sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Quase um Conto de Natal


A Eduarda era um misto de loucura, e de sanidade doseadas de forma estranha. Ria e chorava quando menos se esperava, e tanto aquecia o mundo, como o gelava em duas estocadas simples. Tinham-lhe dito que isso era normal, e que algumas pessoas são mesmo assim. São pessoas com comportamentos “fora do comum”. Mas o que a Eduarda sabia é que ser assim, doía demais.

Por vezes apetecia-lhe fazer as malas e desaparecer. Não saberia dizer para onde queria ir, apenas queria ir. E sufocava no peito uma vontade aflita de correr, abrir a porta sumir. Noutras vezes, ao contrário, sonhava em ser parte de algo, viver em alguém. E em ambos os casos ficava triste, porque a intensidade com que desejava fosse o que fosse, lhe fazia estalar os nervos da carne, e lhe dilacerava os ossos. A Eduarda não se lembrava de ter sido feliz.

Era bonita, simpática, apetecida. Tinha embarcado, naufragado e dado à costa em mais amores do que era capaz de se lembrar. Vinham-lhe à memória nomes, rostos, formas de tocar, calores que a faziam ofegar. Tinha tido os homens a seus pés, mais do que muitos. Provara em todos eles o mesmo sabor de decepção, e nem o alivio rápido dos sentidos lhe tinha sabido a triunfo verdadeiro. Continuaria a ter amores novos se se desse a esse trabalho. Os homens e as paixões desenfreadas, sempre haviam sido o sal da sua vida.

A existência tinha-lhe corrido entre os dedos, enquanto esperava algo acontecer. Porque sempre acreditara que alguma coisa estava para chegar. Hoje estava cansada, desiludida e começava a pensar que era bem possível que não existisse mais nada, para além daquilo que conhecia. Talvez tudo fosse um embuste. Esperanças, sonhos, crenças e fantasias… Talvez fossem isso, só ilusões. Uma canção de embalar meninos.

Seria feitio, seria herança de uma família perdida em intrigas e blasfémias? Ou castigo divino, ou praga de mãe… Fosse como fosse, a Eduarda estava cansada demais para festejar aquele Natal.

Perdera a noção da magia de outros tempos, e nem mesmo quando lhe bateram ao de leve na porta, altas horas da noite, se sentiu tentada a espreitar. Dormitava sentada no sofá que sobrara de um passado que fora quase normal, anestesiada por um programa indistinto de televisão. No prato uma fatia esquecida de bolo-rei. No copo os vestígios do vinho verde com que afogara o bacalhau.

Bateram de mansinho primeiro, e com impaciência depois. “Truz, truz, truz!” E a Eduarda cedeu a levantar-se, e colou  o olho no ralo da porta.

Estava lá. Como sempre tinha surgido nos seus devaneios de menina triste. Era alto, gordo, velhinho de longas barbas brancas, e emoldurado por uma vestimenta vermelha de aspecto muito aconchegante. Às costas trazia negligentemente um saco que se adivinhava cheio de prendas. O Pai Natal! Tinha o Pai Natal a bater-lhe à porta de casa… Logo agora que não acreditava mais em encantamentos, e em milagres.
- Aonde estiveste tu, quanto te chamei anos a fio? Porquê agora?
- Vim enquanto ainda me consegues ver, e ouvir. Vim porque vais precisar de uma companhia amiga.
- Sim? Não preciso de mais nada! Não espero mais nada! Não te empates comigo, vai, segue o teu caminho!

Mas o Pai Natal não fez caso do que a Eduarda lhe dizia na sua voz avinhada, impregnada de tristeza e solidão. Tomou-a gentilmente nos braços, e colocou o seu pobre corpo cansado no quentinho do trenó. Cingiu-a com cuidado na capa vermelha, e com um vigor que a sua idade não fazia prever tomou as rédeas das renas, e abalou céus fora.

Nessa noite de Natal, houve quem afirmasse que o Pai Natal levava companhia no trenó. Houve quem especulasse que pelos cabelos esvoaçantes, deveria essa companhia ser de mulher. Muito se falou sobre isso, mas nada se soube de concreto.

Só no dia seguinte, e ao estranharem a sua ausência no café do supermercado do bairro, alguns vizinhos foram dar com a Eduarda. Encontraram-na caída sem vida, perto da porta de sua casa. Que tinha sido do coração… que ela sempre fora estranha, e muito dada a humores. Que tinha sido do álcool, ou do tabaco… Disseram muita coisa, mas a autópsia médica veio calar todas as suspeitas: A Eduarda morrera de felicidade. Conservava ainda no rosto o sorriso aberto e luminoso a que todos estavam habituados, mesmo quando ela chorava entre gargalhadas. Morrera feliz. Pelo menos isso. Pelo menos isso… Abençoado Pai Natal!