sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Tantas consultas, tantos remédios!...


Olhou lentamente pela janela
porque agora tudo o que fazia era devagar demais.
Não sabia bem se era preguiça, ou se era porque tinha muita idade.
Via as pessoas em baixo a andar na rua.

Sempre tinha tido cuidado consigo e com a sua saúde.
Porque fora zelosa tinha agora a felicidade de ser muito idosa.
Não havia dor que sentisse que não fosse medicada.
Análise que fizesse que não fosse requisitada por um batalhão de formulários.
Estava viva.

E no entanto estavam mortas as suas mãos que não se mexiam.
Ou que se mexiam custosamente na noção de não ter mais presente.
Que tinham feito dela aqueles a quem levara a vida a amar?

Disseram-lhe Fica e ela ficara,
Como dantes o cão no quintal.
Disseram-lhe Senta e ela sentara.
Come e comera.
Não te canses e não se cansara.
Cansada estava apenas porque existia.

Levaram-na para fora de casa…
Para teu bem, para que não fiques sozinha.
Levaram-na eles, o seu menino e a sua menina.
As minhas coisas? Quisera saber num arremedo de curiosidade estúpida.
Olharam-na com dó.
Com o mesmo dó que se vota às coisas vazias.
Fica bem, e foram.

Ninguém lhe dissera mas ela sabia.
Dali não sairia com vida.
Só há uma forma de sair daqui,
troçara a menina da sopa e do pão aos bocadinhos.

Enquanto lhe enfiavam a papa boca abaixo ela fingia que comia,
mas depois cuspia na pia os restos
porque era livre de não fazer o que eles queriam.

Só uma maneira, só uma maneira…
Em jovem já fugira…
Sempre fugira.

Olhou lentamente pela janela
porque agora tudo o que fazia era devagar demais.
Via as pessoas em baixo a andar na rua.
Não tinha preguiça e parecia que não tinha mais idade.
Naquela manhã não chegou a haver tarde.
E a noite fez-se sem acabar o dia.
Tantas consultas, tantos remédios,
Tanta porcaria.


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