sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

É para isto que um homem nasce...


- Ou pagas, ou sais!- nem uma coisa nem outra! Pagava com quê? Saía como?
Nem o dinheiro, nem as pernas lhe podiam servir de suporte naquela noite. Noite? Ou seria dia?...
Que importava?
Há alguns anos atrás tinha sido um bom trabalhador. Tinha sim! Muito bom mesmo!
O tempo mal chegava para dormir, quanto mais para… para aquilo…
Mas depois… O que tinha mesmo acontecido depois?
Ah, sim! O patrão tinha desaparecido. E com ele os salários dos últimos meses, e a segurança de uma firma centenária herdada em má hora por um badameco franganote que mal tinha cú para as calças.
Foi aí que tudo começou. Foi, não foi?
Ou talvez tenha sido antes disso…
Ultimamente não se lembrava bem das coisas. Não é que não se lembrasse, é que não distinguia bem o que vinha antes de o quê…
Ela fora embora. Finalmente tinha ido. Depois de décadas de ameaças, pedidos, súplicas e promessas quebradas.
Era a mulher dele. Ainda era! Se era! No papel… Então, no papel é que importa! Era mulher dele, sim senhor! Não do outro. Não daquele…
Eram uns putos quando se conheceram. Noutra vida, noutro lugar.
Já tinha ido à tropa quando se juntou com ela? Ná… Ná…
Vieram os filhos. Três. Dois estragados, um bom.
Um já estava com Deus. Era, não era? Pois. Agora restavam dois.
O bom, a estragada.
- Ou pagas, ou sais!- nem uma coisa nem outra! Pagava com quê? Saía como?
Diabo do homem a cortar-lhe o pensamento!
Mulheres… Mulheres são um veneno. A dele era boa. Era boa mas não o queria.
Mas tinha querido! Aquilo é que tinha sido! Bons tempos! Que mulher aquela!
Agora…
Que interessava agora? Agora não havia mais nada além de nada.
A casa metia água pelas frestas e as árvores pendiam sobre os muros.
Deixa arder!
- Mais um? Mais um!
- Já disse! Ou pagas, ou sais! Isto é uma vergonha!
Vergonha? Não sabiam o que era ter vergonha. Ele sabia.
Mas não tinha feito nada. Jurava que não tinha feito nada.
Achava que não tinha feito nada.
Mas sabe-se lá, não é?
Sabe-se lá…
Puta de vida.
É para isto que um homem nasce…
- Eu saio, eu saio. Tire as mãos de mim! Quietinho! Eu saio!
Sabia o caminho.
Como é que dava sempre com o caminho?
Melhor do que um cão a seguir o cheiro.
Pior mesmo era meter a chave na porta…
A porta dançava de propósito a ver se o filho bom ouvia.
Tudo contra ele! Sempre tudo contra ele!
Pronto!
Aos encontrões pelo corredor...
-Um dia dão comigo pendurado lá fora, enforcado.
Ou lá dentro. Lá dentro também servia…
-Ouviste? Tu e a tua mãe?
Mas não, não naquele dia.
Porra! Até a merda da cama mexia!...

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