sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Mundo das gentes normais, nunca vou ser tua!



A espreitar por detrás do avental adivinha-se uma saia larga e desajeitada.
Ponta acima, ponta abaixo… Qual seria mesmo a cor?
Que importa a cor de uma saia como aquela!

Chinelos… chinelos ou sandálias… Sandálias ou restos tristes de sapatos de outras eras. 
Tudo igual, tudo com cheiro de miséria requentada.

Farripas desgrenhadas no lugar de cabelo. Mas não... Cabelo sim.
Despenteado, desprezado, emaranhado, mas fios de cabelo.

E a pele? Curtida. Só me ocorre “curtida”. Sim, porque não são só rugas, ou vincos.
São crateras de tamanho desmedido. E é uma secura de Sertão sem fim.

Credo!...

E foi bonita ela! E foi desejada. E fez palpitar corações e entesar varões.
Guarda como provas os odres vazios a que chama seios, os ossos salientes dos quadris de antes.
Foi a paga da normalidade decente de uma vida.
Foi o resultado dos restos acumulados num prato despejado dos melhores bocados.
Sim, porque os melhores bocados eram sempre para os outros. Para os filhos que cresciam, para o seu homem que trabalhava duro para ganhar a vida.
Chuparam-na, sugaram-na. Serviram-se da sua energia. Disseram-lhe que era o que lhe competia. Se fosse mulher séria era assim que faria.

Agora o homem dela refastela-se na cama de outra mais bela, ainda bela.
Os filhos que já cresceram esqueceram-se de quanto comeram, de quem comeram.
Restou ela.
Quem a quer? O que vai ser de si?
Não importa, pouco interessa. Cumpriu-se o destino. Fez-se a profecia.

Triste? Felizmente ela não tem dessas fraquezas.
Nem alegre, que com alegrias não se limpa a casa nem se enche a barriga.
E se fosse hoje… Se fosse de novo aquele dia em que disse que sim, para o bem e para o mal… Será que repetia?
Isso são tudo cantigas, e histórias para embalar a falta de sono de quem tem pouco que cuidar.
A realidade é outra.
Iguais todos, noites e dias… Que não a desinquietem com fantasias!! Apre!!

Pois eu prefiro a agrura das minhas tempestades que se fecham em precipícios sombrios.
Eu escolho o vento que derruba árvores e que me desmonta numa dança perpétua de angústia e loucura.
Antes quero vagar perdida entre hemisférios,
Ser fagulha que luta debaixo da chuva.
Andar de namoro com amores que nunca conheço,
Sonhar o que quero mas não sei se mereço.

Prefiro tudo mas não vou ser como ela!
E se as paredes se fecharem em torno de mim, prefiro o abraço da cova escura.
Prefiro tudo mas mundo das gentes normais, nunca vou ser tua!


2 comentários:

  1. Glória, não posso abrir o teu site porque perco horas a ver, ler e a refletir sobre os teus poemas e ilustrações! Muito obrigado, querida Glória! És um tesouro de inspiração poética! Um beijão grande deste teu Amigo e admirador!

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    1. Olá, Edi Show
      Eu é que agradeço o teu comentário, e o facto de gostares do que escrevo. É tão bom saber que existem pessoas aí, do outro lado do pc, que gostam de ler os meus poemas! Dá uma sensação muito gostosa. Um beijinho para ti, e vai ficando por perto.

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