sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Menina triste


Pensavam que ela não compreendia,
E por isso falavam de coisas da vida como se ela não estivesse presente.
Foi assim que ficara saber que agora aquela era a sua casa.
E que a mãe, o pai e o irmão haviam de vir, mas para a visitar.

Só não entendia porquê.

Na lembrança retinha imagens soltas e misturadas,
Mas não encontrava nada que tivesse feito de mal.
Nada que a pudesse ter posto ali.

Chorara, é verdade.
Gritara, mesmo quando lhe pediam para se calar.
Acordara todas as noites e não deixara ninguém dormir.
Mas é assim que ela era.

O irmão não.
Esse estudava, lia, desenhava.
Tocava guitarra.
Falava.
Ela também falava, só que nem sempre se percebia.

Tinha saudades dos bonecos de andar à luta,
Do ursinho que pedia abraços,
Do cão grande do quintal que tinha nome de falta de luz,
Dos gatos da mãe que iam e vinham,
E dos bolinhos de chuva com canela e abraços de lua.

Não sabia que o cão das sombras já não existia,
E que de todos os bonecos só dois restavam.
Os gatos tinham partido de vez num cio desolado.
E quando chove já não se fritam bolinhos em óleo quente.

Mas ela esperava os domingos,
Dias de visita.
E tentava que a mãe explicasse. porque não a levava.

A cada semana lembrava-se menos,
Os anos começavam a apagar as cantigas que gostava de cantar.
Como heras esfomeadas as confusões novas
Levavam embora as certezas antigas.
Só conservava na memória nomes perdidos,
Rostos, beijos e apelidos.

Que teria ela feito de tão mal?
Não sabia.


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