sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Senti o toque dela no meu respirar


Olhei e vi que ela estava a representar.
Vi a forma como colocava a cabeça, de lado, estranhamente…
Vi os cabelos compridos, repletos de cachos bailantes…
Reparei na forma como ria.
Não era ela.

Quis dizer-lhe para se sentar direita, para não cruzar as pernas daquela forma provocante.
Apeteceu-me perguntar pela corda de saltar, pelo pião e pelo elástico.
Mas os joelhos dela não estavam mais esfolados como dantes!
E certamente com aqueles sapatos esquisitos pouco saberia correr…

Notei como os homens babavam quando ela andava.
E que balançar era aquele que lhe ondulava as ancas?
As soquetes…
Aonde estavam as soquetes dobradas direitinhas pelo ortelho?...

O peito subia e descia quando ela respirava.
Credo! Que peito grande ela tinha!

Estava quase a puxar-lhe pela bainha do vestido pequenino que estava em lugar do bibe colorido.
Estava quase a pendurar-me na mão dela de unhas pintadas e brilhantes.

Olha... Olha para mim!
Porque é que estás assim?

Mas ela sorriu e tocou-me sem se encostar.
E eu senti o toque dela no meu respirar.
Podia não ser mais a mesma menina mas cumpriu a promessa.
Voltou. Voltou para me vir buscar.


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Nada é para sempre


E de repente tudo se revelou aos olhos dela. Queria a mão dada. Queria o tempo em que alguém cuidava dela. Era tão bom se lhe segredassem ao ouvido “Tudo vai ficar bem. Não te preocupes.”… E desejou como nunca a sensação de se saber protegida e amada. Tantos tinham sido os homens na vida, e tanta vida tinha passado entre ela e os seus homens. Mas nunca em tempo algum voltara a sentir aquela coisa boa, formigueiro doce na alma, sorriso que acalma e diz “Eu estou aqui. Eu vou tomar conta de ti.”
Não, não era a paixão que a movia. Sabia-o agora, nunca fora. Paixão, carne ardente, luxúria… Não, não era. Apenas tinha pensado que… Talvez se… Podia ser que… Nada. Fez que, se e de e nada. Olhos calmos, água que corre, aonde? Aonde?
Mão protegida, ombros envolvidos, cintura enlaçada. Guarida. Porto seguro. Navegara muito por tempestades de oceanos rebeldes, levada em embarcações atadas com juncos e palhas. Confiara na desenvoltura de capitães que nem marinheiros sabiam ser. E crescera à espera de crescer. Mas quem cresce aprende e ela não queria aprender. Queria o conto de fadas… Queria.
O corpo despido num abandono que embebeda mas não sacia. Os cabelos fustigados ao vento e à maresia. Sabia. Apenas sabia. Arranhões e nódoas negras, pele encardida em porcaria, silvas espetadas aonde os picos mais doíam. E não via os picos das silvas porque inventava amoras aonde amoras não havia.
Inventava passarinhos que lembravam cotovias, criava esquilos e raposas que ainda falavam em fábulas antigas, e acreditava no Pai Natal e nas sílfides e nas ninfas e nas bruxarias. Mas até as bruxinhas que via eram pequeninas maravilhas.
De braços abertos para um vazio que era tudo o que existira desde sempre, mesmo quando ela povoara esse vazio de sonhos e de fantasias. Prosseguir em frente era morrer mais um pouco todos os dias. E quanto mais perto do fim mais claro ela percebia. E lá estavam os contornos de uns braços que a esperavam e que a envolviam. E o sorriso que ela lembrava quando ainda nem sorrir sabia. E aquela voz que meiga dizia “Eu cuido de ti. Vai correr bem.”
Verdade? Fantasia? Nunca o mundo fora de facto aquilo que ela via.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Mundo das gentes normais, nunca vou ser tua!



A espreitar por detrás do avental adivinha-se uma saia larga e desajeitada.
Ponta acima, ponta abaixo… Qual seria mesmo a cor?
Que importa a cor de uma saia como aquela!

Chinelos… chinelos ou sandálias… Sandálias ou restos tristes de sapatos de outras eras. 
Tudo igual, tudo com cheiro de miséria requentada.

Farripas desgrenhadas no lugar de cabelo. Mas não... Cabelo sim.
Despenteado, desprezado, emaranhado, mas fios de cabelo.

E a pele? Curtida. Só me ocorre “curtida”. Sim, porque não são só rugas, ou vincos.
São crateras de tamanho desmedido. E é uma secura de Sertão sem fim.

Credo!...

E foi bonita ela! E foi desejada. E fez palpitar corações e entesar varões.
Guarda como provas os odres vazios a que chama seios, os ossos salientes dos quadris de antes.
Foi a paga da normalidade decente de uma vida.
Foi o resultado dos restos acumulados num prato despejado dos melhores bocados.
Sim, porque os melhores bocados eram sempre para os outros. Para os filhos que cresciam, para o seu homem que trabalhava duro para ganhar a vida.
Chuparam-na, sugaram-na. Serviram-se da sua energia. Disseram-lhe que era o que lhe competia. Se fosse mulher séria era assim que faria.

Agora o homem dela refastela-se na cama de outra mais bela, ainda bela.
Os filhos que já cresceram esqueceram-se de quanto comeram, de quem comeram.
Restou ela.
Quem a quer? O que vai ser de si?
Não importa, pouco interessa. Cumpriu-se o destino. Fez-se a profecia.

Triste? Felizmente ela não tem dessas fraquezas.
Nem alegre, que com alegrias não se limpa a casa nem se enche a barriga.
E se fosse hoje… Se fosse de novo aquele dia em que disse que sim, para o bem e para o mal… Será que repetia?
Isso são tudo cantigas, e histórias para embalar a falta de sono de quem tem pouco que cuidar.
A realidade é outra.
Iguais todos, noites e dias… Que não a desinquietem com fantasias!! Apre!!

Pois eu prefiro a agrura das minhas tempestades que se fecham em precipícios sombrios.
Eu escolho o vento que derruba árvores e que me desmonta numa dança perpétua de angústia e loucura.
Antes quero vagar perdida entre hemisférios,
Ser fagulha que luta debaixo da chuva.
Andar de namoro com amores que nunca conheço,
Sonhar o que quero mas não sei se mereço.

Prefiro tudo mas não vou ser como ela!
E se as paredes se fecharem em torno de mim, prefiro o abraço da cova escura.
Prefiro tudo mas mundo das gentes normais, nunca vou ser tua!