Os homenzinhos de bata branca


Levavam-no de rastos e ele tinha um colete branco vestido.
Lá à frente a luz cintilante da ambulância aguardava.
Eram dois os enfermeiros, mas um teria sido suficiente.
Ele não se debatia.
Ela olhava.

Recordações, farrapos de lembranças começavam a chegar…
Frases estranhas que ele dizia.
Opiniões bizarras sobre assuntos comuns.
Aquele fogo aceso no feitiço do olhar.
O toque, o beijo,
A febre que o consumia por debaixo da pele e do sangue.
As ocasiões em que ele era sol e chuva,
Frio e calor,
Guerra e paz,
Ódio e amor.
Ele seguia bem guardado agora.

-Está bem, senhora? Teve muita sorte!
Sorte…
Estava bem ela?
De que estava o homenzinho de bata a falar?
Ele era o seu mundo,
A areia e o mar profundo.
Ele estava nela como uma perna ou um braço.

Sanidade e loucura,
Quem as define e separa?
Eram um do outro ainda ontem,
E teriam sido também amanhã.
A vida passaria sem que ela desse por nada…
E a certeza disso é que a magoava.
-Para onde o levam?

Aquele homem que era o seu tudo,
A partir de agora não podia ser mais nada,
Porque lhe vestiram um colete branco e o levavam.

Eles foram numa pressa de sirene escancarada.
Ela ficou sozinha num mundo de gente saudável
Que não queria nem saber se ela chorava.


Comentários

  1. Respostas
    1. Kanimambo eu também, Júlio de Jesus. Fico muito feliz por teres gostado! Um beijinho maningue grande para ti! Tátá :)

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

"Vamos aquecer o sol"

O homem desesperado

Cheguei a Casa