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A mostrar mensagens de Novembro, 2016

Sou Gracinha, não sou Graça

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Chovia, chovia tanto! Fazia frio, tanto frio! As saudades do calor e do sol eram assustadoras.
Desde pequena que a Gracinha tinha medo do escuro. E o Inverno era muito escuro… Como era escuro o tempo frio daquela terra cinzenta! Não era só frio que sentia, era um molhado que crescia nos ossos, que tomava conta das entranhas. Uma desolação, e uma tristeza gigantescas. Acontecia-lhe sempre chorar nessas alturas. Se lhe perguntassem porquê, não saberia explicar a razão. Apenas chorava, porque em chorando parecia-lhe que se revoltava, e quando a gente se revolta então é porque ainda está viva. Se bem que… estar viva, ou morta, que interessava isso? Não sendo para saber bem, não sendo para valer a pena, então para quê?...
Um dia tinha acreditado que havia um propósito no mundo. E tinha acreditado que um lugar bonito esperava por quem fizesse por o merecer. Mas hoje não. Hoje já sabia que não existem nem justiça, nem bonitezas, nem recompensas, nem castigos. Só frio, só chuva. O prazer e o bem querer …

É para isto que um homem nasce...

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- Ou pagas, ou sais!- nem uma coisa nem outra! Pagava com quê? Saía como? Nem o dinheiro, nem as pernas lhe podiam servir de suporte naquela noite. Noite? Ou seria dia?... Que importava? Há alguns anos atrás tinha sido um bom trabalhador. Tinha sim! Muito bom mesmo! O tempo mal chegava para dormir, quanto mais para… para aquilo… Mas depois… O que tinha mesmo acontecido depois? Ah, sim! O patrão tinha desaparecido. E com ele os salários dos últimos meses, e a segurança de uma firma centenária herdada em má hora por um badameco franganote que mal tinha cú para as calças. Foi aí que tudo começou. Foi, não foi? Ou talvez tenha sido antes disso… Ultimamente não se lembrava bem das coisas. Não é que não se lembrasse, é que não distinguia bem o que vinha antes de o quê… Ela fora embora. Finalmente tinha ido. Depois de décadas de ameaças, pedidos, súplicas e promessas quebradas. Era a mulher dele. Ainda era! Se era! No papel… Então, no papel é que importa! Era mulher dele, sim senhor! Não do outro. Não …