sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 2 de outubro de 2016

Os homenzinhos de bata branca


Levavam-no de rastos e ele tinha um colete branco vestido.
Lá à frente a luz cintilante da ambulância aguardava.
Eram dois os enfermeiros, mas um teria sido suficiente.
Ele não se debatia.
Ela olhava.

Recordações, farrapos de lembranças começavam a chegar…
Frases estranhas que ele dizia.
Opiniões bizarras sobre assuntos comuns.
Aquele fogo aceso no feitiço do olhar.
O toque, o beijo,
A febre que o consumia por debaixo da pele e do sangue.
As ocasiões em que ele era sol e chuva,
Frio e calor,
Guerra e paz,
Ódio e amor.
Ele seguia bem guardado agora.

-Está bem, senhora? Teve muita sorte!
Sorte…
Estava bem ela?
De que estava o homenzinho de bata a falar?
Ele era o seu mundo,
A areia e o mar profundo.
Ele estava nela como uma perna ou um braço.

Sanidade e loucura,
Quem as define e separa?
Eram um do outro ainda ontem,
E teriam sido também amanhã.
A vida passaria sem que ela desse por nada…
E a certeza disso é que a magoava.
-Para onde o levam?

Aquele homem que era o seu tudo,
A partir de agora não podia ser mais nada,
Porque lhe vestiram um colete branco e o levavam.

Eles foram numa pressa de sirene escancarada.
Ela ficou sozinha num mundo de gente saudável
Que não queria nem saber se ela chorava.


2 comentários:

  1. Respostas
    1. Kanimambo eu também, Júlio de Jesus. Fico muito feliz por teres gostado! Um beijinho maningue grande para ti! Tátá :)

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