Mensagens

A mostrar mensagens de 2017

Quem tem medo de filmes de terror?

Imagem
As luzes apagam-se e as cabeças aquietam-se.
No grande ecrã surgem as letras e as alegorias:
"Antigamente eu fazia birra, e ele tinha paciência com os meus desatinos. Quando eu me magoava no betão de que o mundo é feito, ele cuidava de mim. Provava os meus cozinhados (mesmo os mais intragáveis), e dizia que gostava, que estava bom… Para ele, fui sempre a miúda fantástica de pernas bem feitas, e palavras em francês na ponta da língua… E gostava de mim, apesar de eu me ir tornando tão diferente de ontem.
Antigamente eu e ele éramos para sempre. Espreitávamos as árvores de Natal alheias, com esperança e triste solidão. Fazíamos planos (Deus! Como fizemos planos!!). E sonhávamos… Sonhos simples de pessoas simples. Sonhos que podiam ter dado certo, quem sabe?... Porque não deram certo? Era tão pouco o que pedíamos!…
Antigamente o meu espaço cabia todo no mundo dele. Contávamos tostões e palmilhávamos as ruas, porque as ruas eram nossas e nós podíamos. E não era só um bairro, era a cidade, a praia, flo…

Tantos são os gostos da vida

Imagem
Gosto de… Eu gosto de passear as pernas vestidas em meias brilhantes nas ruas cheias de gente. Gosto da sensação de frio que se sente quando o rabo escorrega devagarinho pela parede cheia de sangue, depois de um tiroteio. E gosto de me encolher em cima do sofá para afugentar o frio da noite. Também gosto de apanhar as migalhas que caem para o colo, uma a uma, depois de comer bolachas de água e sal. Gosto de quando me estendem uma mão com cheirinho bom, de alfazema lavada, com promessas de tudo, sem certezas de nada.
Gosto… Gosto do barulho da trovoada e da cor dos relâmpagos na tempestade, e da saudade que todo isso me traz de uma África distante. Ah, e gosto de gelado de chocolate comido em taças de alumínio sem brilho… E da casca bem tostada do frango frito ou do leitão assado. Gosto do medo que o escuro desvenda sempre que uma porta nova se abre. Também gosto do vento fresco nas tardes muito quentes (o vento sagrado do mar).
Gosto… De sentir como se houvesse electricidade nas veias, ou como se …

Pancadinhas de Moliére

Imagem
Todas as estradas acabam, têm de acabar. Está tudo bem, não faz mal nenhum.
Não, não é preciso chorar!
Quando viemos para cá, sabíamos que ia ser assim… Aceitámos. Lembram?
Claro que não lembram!... Mas também, como podiam?
Mal aprendemos alguma coisa, morremos…
Desce o pano sobre os aplausos silenciosos. A última rosa negra caiu no palco moribundo de nostalgia. Apagaram-se os holofotes cansados, tão cansados de iluminar.
Que querias? Diz! Estou aqui. Fala!
Não. Para quê? Nada digo. Perdi a fome da falar, Assim como esqueci o cheiro do oceano quando a tarde dorme. Da mesma forma que desaprendi as lantejoulas na brisa suave da praia.
Hoje sou menos do que nada, e esse nada é mais do que alguma vez fui.
Tudo tão inútil, tão escusado…
Qual o Deus louco que me fadou em melancolia?
Fecho os olhos, em fim de romaria. Não me prendam aqui!
Cabeceio. Tenho sono! Levantei-me de madrugada. Foi grande o meu dia.
Algures alguém ainda me abana, em vão alguém ainda me chama… Mas não os ouço. Nunca mais os hei-de ouvir.
Eu já não sou d…

A vida é uma colcha de retalhos

Imagem
Leonel chegou a casa com um sorriso de orelha a orelha. Tinha despachado a granda mula em alto estilo. Ah, se tinha! Quem julgava ela que era, afinal? Uma dama, não? Uma lady!... Devia de ser, devia!... Uma mula, isso sim! E das grandes, das piores. Daquelas que se acham senhoras!... Primeiro eram só sorrisos e maneiras sedutoras. Que sim, e que mais isto e aquilo. Acenos e gingares de ancas provocatórios. Mensagens e telefonemas insinuantes, com direito a fotografias e tudo. E depois, olha!... Depois a fazer-se de fina!... Não, porque não. Porque isto, e porque mais aquilo. Que acreditava no amor… Que julgava que era assim, e que ia ser assado… Pois, pois! Encostara-a logo à parede, e deixara bem claro ao que vinha. Sim, ou sopas. Se queria, queria. Se não, adeus, que há muito gado  na pastagem. E ela cedera. Claro que cedera! Pois se era mesmo isso que estava a pedir, com aquela voz de santinha carunchosa!... Ah! E ainda por cima chorara! Tivera o desplante de chorar baba e ranho, a…

No tears, no fears

Imagem
Não existe poesia na tristeza, assim como não existe beleza na solidão. Pois, claro, há muito quem seja contra! Há muito quem defenda a maravilha de um sentimento melancólico, ou a virtude da tão apregoada privacidade. A tristeza e a solidão são cancros, são como a ferrugem que corrói a melhor chaparia. Não são sentimentos poéticos, nem belos, são antes miseravelmente desgraçados.
O Duarte era um homem de quarenta e muitos anos que, à semelhança de tantos outros homens dessa idade, se sentia abandonado num mundo superlotado de ilustres desconhecidos. E não é que o Duarte vivesse sozinho, nada disso! Partilhava o mesmo vão de escadas com outros homens, alguns mais velhos, outros mais novos. Companhia física não lhe faltava, mas não possuía o menor laço afectivo com nenhuma criatura vivente. Da pobreza indigente da sua vida, ressaltava a saudade que trazia impressa na alma. Saudades de um tempo distante em que tinha tido um tecto, um lar, amigos e familiares, um nome honrado. Perdera t…

Serena Gabriela

Imagem
A Gabriela não fazia ideia de quando começara a perder o medo da morte. Quando era pequena, lembrava-se bem, passava noites inteiras semiacordada, lutando contra a angústia de imaginar que ela, ou alguém das suas relações, pudesse morrer de repente. Mas isso fora há muitos anos atrás. Agora, a Gabriela não tinha medo, e não sabia como vencera esse receio.
Suspeitava que tudo começara ao descobrir que a vida, ambicionada com todas as forças do seu coração, aquela vida de gente grande, cheia de dias imprevistos e vastas possibilidades, não era afinal o que tinha idealizado. Nessas alturas primeiras em que os sonhos se desmoronam mais rapidamente do que um pestanejar de olhos, nesses dias em que as desilusões massacram dentro do peito, a Gabriela dava por si a meditar na morte. Mas não da mesma maneira como o fazia em criança. De certa forma a certeza de que todas as suas desditas teriam um dia fim, a convicção sensata de que nada duraria para sempre, a constatação madura de que esta vida…

História de amor de Pedro e Laica

Imagem
Chamava-se Laica, e era obviamente uma cadela. Primeiro porque nenhuma mulher se chama Laica, e depois porque apenas as cadelas (e os cães, entenda-se) são capazes daquele amor sem limites e sem fundamento que caracteriza a essência dos melhores amigos do homem.
A Laica era uma rafeira de pelo curto e cor de raposa, pernas atarracadas, olhos meigos e uma cauda que não parava de abanar numa alegria insana por estar viva. Naquele dia o Pedro, mariola de maus hábitos e piores fígados, meteu em cabeça conquistar a Laica. Chamou-a, assobiou-lhe uma melodia de improviso, soltou estalinhos com os dedos, chegou mesmo a acenar-lhe com uma salsicha enlatada, e nada. A Laica, cadela de rua e vira-latas de grande experiência, desconfiada e precavida, mantinha-se a uma distância razoável do rapaz e assistia numa quietude mansa às suas demonstrações de falso afecto e carinho.
Mas o Pedro era arteiro e tantas fez, tanto se insinuou, que a cadelita abeirou-se dele. Hesitante ao princípio, esquiva e sem…

"Quem queimou a língua, nunca esquece de soprar a sopa."- provérbio alemão

Imagem
Todos aguardavam o Verão de São Martinho. Certamente ele viria, como era costume todos os anos desde que os homens tinham consciência desse dia em que se assam as castanhas, se prova o vinho e, diz o povo, se mata o porco. Pelos vistos apenas o porco não deve apreciar muito o folgazão São Martinho...
Bem, todos esperavam o anunciado Verão, menos a Doroteia. Ela sabia que costumes e tradições à parte, o tempo é apenas tempo que passa e pouco mais. Nem calendários, nem lendas populares alteram uma vírgula que seja aos intentos do universo. Podem desmanchar-se os homens em preces e desfazerem-se as velhas beatas em ladainhas, que se não for para fazer sol, ele não surgirá no horizonte por muito que no calendário se grite que é São Martinho. A Doroteia olhava os preparativos para o magusto com o mesmo descaso com que observava os cães vadios que passavam todos os dias por baixo da sua janela. Deixá-los, pensava. Não era supersticiosa, nem crente. Costumava dizer de si mesma que não era n…

"Agora é tarde. A Maria é morta.

Imagem
Quando naquele dia a Maria Andrade da Silva saiu de casa sabia que ia morrer. Certo, dirão vocês. Todos sabemos que vamos morrer, e daí? Pois, mas a Maria sabia exactamente que aquele era o dia em que ia falecer. Como?? Porque ela mesma escolhera aquela data para se suicidar.
Era mais uma tarde em que a rua serpenteava languidamente frente aos olhos dos transeuntes. “Todos têm uma rua, a que chamam sempre sua…” Conhecem estes versos? São lindos! Mas para quem não tem nenhuma rua a que chame sua, podem ser os versos mais tristes do mundo. A Maria não tinha nenhuma rua que fosse sua de facto, mas em troca todas as ruas, ruelas e avenidas lhe tinham sido deixadas em herança. Se o pai ao desencarnar não lhe deixara testamento lavrado em cartório, deixara-lhe ao menos aquele gosto característico dos Andrade da Silva por passear, andar, caminhar. A Maria era uma passeante nata, e aquele era a rua aonde costumava passear nos últimos vinte anos.
O mais curioso foi que ninguém das suas relações …

Não me espreites por baixo da saia

Imagem
Não me espreites por baixo da saia. Nem tudo o que tenho é para mostrar. Se está tapado, É porque deve ficar reservado. Limites não existem apenas nos mapas de geografia.
Não me espreites por baixo da saia. Deixa que os folhos cubram o que é apenas de mim.
Que te interessa, Que te pode interessar a forma como respiro?
Nada sabes sobre quem sou! Nunca quiseste aprender de onde vim! Pouco te importa aonde vou. És incapaz de acompanhar o meu navegar. Então atém-te apenas ao que te dou, Aprende a respeitar.
O fogo que me queima no vento sul, A febre que me devora inteira, A urgência de ir, que é a minha bandeira… Tudo isso é só meu. Meu segredo interdito.
Não vou explicar-to! Não vou mostrar-to!
Fica na raia Contrabandista de sonhos! Não me espreites por baixo da saia.

Capitão Quintas (ex-combatente em Goa), RIP

Imagem
O Capitão Quintas veio maluco da guerra de Goa. Tresloucado, diziam. Doido varrido, Alucinado.
Cantava e declamava na rua. Enrolava cigarros que nunca fumava. Em vez de fumar, Punha-se a dançar.
Era um pândego!
Não trabalhava, Mas também como haveria de trabalhar? Uma parte dele ficara na Índia, Na terra quente de uma Goa distante.
Era um dos melhores amigos do meu pai. Um dos ódios de estimação da minha mãe.
Lembro-me de o ver. Estirado ao sol, cafrealizado, amulatado, um soldado cansado.
Eu gostava dele. Contava histórias diferentes, de elefantes, concubinas e marajás. Comia arroz com as mãos, almoçava sentado no chão.
Lembro-me bem... O meu pai de fato engomado, de sapatos engraxados. O Capitão Quintas sempre amarrotado, montado nuns tamancos desengonçados...
Velho e abandonado, persona non grata...