sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Não existe beleza nas mortes estúpidas



Não existe beleza nas mortes estúpidas.
Nem tem poesia quem se consome devagarzinho.
Charme, carisma, rebeldia e contestação estão ausentes do medo.
Quem se estraga lentamente apenas inspira pena, faz dó.

Respirar encolhido os fumos que o hão-de matar…
Ou escarafunchar numa veia cheia de tromboses um sitio para picar…
Virar copos, e despejar garrafas num embriagar insano sem cessar…
Não, não é grandioso.
É mesquinho, e é aviltante.
Não é sensual, não tem nada de excitante.

Não existe beleza nas mortes estúpidas.

Ser pouco inteligente não é mea culpa certamente.
Mas é diferente quando se escolhe ser inconsciente,
Andar à toa por entre a gente,
Cavar a sepultura alegremente.

Talvez alguém tenha dito que é bonito,
Que é elegante...
Mentia quem disse isso.
É tolo o que se pavoneia vaidoso,
Em poses de quem leva um estilo de vida perigoso.
Existe mais charme num caracol que passeia a casa às costas,
e é mais interessante ver um sapo a apanhar moscas.
É mais empolgante um peixe a comer minhocas.

Não existem mortes belas.
É sempre um mistério falecer,
Mas que não sejamos burros, brutos, broncos e estúpidos na forma de morrer.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Oração



Que sejamos felizes.
Todos nós felizes.
Que todos se dêem bem.
Todos bem.
Que ninguém chore, ou fique triste.
Ninguém triste.
Que…
Que…
O sono confundia as preces da menina pequenina.
E a menina cresceu.
Cresceu até aonde lhe permitia o seu metro e sessenta.
Mas no escuro de cada dia que finda,
A oração permanece a mesma:
Que sejamos felizes.
Todos nós felizes.
Todos?
São já outros os todos,
Porque os daquela altura já não fazem parte deste mundo.
E os de agora, tal como os de outrora, preferem ser tristes.
Preferem chorar.
Que…
Que…
É sono misturado com a confusão de quem não percebe a mente humana.
Um prado,
Um ribeiro manso,
Céu, sol, calor…
E flores, muitas flores.
Sonhas com o Paraíso…
Não.
Rezo.
Rezo a qualquer Deus que habite o Olimpo.
Que sejamos todos felizes.
Sonhas.
Peço, desejo, sinto.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Não sei valsar devagar



-Dás-me uma chance?
Ele não sabia, mas tudo o que ela fazia era dar-lhe chances. Novas oportunidades em cada momento que passava ao seu lado.
Se não acreditasse em dar chances, como ele dizia, já há muito que se tinha ido embora. Mas não. Ficava. Ficava porque se negava a acreditar nas evidências. Ficava porque ir embora fazia doer demais.
-Tens de confiar mais em mim.
Céus! Já ouvira essa frase antes. Tinha-a dito ele? Não… Outro antes dele, ou vários outros antes dele. Seca! Nem imaginação tinham!...


Laura e Bernardo nem sempre foram assim. Há muito tempo atrás tinham sido dois namorados iguais a outros tantos. Ou talvez não hajam namorados iguais. Quem sabe se o facto de nós confundirmos as demais pessoas numa mesma massa uniforme, não é afinal um pressuposto errado… É, quem sabe? Mas enfim, seguindo a história: Laura e Bernardo tinham-se conhecido da mesma forma como se conhecem milhares de casais no mundo. Tinham-se apaixonado, namorado, juntado, casado e todas as coisas acabadas em ado que possam fazer parte dos requisitos da vida em comum.


-Que dia é hoje?
- Segunda.
-E depois de segunda?
- Terça.
- E depois?
Assim até voltarem de novo à segunda.
- Vês que sabes? Linda menina!
Não podia deixar de pensar que de nada servia saber os dias da semana, nem as cores do mundo, nem contar até vinte. Decorar é apenas isso. Ter a capacidade de ser um papagaio. Queria antes levá-la pela mão, pegar-lhe ao colo apesar de ela ser já tão grande. Dar-lhe um beijinho.
- Gostas de mim?
- Gosto muito de ti.
E era mais uma frase do papagaio. Mas Deus!... Como era bom fazer de conta que ambas sabiam o que diziam!...


- Se um dia precisares de mim, já sabes aonde me encontrar.
Pois sim! Ainda que esse dia anunciado fosse logo a seguir àquele instante, devia ser verdade, devia!...
Mania que têm de querer fazer retiradas dignificantes…
Mas dizia sempre que sim, como se acreditasse. Porquê? Tinha pena de os desapontar, pensava que podiam ficar tristes.
-Não tens que ter pena desses parvalhões!!
Claro que não. Mas no fundo dos olhos de cada um, sempre um pedaço de criança assustada. Como ignorar isso? Logo ela que tinha sido uma menina tão solitária.


A mesma praia, o mesmo mar azul, o mesmo céu de perdição.
Passaram-se anos e ali estava ela de novo como antes.
Dizem que nos perdemos até chegarmos de volta ao nosso lugar.
E dizem que o nosso lugar é aonde penduramos o chapéu.
Ali não havia bengaleiro, nem chapéu, nem necessidade de pendurar nada.
Era só ela e o mar, o céu, a areia.
Podia deitar e dormir vestida.


- Ainda hás-de chorar lágrimas de sangue!
Louca, que não sabia o que dizia. E pode-se lá chorar sangue? Cuspir ainda vá, mas chorar?... Ora!
- E nem que me peças perdão à hora da morte, nem assim te hei-de perdoar!
Pedir perdão… Para quê, não é? Se estava a dizer que não queria perdoar…
- Vais ser a desgraça desta casa!
Pragas de mãe são danadas. Mesmo quando não resultam porque sim, resultam porque os filhos crescem a acreditar nelas.



Os destroços erguiam-se por toda a parte. Erguiam-se, ou jaziam, depende do ponto de vista.
- E nunca mais ninguém soube dele desde então.
Recordações misturadas com estilhaços de vidro, e com farrapos largados no chão.
Aqui e ali, lembranças de uma vida que tinha sido quase normal. Quase normal.
Não havia nada a dizer. Nunca há nada a dizer. Apenas coisas que ficam, depois que todas as outras se vão.


- A miúda disse: China, deixa as chaves!
Era o mesmo nome. Ele saía na mesma paragem de antes. Teria sensivelmente a mesma idade do China de há muito tempo atrás. Será?...
A mulher afundou os olhos no computador, receosa de ser reconhecida. Sim, porque ela estava ainda bonita, viçosa. Ele… Se é que era ele…
- Menino, estou-te a dizer, a cena é pegar ou largar.
A conversa de adolescente era igual. Mas agora saída dos lábios de alguém com cabelos brancos, rugas, falta de dentes. Credo! Aonde foram parar os dentes dele?
China… China… o rei da Damaia.
Ná. Os reis não descem tão baixo.
- Venho do tratamento.
Qual tratamento?
O cheiro… se ao menos conseguisse dar pelo cheiro. Ninguém no mundo cheirava como o China.


domingo, 1 de janeiro de 2017

Fotos de família


Eles já tinham ido. Todos eles já lá estavam. Olhou em seu redor, e as tabuletas frias nas pedras cinzentas falaram de tempos antigos, de choros, lágrimas, risos e gemidos de gozo,  soltados pelos que jaziam ali. Tirou mais uma fotografia.

-Quer ver uma foto da minha mãe?- e quando a pessoa desprevenida dizia que sim, logo a Deolinda retirava da bolsa plástica sarapintada de humidade uma fotografia colorida da campa da mãe.
- Bonita, não é? Também tenho do meu pai. Olhe esta do meu irmão… Que tal?- perante o olhar aterrorizado de quem acedera a ver as fotografias familiares, a Deolinda desfazia-se em elogios à qualidade do mármore, ao dourado excelente das letras, e até a decoração de cada campa lhe merecia menção especial.
- Também tenho outra com nós todos. Veja lá… Todos juntos.- e na fotografia surgia uma Deolinda plantada entre campas, lápides e molduras de rostos que já não fazem parte deste mundo.
- Somos uma família muito grande, você nem faz a ideia. Para a próxima vez, a ver se trago umas fotos dos parentes por parte do meu marido. Quer?- Resposta não havia, porque já a pessoa convencida de que falava com uma demente, fixava o olhar na  rua cheia de verde das giestas, e de castanho das terras lavradas.
Coitadinha da Deolinda. Velhinha e sempre tão só! Tão só que apenas os mortos lhe fazem companhia.

- Quer ver uma foto da minha menina?- e a passageira conhecedora do cortejo fúnebre diz determinadamente que não, obrigada.
Mas está linda, lavadinha! Tomara muitas pessoas estarem limpinhas como a minha menina. Ora veja lá…- resignada a outra olha para o fotografia nas mãos enrugadas da Deolinda. Não, desta vez não se trata de uma campa, pelo menos valha isso! Mas… é uma vaca! Talvez não bem uma vaca, antes uma vitela pois é pequenita.
- Não lhe disse? Gorda e anafada, toma banho todos os dias.
Pois claro, muito bonita, sim senhora! Ora dê-me licença que vou para aquele assento, está-me aqui a dar o sol de lado…

As bengalas atira-as para o chão a cada vez que entra na camioneta. –Estorvam? Se estorvarem alguém que façam o favor de mas apanhar. Eu já não posso das minhas costas... Bom dia! Quer ver fotografias?

Nos transportes de aldeia viajam personalidades tão ricas, quanto bizarras. Viaja a Deolinda das fotos, viaja toda a família que descansa em paz no local de aonde não se volta, e viaja a vitela. Todos tão bonitos, todos tão unidos. E nós, nós os que fugimos espavoridos da loucura que adivinhamos naqueles que nos são diferentes, que fazemos nós nas camionetas de aldeia? Porque razão a sanidade que nos faz tão presunçosos, não é suficiente para nos elevar às montanhas?- Já lhe mostrei a minha sogra? Tenho aqui uma foto dela, e da irmã do meu sogro…


Esta é a camioneta da Deolinda. Não apanhes boleia de estranhos… e dou por mim a pensar que devia ter trazido uma foto da minha mãe.