sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Nada é para sempre


E de repente tudo se revelou aos olhos dela. Queria a mão dada. Queria o tempo em que alguém cuidava dela. Era tão bom se lhe segredassem ao ouvido “Tudo vai ficar bem. Não te preocupes.”… E desejou como nunca a sensação de se saber protegida e amada. Tantos tinham sido os homens na vida, e tanta vida tinha passado entre ela e os seus homens. Mas nunca em tempo algum voltara a sentir aquela coisa boa, formigueiro doce na alma, sorriso que acalma e diz “Eu estou aqui. Eu vou tomar conta de ti.”
Não, não era a paixão que a movia. Sabia-o agora, nunca fora. Paixão, carne ardente, luxúria… Não, não era. Apenas tinha pensado que… Talvez se… Podia ser que… Nada. Fez que, se e de e nada. Olhos calmos, água que corre, aonde? Aonde?
Mão protegida, ombros envolvidos, cintura enlaçada. Guarida. Porto seguro. Navegara muito por tempestades de oceanos rebeldes, levada em embarcações atadas com juncos e palhas. Confiara na desenvoltura de capitães que nem marinheiros sabiam ser. E crescera à espera de crescer. Mas quem cresce aprende e ela não queria aprender. Queria o conto de fadas… Queria.
O corpo despido num abandono que embebeda mas não sacia. Os cabelos fustigados ao vento e à maresia. Sabia. Apenas sabia. Arranhões e nódoas negras, pele encardida em porcaria, silvas espetadas aonde os picos mais doíam. E não via os picos das silvas porque inventava amoras aonde amoras não havia.
Inventava passarinhos que lembravam cotovias, criava esquilos e raposas que ainda falavam em fábulas antigas, e acreditava no Pai Natal e nas sílfides e nas ninfas e nas bruxarias. Mas até as bruxinhas que via eram pequeninas maravilhas.
De braços abertos para um vazio que era tudo o que existira desde sempre, mesmo quando ela povoara esse vazio de sonhos e de fantasias. Prosseguir em frente era morrer mais um pouco todos os dias. E quanto mais perto do fim mais claro ela percebia. E lá estavam os contornos de uns braços que a esperavam e que a envolviam. E o sorriso que ela lembrava quando ainda nem sorrir sabia. E aquela voz que meiga dizia “Eu cuido de ti. Vai correr bem.”
Verdade? Fantasia? Nunca o mundo fora de facto aquilo que ela via.


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