sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Velho lobo do mar


Os olhos estavam cansados, a pele tisnada pelo sol e pelo sal que vinha no ar.
Os cabelos vinham a embranquecer a uma velocidade de assombrar.
Mas ainda era dele todo aquele mar.

Debruçado na amurada do navio olhava a imensidão que um dia o levara a partir.
Construíra vidas em todos os lugares onde o barco lhe permitia aportar.
Tinha agora um sem fim de casas, famílias…
É certo que não tinha um lar.
Mas que importava isso? Ainda era dele todo aquele mar.

Recordou com um sorriso os rostos de todas as que lhe pediram para não ir.
Algumas bem bonitas, de vez em quando aparecia alguém que o fazia pensar.
Mas quem podia competir com o vento, o sol, a chuva, o luar?
Em que outro amor podia encontrar o mesmo ardor?

Mal se demorava mais um pouco e já sonhava em voltar.
Nem carícias, nem mimos o conseguiam demover.
Queria era ver-se de novo a ir,
Porque o chamava a voz das marés, e o zumbido da ventania.
O seu coração não pertencia à terra firme, e o seu corpo não era capaz de se aquietar.
Deixava sempre pessoas queridas no porto e nunca sabia se seriam dele um dia, em caso de voltar.
Ficava sem companhia, ficava sozinho, mas ainda era dele todo aquele mar.

Algures havia rostinhos morenos e loiros que lembravam o dele,
E que falavam de dias passados à espera de navegar.
Pequenas pessoinhas que mal o conheciam,
E de quem ele mal se conseguia lembrar.
Se os amava?
Amava tudo o que era seu, mas ele… ele era do mar.

Estava a ficar velho lobo cansado,
Sem pêlo e sem vício.
Estava salgado de tanta maresia,
Já os ossos lhe pediam calmaria e o espírito tinha urgência de pousar.
Mas insistia, e insistia.
Sabia que se parasse morria,
Porque não tinha lar, nem possuía companhia,
Nem nada estável nesta vida.
Não tinha pouso, nem guarida
Mas ainda era dele todo aquele mar.


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