sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Serena Gabriela



A Gabriela não fazia ideia de quando começara a perder o medo da morte. Quando era pequena, lembrava-se bem, passava noites inteiras semiacordada, lutando contra a angústia de imaginar que ela, ou alguém das suas relações, pudesse morrer de repente. Mas isso fora há muitos anos atrás. Agora, a Gabriela não tinha medo, e não sabia como vencera esse receio.

Suspeitava que tudo começara ao descobrir que a vida, ambicionada com todas as forças do seu coração, aquela vida de gente grande, cheia de dias imprevistos e vastas possibilidades, não era afinal o que tinha idealizado. Nessas alturas primeiras em que os sonhos se desmoronam mais rapidamente do que um pestanejar de olhos, nesses dias em que as desilusões massacram dentro do peito, a Gabriela dava por si a meditar na morte. Mas não da mesma maneira como o fazia em criança. De certa forma a certeza de que todas as suas desditas teriam um dia fim, a convicção sensata de que nada duraria para sempre, a constatação madura de que esta vida não é uma sentença perpétua e interminável, deixavam-lhe a alma mais tranquila.

Outras pessoas suas conhecidas tremiam a cada vez que se mencionava a hipótese de morrerem. Algumas batiam três vezes na madeira para afugentar o agouro, outras benziam-se apressadamente ou ralhavam-lhe, para que ela parasse de mencionar um tema tão escabroso no meio das conversações banais de um fim de tarde comum. Mas a Gabriela não se importava em abordar o assunto. Que lhe importava morrer? Era inevitável, não? E era quase como que uma libertação, como que um indulto ou uma promessa apaziguadora.

Estranhamente era na ideia da morte, nessa certeza suprema de nada ser para sempre, que assentava a sua sanidade mental. Quando lhe vaticinavam desgraças e problemas, quando era confrontada com desafios quase intransponíveis, ou a cada vez que as forças ameaçavam faltar-lhe para os combates diários, a Gabriela refugiava-se na crença de que tudo iria acabar por passar, pela simples razão de que chegaria o dia em que surgiria um ponto final em todas as provações.

 No entanto, a Gabriela amava a vida. Não nas suas circunstâncias particulares, mas de uma forma geral e mais abrangente. Adorava sentir o vento, saborear o calor, escutar o som indomável das ondas marinhas. O mundo parecia-lhe agora tão belo e tentador quanto lhe tinha parecido aos quinze, ou dezasseis anos. Nesse aspecto nada mudara. Continuava a ser uma diletante nata, uma sonhadora abstracta, uma pluma esvoaçante nos vendavais de um universo ensandecido. Só com a diferença de que agora não se deixava assustar pela grandiosidade de tudo, já não se intimidava frente ao tamanho gigantesco da realidade. Não se sentia tão David lutando contra Golias, pelo simples facto de que não valia a pena desesperar. O tempo acaba sempre por extinguir qualquer dor. As dores, também elas, morrem um dia.

Assim era a Gabriela. Mulher crescida, saída de um rebento precoce que vingou numa planta daninha de beira de rua. Assim era a Gabriela. Forte e fraca, rebelde e submissa. Grande porque ciente da sua pequenez. Imortal porque sabedora da sua finitude. Invejável? Não. Não se pode invejar aquilo que apenas é. Ela não era invejável, era serena. Feita duma serenidade de terramoto quieto. Tinha um vulcão nas entranhas e temporais no olhar. Resumia-se numa ânsia avassaladora de tomar as rédeas da vida nas mãos. Sentia-se um invólucro perecível e insignificante, um envelope prenhe de correspondência celestial ou demoníaca, dependendo do destinatário e da forma de decifrar o seu conteúdo.

Ah, Gabriela, Gabriela!... Rainha e mendiga, virtuosa e pecadora…Tão igual a todos nós, afinal de contas. Todos tão parecidos uns aos outros, apesar das manias de individualidade e separação que nos caracterizam. Irmã Morte… A Gabriela não a temia, nem a buscava. A morte apenas existe e está lá. Um dia chega e pronto… passamos a ser uma imagem em branco intermitente. Apenas assim, intermitente. E que mal há nisso? Mal nenhum. É a vida, apenas a vida.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

História de amor de Pedro e Laica




Chamava-se Laica, e era obviamente uma cadela. Primeiro porque nenhuma mulher se chama Laica, e depois porque apenas as cadelas (e os cães, entenda-se) são capazes daquele amor sem limites e sem fundamento que caracteriza a essência dos melhores amigos do homem.

A Laica era uma rafeira de pelo curto e cor de raposa, pernas atarracadas, olhos meigos e uma cauda que não parava de abanar numa alegria insana por estar viva. Naquele dia o Pedro, mariola de maus hábitos e piores fígados, meteu em cabeça conquistar a Laica. Chamou-a, assobiou-lhe uma melodia de improviso, soltou estalinhos com os dedos, chegou mesmo a acenar-lhe com uma salsicha enlatada, e nada. A Laica, cadela de rua e vira-latas de grande experiência, desconfiada e precavida, mantinha-se a uma distância razoável do rapaz e assistia numa quietude mansa às suas demonstrações de falso afecto e carinho.

Mas o Pedro era arteiro e tantas fez, tanto se insinuou, que a cadelita abeirou-se dele. Hesitante ao princípio, esquiva e sempre preparada para largar a fugir, a Laica foi aprendendo a gostar daquele humano que aparentemente não tinha nojo das suas pulgas, nem se importava com a sua origem rafeira e desvirtuada, tão pouco valorizava a sua ausência de pedigree ou brasões de família, e não se mostrava ofendido com a sua falta de coleira, de donos, de maneiras.

Passou a viver num encantamento, a Laica. De manhã até à noite esperava a chegada do Pedro, que do alto da sua moto barulhenta, ou do cimo da bicicleta desengonçada que amava conduzir como se de um puro sangue se tratasse, lhe fazia uma carícia apressada e destituída de verdadeiro interesse.

Fazer o quê? Ele era assim. A novidade deixara de o ser, a conquista estava consumada e já o enfastiava ter a pequena cadela filada às pernas todo o santo dia. Naquela tarde, o rapazola vinha de mau humor da venda e do paleio com os amigos. A Laica, pobre dela, mal o viu assomar à esquina de todos os dias, lançou-se na costumeira corrida de encontro às suas pernas, na ânsia de receber um afago, ou uma palavra de bom acolhimento.

Porém, nesse dia, o Pedro estava de juízo virado e atirou um violento pontapé de encontro ao focinho da cadelinha.- Some-te perro maldito, que te vazo um olho!!
A Laica, aflita e apavorada, ganindo de dores no focinho, com o coração a estalar de tristeza, desandou de facto. No seu pequeno cérebro de cão não conseguia perceber o que de tão mau teria feito, que justificasse aquele tratamento cruel por parte da pessoa a quem mais amava nesta vida. O Pedro era para ela era mais do que um dono, era o próprio mundo, concentrado ali, naquela figura triste de rapaz de aldeia mal vestido e mal apessoado.

De noite, e já com o ânimo mais tranquilo, o Pedro sentiu a falta da Laica perto da cama dele. Era a cadelita a única criatura vivente que lhe desejava boa-noite, no meio de muitas lambidelas e ganidos de alegria. Era ela que lhe fazia companhia enquanto o sono não chegava, que escutava os seus monólogos solitários de homem solteiro. Sem a presença da Laica, a casa ficava muito mais triste e silenciosa. Sem o familiar raspar de suas unhas no soalho da sala, nem a sensação de segurança que ela proporcionava apenas por existir ali, o Pedro não conseguia adormecer.- Estafermo da cadela! Quem diria que se ia mesmo embora? É a paga por toda a comida que lhe dei, e pelo abrigo que lhe proporcionei este tempo todo! Soubera eu e nunca tinha chegado a perder tempo com ela!...

À medida que a noite avançava, o Pedro ia sentindo mais a falta da Laica, e no dia seguinte, mal o sol raiara, já se encontrava a pé e decidido a reconquistar o apreço da cadela.

Porém a Laica continuava de coração destroçado. Destituída da ardileza e das manhas dos humanos, não percebia a razão que levara o seu amado dono a maltratá-la de forma tão violenta, e mantinha-se indiferente aos apelos de concórdia que o rapaz lhe dirigia.

Houve quem dissesse que o amor de Pedro pela cadela era de facto verdadeiro, uma vez que o viram chorar desconsolado perto do local aonde a Laica o costumava vir buscar ao caminho… Houve quem afirmasse a pés juntos que se tratava apenas de orgulho ferido, e que em poucos dias o Pedro já teria esquecido a cadelita de rua que um dia fora sua.

Mas e a Laica? Ninguém imaginava a vontade que tinha de voltar às boas com o seu dono, de lhe sair ao encontro como dantes, num abandono sem maldade nem interesse. Mas tinha medo. Tudo tinha mudado. Se já não atendia aos chamados, se não respondia com latidos aos assobios do Pedro, não era porque tivesse deixado de gostar dele. Talvez num cantinho recôndito do seu coração canino, a Laica estivesse a aprender a gostar um pouco de si mesma, neste mundo ardente de desencontros e desilusões. Ou, estava apenas com receio de confiar de novo. Nada mais frágil do que os laços de confiança que, quando se quebram, dificilmente se voltam a soldar.


Seja como for, a partir daquela tarde em que o Pedro pontapeara a Laica, nunca mais os dois foram vistos juntos como antigamente. Quem prestasse atenção conseguiria ver a cadela meio escondida por detrás do muro desmanchado de qualquer quintal, quando o Pedro passava. Espreitava-o assim sem ele se dar conta, porque apesar de o temer agora, não deixara de o amar.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"Quem queimou a língua, nunca esquece de soprar a sopa."- provérbio alemão



Todos aguardavam o Verão de São Martinho. Certamente ele viria, como era costume todos os anos desde que os homens tinham consciência desse dia em que se assam as castanhas, se prova o vinho e, diz o povo, se mata o porco. Pelos vistos apenas o porco não deve apreciar muito o folgazão São Martinho...

Bem, todos esperavam o anunciado Verão, menos a Doroteia. Ela sabia que costumes e tradições à parte, o tempo é apenas tempo que passa e pouco mais. Nem calendários, nem lendas populares alteram uma vírgula que seja aos intentos do universo. Podem desmanchar-se os homens em preces e desfazerem-se as velhas beatas em ladainhas, que se não for para fazer sol, ele não surgirá no horizonte por muito que no calendário se grite que é São Martinho. A Doroteia olhava os preparativos para o magusto com o mesmo descaso com que observava os cães vadios que passavam todos os dias por baixo da sua janela. Deixá-los, pensava. Não era supersticiosa, nem crente. Costumava dizer de si mesma que não era nada de definido. Sobre ela tinham os anos rolado em passo de caracol, sem que uma só beliscadela lhe anuviasse o semblante de prima-dona. Deixá-los, deixá-los.

- Vem, Doroteia!- bradavam-lhe da cozinha.- Já estão as brasas altas, vão-se deitar as castanhas a assar!!
E toda a tarde era um corrupio de subidas e descidas nas velhas escadas de madeira que serviam a cozinha. Tabuleiros de febras primeiro, febras assadas e cheirosas, tabuleiros de castanhas depois, castanhas quentes e boas, a estalarem nas cascas crocantes, passavam frente à Doroteia que, num pasmo desconsolado tudo via, e por nada se interessava.
Que lhe importavam as comidas diferentes e os dias especiais? Para ela era sempre Inverno frio. Para ela nunca o dia começava de forma animadora, nunca as horas se lhe apresentavam de forma agradável e convidativa. Para quê querer saber? Deixá-los.

E o São Martinho passava. Vinha o Natal, a consoada com os seus preparativos mágicos e impregnados de uma nostalgia que ela não percebia. A passagem de ano... Festejar com que finalidade? O ano passa sozinho. Não existe necessidade de tanto frenesim.

As pessoas aceitavam-lhe a indiferença, e não se afligiam com as suas excentricidades. Familiares e amigos mais chegados já tinham como certo que com a Doroteia não se podia contar para nada que fosse festividade. Nem todos podemos ser iguais, diziam em sua defesa quando alguém a acusava de ser bicho do mato.

O mundo é assim, por vezes permite-nos ser quem somos, desde que, claro, não incomodemos ou importunemos ninguém com as nossas esquisitices. A Doroteia, pobre dela, não servia de estorvo a pessoa alguma. Limitava-se a ver a vida passar na segurança da sua zona privada. Não a estimavam, é certo. Mas também ninguém lhe queria mal. Era uma simpática nulidade, inofensiva e até bastante decorativa, segundo algumas opiniões masculinas.

Então porque estamos a perder tempo com a dita senhora?, quererão vocês saber. Pois bem, a verdade é que alguém descobriu que a Doroteia afinal festejava sim, mas sozinha e dentro de portas. Quando a cortina descia sobre a sua janela escancarada, a Doroteia assinalava as efemérides como qualquer outra pessoa. A diferença é que gostava de o fazer de forma privada e intimista. Vivia sozinha, fazia as suas festas sozinha… pois, faz sentido.

Engraçado foi que mal este segredo bem guardado deixou de o ser, a opinião pública passou a encarar a Doroteia de forma totalmente diferente. Já não era a pacata mulher que não gosta de novidades. Era agora uma criatura dissimulada, egocêntrica e manipuladora. Até aqueles que a conheciam há mais tempo faziam coro com as críticas generalizadas. Fingia, mentia, representava. Mostrava uma face, e afinal era outra bem diferente! Escândalo, infâmia! Fogueira com a bruxa! Ah, se estivéssemos nos tempos da Inquisição!...


Vá lá alguém perceber o mundo, não é verdade? Julgam-nos não pelo que de facto fazemos, mas pela forma como deixamos transparecer aquilo que somos. O mesmo acto pode ser louvado, ignorado ou amaldiçoado, dependendo da exposição que tiver. Que se dane isso! Às urtigas todos esses espartilhos mundanos! Viva a Doroteia que malgrado todas as intrigas festeja hoje o dia de São Martinho, apesar de ainda faltarem dois dias para tal acontecer de facto. Viva ela que faz as suas festas, e constrói o seu calendário! Hip, hip, hurra! E lá vamos nós comendo pelas beiras, soprando a sopa que está quente, num receio piegas de queimar as beiças…

terça-feira, 31 de outubro de 2017

"Agora é tarde. A Maria é morta.




Quando naquele dia a Maria Andrade da Silva saiu de casa sabia que ia morrer. Certo, dirão vocês. Todos sabemos que vamos morrer, e daí? Pois, mas a Maria sabia exactamente que aquele era o dia em que ia falecer. Como?? Porque ela mesma escolhera aquela data para se suicidar.

Era mais uma tarde em que a rua serpenteava languidamente frente aos olhos dos transeuntes. “Todos têm uma rua, a que chamam sempre sua…” Conhecem estes versos? São lindos! Mas para quem não tem nenhuma rua a que chame sua, podem ser os versos mais tristes do mundo. A Maria não tinha nenhuma rua que fosse sua de facto, mas em troca todas as ruas, ruelas e avenidas lhe tinham sido deixadas em herança. Se o pai ao desencarnar não lhe deixara testamento lavrado em cartório, deixara-lhe ao menos aquele gosto característico dos Andrade da Silva por passear, andar, caminhar. A Maria era uma passeante nata, e aquele era a rua aonde costumava passear nos últimos vinte anos.

O mais curioso foi que ninguém das suas relações se apercebeu de que aquela podia ser a última vez em que a Maria descia a rua. Nada nas suas maneiras, no seu sorrir ou modo de andar denunciava, ainda que suspeitosamente, que ela levava já em mente terminar com a vida. Balanceava as ancas num ritmo que era só dela, e que fazia os homens salivar. Sacudia a longa crina morena como era seu hábito fazer. No decote espreitava como era usual o volume harmonioso dos seios, e no requebro da cintura esbelta anunciavam-se mil promessas e ousadias. A Maria era linda! Uma linda mulher.

O que pensaria naquele preciso momento em que pela derradeira vez se cruzava com rostos conhecidos de todos os dias? Será que formulava um voto de despedida a cada um? Dirigiria uma prece silenciosa em favor dos aflitos, dos tristes, dos abandonados? Pretenderia consolar ainda alguém com um final arremedo de ternura? Escutaria os costumeiros galanteios, experimentaria alguma espécie de prazer em sentir-se cortejada?

Temos a tendência de pensar que se esta, ou aquela outra coisa tivesse acontecido, poderia ser o bastante para que fulano, ou sicrano não se matasse. E no caso da Maria? O que se poderia ter passado para que ela mudasse de ideias naquela tarde? Acreditar que pode estar nas nossas mãos salvar alguém é incrivelmente assustador. Se acreditarmos piamente nessa premissa, damos por nós a caminhar na vida em pezinhos de lã, sempre à escuta, à espreita… Se crermos que de um gesto nosso, pode depender acrescentar alguns anos na existência de um nosso semelhante, como será possível continuar a levar a mesma vidinha despreocupada de sempre?

Não sei o que teria sido necessário acontecer para que a Maria colocasse de lado a ideia fixa de cometer suicídio. Nem sei tão pouco de nenhuma razão concreta que ela pudesse ter para desejar um ponto final definitivo. Bonita, inteligente, sensível, simpática, afável, generosa, sempre pronta para escutar, apoiar e animar qualquer pessoa, a Maria era uma mais preciosidade para quem tinha a boa sorte de a ter como amiga.

Apesar de todas as evidências que pudessem indicar o contrário, o certo é que a Maria queria morrer, e aquela tinha sido a tarde eleita entre todas as outras tardes, manhãs e noites, para ser a última tarde da sua vida. Não é que fosse uma fixação nova, nada disso. Desde há muito tempo que a Maria equacionava seriamente a hipótese de desaparecer. Desligar o interruptor, descansar, desistir. Parar de sofrer. Só não o fizera antes por causa da teimosa esperança que sempre tinha, de que tudo pudesse ainda ficar diferente. No fundo queria que a vida se assustasse com o desalento dela, e que por medo de a perder, retirasse de dentro da cartola a felicidade com que sonhava.

Enquanto supôs que essa felicidade tão esperada era possível, a Maria foi aguentando. Contrariedades, desgostos, perdas e desilusões iam-se abatendo sobre ela, como águas de um mar revolto de encontro aos rochedos. Ela aguentava. Más palavras, modos bruscos, planos gorados sucediam-se numa cadência de fazer dó, mas ela suportava. Suportava tudo, a Maria. E o mais irónico é que ela suportava um peso que ninguém mais conhecia.

As pessoas viam-na sorrir, e acreditavam-na feliz. Como é simples iludir quem se quer deixar iludir! Como é fácil aparentar que não se quer, não se está, nem se é, quando os espectadores em volta estão mais preocupados em contemplar o próprio umbigo do que inclinados a prestar atenção aos problemas alheios. Alguém nos dá os bons dias e nos pergunta de forma automática como estamos. Para que perguntam se seguem o seu caminho logo em seguida? Para que perguntam se não querem saber? À Maria muita gente perguntou se estava bem, quiseram saber como tinha passado... Mas ninguém se deteve o tempo suficiente para esperar pela resposta.

Ah, estamos então a especular!, dirão alguns de vocês. Especulamos sobre se a Maria não se teria morto caso surgisse alguém confidente pelo caminho!...Especulamos sim!, digo eu. Especulamos porque isso é tudo o que nos é dado fazer. Especulamos porque agora é muito tarde, tarde demais.

Remorsos? Deveríamos sentir remorsos por todas as Marias que se cruzam connosco a caminho da morte, e a quem não damos oportunidade de desabafar? Mas então para que servem os psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e todo esse exército prestimoso de anjos e fadas prestáveis e acessíveis, com todo o seu séquito de remédios, calmantes e panaceias? Sim, para que serviriam eles, se nos coubesse a nós, ignorantes mortais refazer os pedaços amachucados da alma dos outros? E os sofás com cheirinho gostoso de bom cabedal, ficariam sem préstimo? E o relógio que faz tique-taque com hora marcada para ressoar, seria atirado negligentemente para o fundo de uma anónima gaveta? Ná! Não temos que ter remorsos, ou dor no coração pelos que escolhem partir. Este mundo é uma selva. Cada um por si. Temos que cuidar já de nós, dos nossos! Uma canseira! Ter ainda que prestar atenção ao sofrimento dos outros? Que se curem, que se tratem, e em última instância que vão morrer longe, para não cheirarem mal perto dos nossos imaculados lares modernos e tecnológicos!!...

Pois, mas e quando a Maria é um dos nossos, um de nós? E quando a Maria que passa por nós, ágil e airosa a caminho da morte, na sua blusa decotada é a nossa mãe, a nossa irmã, a namorada querida? E quando a Maria é Manuel e assume o rosto do nosso pai, do nosso marido, do nosso filho amado? Há pois, porque as desgraças não acontecem só aos outros!... Todas as Marias são a Maria de alguém...

Naquela tarde houve pranto e lágrimas em casa da Maria. Quando ela não apareceu à hora costumeira, e quando dela só sobrava uma carta de despedida deixada com timidez na mesa de cabeceira, o mundo dos Andrade da Silva desabou. Mas porquê? Porquê, santo Deus? Se ela tinha tudo, se não lhe faltava nada!... Vá-se lá saber, vá-se lá saber...
Um amigo meu, especializado na área da psicologia humana, disse-me um dia que quando existe a verdadeira intenção de suicídio, podemos até tirar a faca da mão do suicida, mas à primeira oportunidade ele vai tentar de novo. O suicídio nem sempre encontra explicação entre as probabilidades lógicas, e obviamente que não é culpa de ninguém quando alguém decide colocar termo à própria vida. Não está nas nossas mãos evitá-lo, é certo. Mas desde que a Maria se matou, o peso e a sensação de culpa tomaram conta de todos os familiares e amigos mais chegados. Uns recordam-na como a mulher risonha e bonita que era, outros lembram-se dela como a amiga altruísta e sempre disponível que foi. Há quem conserve na lembrança o som cristalino da sua gargalhada, a forma amorosa como encarava o pôr-de-sol, a delicia que provocava quando pousava a mão fresca e esguia numa qualquer fronte febril.

A maioria dos conhecidos da Maria, que se cruzaram com ela naquela tarde fatídica entre todas as tardes, não consegue esquecer a forma elegante como desceu a rua que não era dela, mas que era tão sua. Nenhum deles sabia que era a última vez em que a viam. E se tivessem sabido?

Nunca sabemos de facto se aquela é a última vez em que vemos alguém que nos é querido. Não conseguimos segurar quem gostamos à força de carinhos e abraços, mas podemos assegurar que se eles se forem amanhã, a recordação que guardaremos desse último encontro será a melhor possível. Todos temos Marias e Manuéis em casa. Sabe-se lá se algum deles, dos nossos, não medita em silêncio sobre a sua última tarde entre nós?

Vamos aproveitar as pessoas de quem gostamos enquanto as temos! Só somos grandes e especiais aos olhos de quem nos quer bem. A cada pessoa querida que nos morre, é como se nos cortassem centímetros de altura e fôssemos encolhendo, minguando de tamanho e de importância, até nos tornarmos pequenas migalhas que o vento dispersa e os pardais enjeitam. Vamos perdendo representação e estatura até sermos uma Maria que se senta e escreve a carta de despedida, sai depois para a rua que não é sua, e caminha a passo compassado para a morte.


P.S. Tu que tens uma Maria e um Manuel dentro de casa...Tem paciência connosco. A vida passa depressa, só mais um pouco e estamos de partida.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Capitão Quintas (ex-combatente em Goa), RIP



O Capitão Quintas veio maluco da guerra de Goa.
Tresloucado, diziam.
Doido varrido,
Alucinado.

Cantava e declamava na rua.
Enrolava cigarros que nunca fumava.
Em vez de fumar,
Punha-se a dançar.

Era um pândego!

Não trabalhava,
Mas também como haveria de trabalhar?
Uma parte dele ficara na Índia,
Na terra quente de uma Goa distante.

Era um dos melhores amigos do meu pai.
Um dos ódios de estimação da minha mãe.

Lembro-me de o ver.
Estirado ao sol,
cafrealizado,
amulatado,
um soldado cansado.

Eu gostava dele.
Contava histórias diferentes,
de elefantes,
concubinas e marajás.
Comia arroz com as mãos,
almoçava sentado no chão.

Lembro-me bem...
O meu pai de fato engomado,
de sapatos engraxados.
O Capitão Quintas sempre amarrotado,
montado nuns tamancos desengonçados...

Velho e abandonado,
persona non grata...
Morreu como viveu,
sozinho na sua cubata.

O meu pai beijou-o ao de leve,
num adeus sentido ao Capitão que abalava.
Logo o meu pai que nunca beijava…


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Natal, haverá sempre Natal



Naquele Natal não havia árvore de Natal.
E o sapatinho permanecia vazio.
Fazia frio,
e não tínhamos sol lá fora.

A mesa era solitária sentinela,
a cozinha não cheirava à costumeira canela.
Nem tínhamos luzinhas que piscassem,
ou figuras que alindassem a janela.

Estávamos longe de casa.
O Pai Natal não sabia o caminho.
Nem tal era de admirar,
pois não havíamos voado sobre o mar?...

Na cabeça do meu pai nasciam mais cabelos brancos,
os ossos parecia que lhe mirravam,
mingavam de tamanho.

Aquele Natal foi o principio desta vida.

Nunca mais o som do gelo no copo de whisky,
nunca mais o papel com cavalinhos verdes e vermelhos...

A humidade era nossa companheira,
e o bolor a nossa bandeira.

Vivíamos numa caverna,
que não era gruta,
nem ficava em Belém.
Era uma manjedoura pequena,
aonde mal cabia uma naufragada família moderna,
que não era sagrada nem profana.
Aonde nada voltou a ter nome definido,
e aonde até o Natal podia ser esquecido.

E depois disseram-me que não existia Pai Natal,
nem anões a colocarem laçarotes ou fitas.
E que não recebemos prendas
porque não tínhamos dinheiro nem para a mercearia.

Um poeta disse: “Porque contam estas coisas às criancinhas?”
Não bastava já a tristeza que havia?




P.S. Houve uma altura em que deixei de acreditar no Pai Natal, estou a aprender de novo, devagarinho.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Mulher da rua



Mais uma entre tantas outras.
Movia-se com graça felina.
Oferecia sorrisos, e olhares.
Era uma estrela cadente,
numa cadência que não surpreendia.

Quem a visse pouco dava por ela,
Tão com todas se parecia.
No entanto era diferente,
Distante, ausente.

De saia curta e saltos muito altos,
Baton vermelho nos lábios,
Cheiro de perfume barato.

Porque não seria ela igual?
Vendia-se como todas, afinal...

Ela olhava e não via.
Acreditava numa fantasia,
Era anjo caído no lodo,
Mas a áurea ainda ardia.

-Tu, anda cá!
Nem respondia.
Se gostava, ia.
Fazia apenas o que queria.
- Julgas-te mais do que as outras?

Ela sabia.
Sabia como o mundo a via.
Mas no coração ainda ouvia
A voz da mãe que tivera um dia.

A voz dizia que ela era uma princesa,
De rara beleza.
Uma pérola presa
Numa concha de nostalgia.

Não era uma cadela como todos diziam.
Era a menina da sua mãe.
Podia estar quase nua,
Viver na rua,
Ser minha e ser tua,
Mas sabe-se lá o que o amanhã traria?…

Sonha menina reguila!
Sonha enquanto o cliente refila.
Nos teus sonhos não chafurdas,
nem és como todas as  putas.

Nos teus sonhos estás catita,
estás tão bonita!
Imagina que tens um vestido de chita.
Fecha os olhos, e... acredita.




P.S. Às vezes penso o que terá sido feito de todas as meninas de rua que conheci, e que batiam o Monsanto nos tempos em que São Domingos era uma mata selvagem, cheia de tarados e de perigos...

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Quis que tudo fosse diferente



Anani, ananão,
Ficas tu e eu não…

O vulto cada vez mais pequeno.
Viro-me para trás,
Uma vez, e outra vez.

Nariz esborrachado na vidraça,
Ela lá está.

A mão move-se num estranho gesto de despedida,
Um sorriso cristalizado no semblante.

Anani, ananão…
- A mãe vai embora, não é?

Ficas tu e eu não…
Anani, ananão.

Tirei-a da minha vida.
Apenas posso aspirar a esta eterna despedida.

Um milhão de vezes  a reneguei.
Não fui capaz.
E agora vou,
ela fica.

No vazio dos meus silêncios  estão os gritos de outrora.
Nos meus sonhos  de escuridão, ela ainda chora.
Ainda me chama, reclama,
Faz chichi na cama.

No meu coração ficaram os beijinhos,
Os abracinhos.

- Gota mim?
Anani, ananão…

Tenho tantas saudades dela!
Tantas, tantas!
A minha princesinha a quem cortaram as tranças…

Sou uma crescida.
Não se chora.

Anani, ananão.
Ficas tu e eu não…

Um dia, minha querida,
Troco de lugar contigo,
Tu menina de novo,
e eu outra vez  pequena.

Anani, ananão
Sem nada para provar,
Sem ninguém para nos mandar calar.




P.S. Perdoa minha filha, todas as vezes em que quis que fosses diferente.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Inocência das pessoas



Às vezes vejo a inocência nas pessoas,
e quase sem querer gosto delas.

Vejo o olhar receoso,
o sorrir nervoso…
Um gancho no cabelo colocado com zelo.
Aquele medo de não ser aceite,
e a vontade tola de que gostem de nós.

Vejo o desejo absurdo de agradar.
Vejo a contenção nos suspiros cautelosos,
nas respirações apenas adivinhadas.

Que tontas são as pessoas!

E que pueril candura se esconde em cada gesto estudado.
Mesmo quando fingem, mesmo quando representam,
as pessoas são mais puras do que aparentam.

Gostam de parecer sofisticadas,
superiores,
complicadas…
Mas não.
Não são.

Quase sempre transparentes,
as pessoas inocentes são imaginação e coração,
são coragem e terror.

Às vezes vejo a inocência nas pessoas,
e sinto-me menos sozinha.
Sinto que não é só minha esta forma de ser.

Pessoas…
Tentáculos da mesma planta.
Um todo que do chão se levanta,
E no ar se escoa.


A bruxa das batatas, e das moeditas




Juntámos todas as moedinhas,
mesmo as mais pequeninas.
Reunimos o suficiente para meia dúzia de batatas.
Batatas com ossos,
ossos com o raio que os parta.

Contentes levámos o nosso pequeno tesouro.
Meia dúzia de tostões que para nós eram ouro.

Calculámos o peso dos tubérculos.

Uma, duas, três, vá lá quatro batatas rosadas e bonitas.
Um quilo? Sim?
Chega, obrigada.
E apresentámos as moeditas.

A mulher era velha e feia.
Tinha uma verruga no olho,
a fazer lembrar um treçolho.

Vestia toda de preto,
o nariz grande e erecto,
os cabelos farripas embranquecidas,
as rugas crateras desconhecidas.
na boca valetas como fossas abertas.

Foram pedir esmola à porta da Igreja?
Não quero cá porcaria desta!

E nós que na altura não sabíamos de direitos,
nem esgrímiamos mais valias,
só conhecíamos o mundo das ruas,
só sabíamos a fome que tínhamos,
viemos embora sem as batatas.
Foram inúteis as nossas moedinhas.

Nessa noite os ossos com nada,
foram ainda mais rijos,
mais raios que os parta.

A bruxa, essa deve ter dançado num sabat de feitiçarias.
Velha malvada!
Que se empanturre de batatas,
Em caldeirões temperados com ervas daninhas!



P.S. Por muitos anos que viva, nunca vou esquecer o dia das batatas, e das moedinhas.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Maningue xunguila (muito bonita)



Na quente noite africana, corpos nus dançam.
Transpiração misturada com sangue e lágrimas.
O tambor ecoa aonde as hienas bebem, nos charcos parados.
No mato os leões rosnam e aprovam.
Os elefantes derrubam arbustos enquanto escutam.

África fala.
África dança.
Mãe, olha nós...

Negros, brancos, mulatos,
filhos sem mãe,
mortos vivos, errantes e amaldiçoados.

A carapinha embrulha-se nos cabelos menos ondulados,
a catinga cheira a perfumes caros.
As mamanas exibem seios perfeitos e bem cuidados.
Os madalas não querem ser grisalhos,
e os mufanitas viraram pirralhos.
Os ventres estão fecundados,
mas os rebentos são bastardos.

Na noite quente, África dança.
África rebola nos traseiros ensandecidos dos feiticeiros que oram.
Mãe, olha nós...

Há quem diga que és mulher da vida.
Que te vendeste, estás perdida.
Outros dizem que continuas uma cabrita bonita,
o corpo negro coberto de capulana e chita.

Mas tu, indiferente a todos danças.
E pulas.

Pára África, pára com a tontaria!
É noite, está escuro,
E o capim está prenho de satanhocos impuros.
A cacimba cai com nostalgia.

Deixa nós subir...
vamos cair no batuque maningue xunguila.
M’arrebenta o corpo numa toada feita de loucura…

Não nos renegues Mãe!
Mãe África dança.



P.S. África dos meus sonhos e das minhas saudades, kanimambo, hambanine e até um dia

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Hoje não!



Hoje estou cansada.
Cansada de fazer comida que ninguém vai comer.
Cansada de limpar o pó que ninguém quer ver limpo.

Hoje estou cansada.
Cansada de acreditar que existem contos de fada.
Cansada de perseguir ainda sonhos e fantasias
Quando devia ter juízo e sensatez.

Tão cansada!

Amanhã estarei melhor talvez.
Amanhã terei de novo forças para batalhar.

Mas isso é amanhã,
Porque hoje não quero mais nada.
Preciso de ficar encolhida no meu cantinho, a chorar baixinho.
Preciso de escutar o barulho que o tempo faz ao passar.
Tic-tac, tic-tac…

Tudo tão inútil!
Tudo tão vazio.

Não bulam comigo,
Não me apoquentem, nem me chamem.
Não estou para ninguém.
Fugi, desertei por esta vez apenas.


Hoje estou muito cansada.