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A mostrar mensagens de Janeiro, 2017

Não existe beleza nas mortes estúpidas

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Não existe beleza nas mortes estúpidas. Nem tem poesia quem se consome devagarzinho. Charme, carisma, rebeldia e contestação estão ausentes do medo. Quem se estraga lentamente apenas inspira pena, faz dó.
Respirar encolhido os fumos que o hão-de matar… Ou escarafunchar numa veia cheia de tromboses um sitio para picar… Virar copos, e despejar garrafas num embriagar insano sem cessar… Não, não é grandioso. É mesquinho, e é aviltante. Não é sensual, não tem nada de excitante.
Não existe beleza nas mortes estúpidas.
Ser pouco inteligente não é mea culpa certamente. Mas é diferente quando se escolhe ser inconsciente, Andar à toa por entre a gente, Cavar a sepultura alegremente.
Talvez alguém tenha dito que é bonito, Que é elegante... Mentia quem disse isso. É tolo o que se pavoneia vaidoso, Em poses de quem leva um estilo de vida perigoso. Existe mais charme num caracol que passeia a casa às costas, e é mais interessante ver um sapo a apanhar moscas. É mais empolgante um peixe a comer minhocas.
Não existem morte…

Oração

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Que sejamos felizes. Todos nós felizes. Que todos se dêem bem. Todos bem. Que ninguém chore, ou fique triste. Ninguém triste. Que… Que… O sono confundia as preces da menina pequenina. E a menina cresceu. Cresceu até aonde lhe permitia o seu metro e sessenta. Mas no escuro de cada dia que finda, A oração permanece a mesma: Que sejamos felizes. Todos nós felizes. Todos? São já outros os todos, Porque os daquela altura já não fazem parte deste mundo. E os de agora, tal como os de outrora, preferem ser tristes. Preferem chorar. Que… Que… É sono misturado com a confusão de quem não percebe a mente humana. Um prado, Um ribeiro manso, Céu, sol, calor… E flores, muitas flores. Sonhas com o Paraíso… Não. Rezo. Rezo a qualquer Deus que habite o Olimpo. Que sejamos todos felizes. Sonhas. Peço, desejo, sinto.

Não sei valsar devagar

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-Dás-me uma chance? Ele não sabia, mas tudo o que ela fazia era dar-lhe chances. Novas oportunidades em cada momento que passava ao seu lado. Se não acreditasse em dar chances, como ele dizia, já há muito que se tinha ido embora. Mas não. Ficava. Ficava porque se negava a acreditar nas evidências. Ficava porque ir embora fazia doer demais. -Tens de confiar mais em mim. Céus! Já ouvira essa frase antes. Tinha-a dito ele? Não… Outro antes dele, ou vários outros antes dele. Seca! Nem imaginação tinham!...

Laura e Bernardo nem sempre foram assim. Há muito tempo atrás tinham sido dois namorados iguais a outros tantos. Ou talvez não hajam namorados iguais. Quem sabe se o facto de nós confundirmos as demais pessoas numa mesma massa uniforme, não é afinal um pressuposto errado… É, quem sabe? Mas enfim, seguindo a história: Laura e Bernardo tinham-se conhecido da mesma forma como se conhecem milhares de casais no mundo. Tinham-se apaixonado, namorado, juntado, casado e todas as coisas acabadas em a…

Fotos de família

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Eles já tinham ido. Todos eles já lá estavam. Olhou em seu redor, e as tabuletas frias nas pedras cinzentas falaram de tempos antigos, de choros, lágrimas, risos e gemidos de gozo,  soltados pelos que jaziam ali. Tirou mais uma fotografia.
-Quer ver uma foto da minha mãe?- e quando a pessoa desprevenida dizia que sim, logo a Deolinda retirava da bolsa plástica sarapintada de humidade uma fotografia colorida da campa da mãe. - Bonita, não é? Também tenho do meu pai. Olhe esta do meu irmão… Que tal?- perante o olhar aterrorizado de quem acedera a ver as fotografias familiares, a Deolinda desfazia-se em elogios à qualidade do mármore, ao dourado excelente das letras, e até a decoração de cada campa lhe merecia menção especial. - Também tenho outra com nós todos. Veja lá… Todos juntos.- e na fotografia surgia uma Deolinda plantada entre campas, lápides e molduras de rostos que já não fazem parte deste mundo. - Somos uma família muito grande, você nem faz a ideia. Para a próxima vez, a ver se …