sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 22 de outubro de 2016

Fora do quarto



-.Não valem nada.
- Nada?
- Nada.
Como podia ele dizer uma coisa dessas? Não valem nada? Cada uma daquelas pinceladas correspondia a uma hora, ou a um dia de pesadelo.
Não valem nada.
Pois sim! Que podia ele saber?
Aquele amarelo lá em cima dera-o no dia em que o pai acertara um murro na mãe, e o sangue jorrara para a parede da sala.
O outro, o azul, esse misturara-o entre um berro e outro,
entre um “dou cabo de ti”, e um “olha que te rebento”.
Vermelho, vermelho… aquele tom conseguira-o enquanto contava os segundos do relógio a ver se já podia respirar.
Os anos tinham passado, mas ele sempre soube.
Sempre soube que tinha talento.
Um grande talento.
Que teria sido da sua infância sem a pintura?
Amigos dedicados e sempre presentes, os pincéis foram os beijos que não teve.
As telas eram os rostos mais amigáveis que conheceu.
Um dia…
Um dia o mundo havia de descobri-lo,
E o seu nome seria ensinado nas escolas.
Multidões de meninos felizes aprenderiam a pintar olhando os quadros dele.
Meninos que não se escondiam no quarto quando começava a trovoada.
Meninos para quem nunca havia trovoada.
Paisagens lindas,
Flores exóticas,
Sol a nascer e a morrer,
O mar…
Podia ir para aonde quisesse se soubesse compor as cores certas.
Mundo de faz-de-conta mais bonito do que a vida de verdade.
- Talvez se olhar melhor…
- Já lhe disse. Não valem nada.
- Nem o campo verde esmeralda?
Tinha falhado o exame de admissão nesse dia,
Mas fugira para o verde da fantasia.
- E o areal sem fim?
Todos gritavam e estavam zangados, mas desde que ele soubesse ficar caladinho,
Desde que se fundisse na areia eterna de uma praia que inventara…
- Olhe, eu tenho mais que fazer. Bom dia, sim?
E mostrou-lhe a porta da rua “serventia da casa”.
Mas ele não queria sair.
Procurava entre as portas outra que fosse ter ao mundo de onde vinha.
Aonde seria o quarto? Havia de encontrá-lo por fim.


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