sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A raposinha e o caçador de sonhos


A partir daquele dia não mais a raposinha lhe veio comer à mão.
-Porquê? Que tens?
Ela mirava-o cautelosa, desconfiada por entre os bigodes expectantes.

-Já não gostas de mim…
Mas não era isso.
O amor que lhe tinha era igual, porque sentimentos não se explicam.
Fora apenas a confiança que tinha morrido.
E a confiança não se recupera com palavras falsas.
Debalde o caçador de sonhos chamava a raposinha.
Em vão lhe acenava com iguarias perfumadas e flores viçosas.
Tinha medo.

-Nada receies. Sou eu.
Confiara uma, duas vezes, antes de fugir para onde ele não a alcançava.
Agora mantinha-se à distância.
Porque de longe ele não conseguia caçá-la de novo.
E tinha sido tão fácil conquistar o seu coração de raposinha manhosa…
Bastava não a ter assustado.

-Se queres vai. Não te posso obrigar a ficar.
Não ia.
Não ia porque gostava dele.
Mas sabia que ao ficar se condenava à solidão dos que sonham o impossível.

-Então? Vens? Vais? Existem mais como tu, posso cativar outra raposinha.
Novamente uma lágrima se esgueirou por entre o pêlo fulvo.
Estava segura.
Franziu o focinho pontiagudo.
Ele não sabia que ainda a fazia chorar.
Antes assim.

E perguntou-se porque o amava.
Não se conseguia mais lembrar porquê.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Bad Trip...


De noite não sei aonde estou.
É quando todos os fantasmas me abraçam e me alcançam.
De olhos abertos no escuro não vejo se não o caos e a desolação.
São tantos os lugares, tantos os nomes e as casas, tantos, tantos!

As ruas não são ruas, transformam-se em bairros e cidades que são aldeias…
E eu ando e ando.
Corro e corro.
E a minha casa é em todo o lado e é feita de coisa nenhuma.

Está muito escuro e são muitas as pessoas…
Homens e mulheres, sombras e vultos.
Velhos e novos, mortos e vivos, vivos e mortos.
Pensa, pensa!... Quem são? Porque é que aparecem assim fora do lugar?
Ou será o lugar que está fora de mim…
Sim,
Porque de noite não sei aonde estou…

Janelas surgem em paredes fechadas e portas abrem-se nos móveis e cortinas.
E o interruptor muda de sitio e o candeeiro não existe aonde me lembrava dele.
Porque é outro interruptor e é outro o candeeiro.
De que lado se desce?
Tem escadas este lugar?
Varanda, quintal, outras casas por baixo… aonde é aqui?…
Sai de nós, tu não és deste sonho!
Qual sonho?
Se abrir os olhos…

De quem é este braço em torno de mim?
Respira, é alguém deste mundo. Alguém vivo por fim!
Mas não… porque está aqui?
Tinha ido embora, eu dele e ele de mim…
Durmo ainda talvez…
E tenho frio e tenho medo.
De noite não sei aonde estou.

Não gosto do escuro mas o escuro é mesmo assim.
Cigarros e fumo, álcool e sexo…
A minha cabeça roda num caleidoscópio de cores,
E beijos são sanguessugas escondidas no capim,
São chupadas de jibóias,
Daquelas que vinham de noite roubar o leite das tetas das mães…
Lembras, não lembras?
Lá, aonde o sol queima mais…
Não. Cá aonde o frio faz fumo sair da boca quando se respira.
Aonde era mesmo?
Sei lá… Nem sei de mim…

É noite, tão de noite.
Tira-me daqui…
Quem? Tu? Ele? O outro?
Que bom que não é para sempre!
Mas e se do outro lado também for assim?
O inferno é neste mundo…
Fecho os olhos mas o escuro dá conta de mim.