e tanto aquecia o mundo, como o gelava em duas estocadas simples. Tinham-lhe dito que isso era normal, e que algumas pessoas são mesmo assim. São pessoas com comportamentos “fora do comum”. Mas o que a Eduarda sabia é que ser assim, doía demais.
Por vezes apetecia-lhe fazer as malas e desaparecer. Não saberia dizer para onde queria ir, apenas queria ir. E sufocava no peito uma vontade aflita de correr, abrir a porta sumir. Noutras vezes, ao contrário, sonhava em ser parte de algo, viver em alguém. E em ambos os casos ficava triste, porque a intensidade com que desejava fosse o que fosse, lhe fazia estalar os nervos da carne, e lhe dilacerava os ossos. A Eduarda não se lembrava de ter sido feliz.
Era bonita, simpática, apetecida. Tinha embarcado, naufragado e dado à costa em mais amores do que era capaz de se lembrar. Vinham-lhe à memória nomes, rostos, formas de tocar, ca…

Sou Gracinha, não sou Graça

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Chovia, chovia tanto! Fazia frio, tanto frio! As saudades do calor e do sol eram assustadoras.
Desde pequena que a Gracinha tinha medo do escuro. E o Inverno era muito escuro… Como era escuro o tempo frio daquela terra cinzenta! Não era só frio que sentia, era um molhado que crescia nos ossos, que tomava conta das entranhas. Uma desolação, e uma tristeza gigantescas. Acontecia-lhe sempre chorar nessas alturas. Se lhe perguntassem porquê, não saberia explicar a razão. Apenas chorava, porque em chorando parecia-lhe que se revoltava, e quando a gente se revolta então é porque ainda está viva. Se bem que… estar viva, ou morta, que interessava isso? Não sendo para saber bem, não sendo para valer a pena, então para quê?...
Um dia tinha acreditado que havia um propósito no mundo. E tinha acreditado que um lugar bonito esperava por quem fizesse por o merecer. Mas hoje não. Hoje já sabia que não existem nem justiça, nem bonitezas, nem recompensas, nem castigos. Só frio, só chuva. O prazer e o bem querer …

É para isto que um homem nasce...

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- Ou pagas, ou sais!- nem uma coisa nem outra! Pagava com quê? Saía como? Nem o dinheiro, nem as pernas lhe podiam servir de suporte naquela noite. Noite? Ou seria dia?... Que importava? Há alguns anos atrás tinha sido um bom trabalhador. Tinha sim! Muito bom mesmo! O tempo mal chegava para dormir, quanto mais para… para aquilo… Mas depois… O que tinha mesmo acontecido depois? Ah, sim! O patrão tinha desaparecido. E com ele os salários dos últimos meses, e a segurança de uma firma centenária herdada em má hora por um badameco franganote que mal tinha cú para as calças. Foi aí que tudo começou. Foi, não foi? Ou talvez tenha sido antes disso… Ultimamente não se lembrava bem das coisas. Não é que não se lembrasse, é que não distinguia bem o que vinha antes de o quê… Ela fora embora. Finalmente tinha ido. Depois de décadas de ameaças, pedidos, súplicas e promessas quebradas. Era a mulher dele. Ainda era! Se era! No papel… Então, no papel é que importa! Era mulher dele, sim senhor! Não do outro. Não …

Fora do quarto

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-.Não valem nada. - Nada? - Nada. Como podia ele dizer uma coisa dessas? Não valem nada? Cada uma daquelas pinceladas correspondia a uma hora, ou a um dia de pesadelo. Não valem nada. Pois sim! Que podia ele saber? Aquele amarelo lá em cima dera-o no dia em que o pai acertara um murro na mãe, e o sangue jorrara para a parede da sala. O outro, o azul, esse misturara-o entre um berro e outro, entre um “dou cabo de ti”, e um “olha que te rebento”. Vermelho, vermelho… aquele tom conseguira-o enquanto contava os segundos do relógio a ver se já podia respirar. Os anos tinham passado, mas ele sempre soube. Sempre soube que tinha talento. Um grande talento. Que teria sido da sua infância sem a pintura? Amigos dedicados e sempre presentes, os pincéis foram os beijos que não teve. As telas eram os rostos mais amigáveis que conheceu. Um dia… Um dia o mundo havia de descobri-lo, E o seu nome seria ensinado nas escolas. Multidões de meninos felizes aprenderiam a pintar olhando os quadros dele. Meninos que não se esco…

Menina

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Gostas? É bom? Mania que têm de perguntar aquilo que não querem saber! As luzes fortes da rua batiam na pintura do rosto dela. A saia curta revelava as pernas bem torneadas. Gostaria de estar muito longe dali, isso sim…
Mais um carro que parava. Outro rosto ansioso à espera de aprovação. Porquê? Se ao menos encarassem tudo como um negócio e nada mais…
Com os arrogantes não se preocupava. Sentia um certo prazer na sua falta de prazer. Mas alguns faziam-lhe pena. Não estava ali para pensar em melindres. Da mesma forma que o merceeiro, ou a padeira, ou o homem do talho. Tinha de trabalhar.
Mais mãos peganhentas em busca de consolo. Que fizessem e se despachassem! Beijos não. Beijos levam pedaços de alma. Só um? Sem língua… Nem com nada. O departamento dela era mais em baixo. Mas depressa que a fila engrossava.
Que tens tu? Parece que tens mel! Não sabia. Fazia o que lhe pediam, nunca se dava. Eles famintos esperavam. Que esperem. Paguem, desandem, estou cansada.
Mais um? Mais cem? Não é bom, não é nada.

Velho lobo do mar

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Os olhos estavam cansados, a pele tisnada pelo sol e pelo sal que vinha no ar. Os cabelos vinham a embranquecer a uma velocidade de assombrar. Mas ainda era dele todo aquele mar.
Debruçado na amurada do navio olhava a imensidão que um dia o levara a partir. Construíra vidas em todos os lugares onde o barco lhe permitia aportar. Tinha agora um sem fim de casas, famílias… É certo que não tinha um lar. Mas que importava isso? Ainda era dele todo aquele mar.
Recordou com um sorriso os rostos de todas as que lhe pediram para não ir. Algumas bem bonitas, de vez em quando aparecia alguém que o fazia pensar. Mas quem podia competir com o vento, o sol, a chuva, o luar? Em que outro amor podia encontrar o mesmo ardor?
Mal se demorava mais um pouco e já sonhava em voltar. Nem carícias, nem mimos o conseguiam demover. Queria era ver-se de novo a ir, Porque o chamava a voz das marés, e o zumbido da ventania. O seu coração não pertencia à terra firme, e o seu corpo não era capaz de se aquietar. Deixava sempre pesso…

Cidade de pedra fria

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Quinze ou dezasseis?... Vinte e nove ou trinta?... Ultimamente não vinha muito ali. Mas pensava que reconhecia o lugar pela ausência de flores. Esta não, Aquela não… Aqui, deve ser aqui. Rosas brancas. Verdura. Nem a chave já tinha… Mesmo que não fosse aquele o lugar sabia que eles viam. Eles viam e desculpavam. Sempre souberam que ela era meio maluquinha… Invejava a quietude de fim de dia, A ausência de barulhos e de conflitos. Só assim para não discutirem. Pacíficos finalmente. E ela tão perdida quanto eles sempre previram. As rosas eram compridas demais Mas quebrou-lhes os pés. Desembaraçou-se. Colou a cuspo como sempre fazia. Tudo o que sobrara deles era ela. Bela porcaria. Coito danado, Mais um pecado original bem vingado. Tão tranquilo aquele lugar. Será que a deixavam ficar? Afinal a casa dos pais é a morada dos filhos. Não, ainda não podia. Tinha que procurar, continuar a procurar. Rezou ao Deus do seu coração. E foi-se. Tatá, beijinhos meus queridos, até um dia.

Menina triste

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Pensavam que ela não compreendia, E por isso falavam de coisas da vida como se ela não estivesse presente. Foi assim que ficara saber que agora aquela era a sua casa. E que a mãe, o pai e o irmão haviam de vir, mas para a visitar.
Só não entendia porquê.
Na lembrança retinha imagens soltas e misturadas, Mas não encontrava nada que tivesse feito de mal. Nada que a pudesse ter posto ali.
Chorara, é verdade. Gritara, mesmo quando lhe pediam para se calar. Acordara todas as noites e não deixara ninguém dormir. Mas é assim que ela era.
O irmão não. Esse estudava, lia, desenhava. Tocava guitarra. Falava. Ela também falava, só que nem sempre se percebia.
Tinha saudades dos bonecos de andar à luta, Do ursinho que pedia abraços, Do cão grande do quintal que tinha nome de falta de luz, Dos gatos da mãe que iam e vinham, E dos bolinhos de chuva com canela e abraços de lua.
Não sabia que o cão das sombras já não existia, E que de todos os bonecos só dois restavam. Os gatos tinham partido de vez num cio desolado. E quando…

Tantas consultas, tantos remédios!...

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Olhou lentamente pela janela
porque agora tudo o que fazia era devagar demais. Não sabia bem se era preguiça, ou se era porque tinha muita idade. Via as pessoas em baixo a andar na rua.
Sempre tinha tido cuidado consigo e com a sua saúde. Porque fora zelosa tinha agora a felicidade de ser muito idosa. Não havia dor que sentisse que não fosse medicada. Análise que fizesse que não fosse requisitada por um batalhão de formulários. Estava viva.
E no entanto estavam mortas as suas mãos que não se mexiam. Ou que se mexiam custosamente na noção de não ter mais presente. Que tinham feito dela aqueles a quem levara a vida a amar?
Disseram-lhe Fica e ela ficara, Como dantes o cão no quintal. Disseram-lhe Senta e ela sentara. Come e comera. Não te canses e não se cansara. Cansada estava apenas porque existia.
Levaram-na para fora de casa… Para teu bem, para que não fiques sozinha. Levaram-na eles, o seu menino e a sua menina. As minhas coisas? Quisera saber num arremedo de curiosidade estúpida. Olharam-na com dó. Com …