sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sou Gracinha, não sou Graça


Chovia, chovia tanto!
Fazia frio, tanto frio!
As saudades do calor e do sol eram assustadoras.

Desde pequena que a Gracinha tinha medo do escuro. E o Inverno era muito escuro… Como era escuro o tempo frio daquela terra cinzenta!
Não era só frio que sentia, era um molhado que crescia nos ossos, que tomava conta das entranhas. Uma desolação, e uma tristeza gigantescas.
Acontecia-lhe sempre chorar nessas alturas.
Se lhe perguntassem porquê, não saberia explicar a razão. Apenas chorava, porque em chorando parecia-lhe que se revoltava, e quando a gente se revolta então é porque ainda está viva.
Se bem que… estar viva, ou morta, que interessava isso?
Não sendo para saber bem, não sendo para valer a pena, então para quê?...

Um dia tinha acreditado que havia um propósito no mundo. E tinha acreditado que um lugar bonito esperava por quem fizesse por o merecer. Mas hoje não.
Hoje já sabia que não existem nem justiça, nem bonitezas, nem recompensas, nem castigos. Só frio, só chuva.
O prazer e o bem querer são tão passageiros quanto o sol de Verão. Tão levianos como uma mulher da vida.
Tudo tão sem propósito…

E as pessoas agigantando-se no frenesim de viver, porque sim, porque nasceram, porque ainda não morreram.
Porquê? Mas porquê?...
Tanta água no chão! Tanta água, tudo tão cinzento! Aonde?... Aonde o azul do céu em tempo de sol, o laranja da areia em tempo de praia?

Se pudesse…
Ia embora e nunca mais ninguém a via.
E ia…
Ia para um lugar distante, lá aonde a terra e o mar se casam debaixo dos coqueiros e das palmeiras.
Aonde as entranhas da terra gemem em amores insaciáveis sem fim,
Lá aonde os macaquinhos tomam banho de mar, e a espuma é sempre quentinha.
Tinha lá nascido. Devia ter ficado por lá. Mas não! Trouxeram-na debaixo do braço, como embrulho escorregadio. Porque sempre fora escorregadia…

Trouxeram-na, planta desenraizada, podada antes de tempo, arrancada fora da terra morna regada com água quente.
Atiraram-na para a borda do caminho, e disseram-lhe que crescesse. Que ali havia tudo, havia paz, havia comida…
Mas não.
Não havia nada. Não há nada.
Exilada, refugiada, escorraçada.
Só há frio! Tanto frio! E chuva! Como chove aqui!...

Invejava em segredo quem morria no pequeno pedaço aonde um dia nasceu. Acreditava que por ter sido transplantada em má altura não soubera vingar.
No fundo sabia. Ah sim, pois sabia…
A Gracinha sabia que o mal estava nela. Só nela.
E por isso chorava. Por isso se revoltava.

Lá, cá, aqui ou ali.
Era o maldito frio que trazia em si que a matava. Não o frio que vinha da rua.
Porque é que tinha de ser assim?...


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

É para isto que um homem nasce...


- Ou pagas, ou sais!- nem uma coisa nem outra! Pagava com quê? Saía como?
Nem o dinheiro, nem as pernas lhe podiam servir de suporte naquela noite. Noite? Ou seria dia?...
Que importava?
Há alguns anos atrás tinha sido um bom trabalhador. Tinha sim! Muito bom mesmo!
O tempo mal chegava para dormir, quanto mais para… para aquilo…
Mas depois… O que tinha mesmo acontecido depois?
Ah, sim! O patrão tinha desaparecido. E com ele os salários dos últimos meses, e a segurança de uma firma centenária herdada em má hora por um badameco franganote que mal tinha cú para as calças.
Foi aí que tudo começou. Foi, não foi?
Ou talvez tenha sido antes disso…
Ultimamente não se lembrava bem das coisas. Não é que não se lembrasse, é que não distinguia bem o que vinha antes de o quê…
Ela fora embora. Finalmente tinha ido. Depois de décadas de ameaças, pedidos, súplicas e promessas quebradas.
Era a mulher dele. Ainda era! Se era! No papel… Então, no papel é que importa! Era mulher dele, sim senhor! Não do outro. Não daquele…
Eram uns putos quando se conheceram. Noutra vida, noutro lugar.
Já tinha ido à tropa quando se juntou com ela? Ná… Ná…
Vieram os filhos. Três. Dois estragados, um bom.
Um já estava com Deus. Era, não era? Pois. Agora restavam dois.
O bom, a estragada.
- Ou pagas, ou sais!- nem uma coisa nem outra! Pagava com quê? Saía como?
Diabo do homem a cortar-lhe o pensamento!
Mulheres… Mulheres são um veneno. A dele era boa. Era boa mas não o queria.
Mas tinha querido! Aquilo é que tinha sido! Bons tempos! Que mulher aquela!
Agora…
Que interessava agora? Agora não havia mais nada além de nada.
A casa metia água pelas frestas e as árvores pendiam sobre os muros.
Deixa arder!
- Mais um? Mais um!
- Já disse! Ou pagas, ou sais! Isto é uma vergonha!
Vergonha? Não sabiam o que era ter vergonha. Ele sabia.
Mas não tinha feito nada. Jurava que não tinha feito nada.
Achava que não tinha feito nada.
Mas sabe-se lá, não é?
Sabe-se lá…
Puta de vida.
É para isto que um homem nasce…
- Eu saio, eu saio. Tire as mãos de mim! Quietinho! Eu saio!
Sabia o caminho.
Como é que dava sempre com o caminho?
Melhor do que um cão a seguir o cheiro.
Pior mesmo era meter a chave na porta…
A porta dançava de propósito a ver se o filho bom ouvia.
Tudo contra ele! Sempre tudo contra ele!
Pronto!
Aos encontrões pelo corredor...
-Um dia dão comigo pendurado lá fora, enforcado.
Ou lá dentro. Lá dentro também servia…
-Ouviste? Tu e a tua mãe?
Mas não, não naquele dia.
Porra! Até a merda da cama mexia!...