sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A raposinha e o caçador de sonhos


A partir daquele dia não mais a raposinha lhe veio comer à mão.
-Porquê? Que tens?
Ela mirava-o cautelosa, desconfiada por entre os bigodes expectantes.

-Já não gostas de mim…
Mas não era isso.
O amor que lhe tinha era igual, porque sentimentos não se explicam.
Fora apenas a confiança que tinha morrido.
E a confiança não se recupera com palavras falsas.
Debalde o caçador de sonhos chamava a raposinha.
Em vão lhe acenava com iguarias perfumadas e flores viçosas.
Tinha medo.

-Nada receies. Sou eu.
Confiara uma, duas vezes, antes de fugir para onde ele não a alcançava.
Agora mantinha-se à distância.
Porque de longe ele não conseguia caçá-la de novo.
E tinha sido tão fácil conquistar o seu coração de raposinha manhosa…
Bastava não a ter assustado.

-Se queres vai. Não te posso obrigar a ficar.
Não ia.
Não ia porque gostava dele.
Mas sabia que ao ficar se condenava à solidão dos que sonham o impossível.

-Então? Vens? Vais? Existem mais como tu, posso cativar outra raposinha.
Novamente uma lágrima se esgueirou por entre o pêlo fulvo.
Estava segura.
Franziu o focinho pontiagudo.
Ele não sabia que ainda a fazia chorar.
Antes assim.

E perguntou-se porque o amava.
Não se conseguia mais lembrar porquê.

2 comentários:

  1. Pois, o amor platônico entre uma raposinha e seu caçador ( e cá estarei amanhã para fita-lo novamente ) Bjs, linda!

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    1. Isso, Eduardo. Porque ser caçado é muito mais do que levar um tiro e só morrer. Ser caçado é perder a liberdade e a vontade. É ser uma raposinha tonta, que fita encantada o seu caçador. Um beijinho para ti, obrigada pelo comentário.

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