sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 1 de janeiro de 2017

Fotos de família


Eles já tinham ido. Todos eles já lá estavam. Olhou em seu redor, e as tabuletas frias nas pedras cinzentas falaram de tempos antigos, de choros, lágrimas, risos e gemidos de gozo,  soltados pelos que jaziam ali. Tirou mais uma fotografia.

-Quer ver uma foto da minha mãe?- e quando a pessoa desprevenida dizia que sim, logo a Deolinda retirava da bolsa plástica sarapintada de humidade uma fotografia colorida da campa da mãe.
- Bonita, não é? Também tenho do meu pai. Olhe esta do meu irmão… Que tal?- perante o olhar aterrorizado de quem acedera a ver as fotografias familiares, a Deolinda desfazia-se em elogios à qualidade do mármore, ao dourado excelente das letras, e até a decoração de cada campa lhe merecia menção especial.
- Também tenho outra com nós todos. Veja lá… Todos juntos.- e na fotografia surgia uma Deolinda plantada entre campas, lápides e molduras de rostos que já não fazem parte deste mundo.
- Somos uma família muito grande, você nem faz a ideia. Para a próxima vez, a ver se trago umas fotos dos parentes por parte do meu marido. Quer?- Resposta não havia, porque já a pessoa convencida de que falava com uma demente, fixava o olhar na  rua cheia de verde das giestas, e de castanho das terras lavradas.
Coitadinha da Deolinda. Velhinha e sempre tão só! Tão só que apenas os mortos lhe fazem companhia.

- Quer ver uma foto da minha menina?- e a passageira conhecedora do cortejo fúnebre diz determinadamente que não, obrigada.
Mas está linda, lavadinha! Tomara muitas pessoas estarem limpinhas como a minha menina. Ora veja lá…- resignada a outra olha para o fotografia nas mãos enrugadas da Deolinda. Não, desta vez não se trata de uma campa, pelo menos valha isso! Mas… é uma vaca! Talvez não bem uma vaca, antes uma vitela pois é pequenita.
- Não lhe disse? Gorda e anafada, toma banho todos os dias.
Pois claro, muito bonita, sim senhora! Ora dê-me licença que vou para aquele assento, está-me aqui a dar o sol de lado…

As bengalas atira-as para o chão a cada vez que entra na camioneta. –Estorvam? Se estorvarem alguém que façam o favor de mas apanhar. Eu já não posso das minhas costas... Bom dia! Quer ver fotografias?

Nos transportes de aldeia viajam personalidades tão ricas, quanto bizarras. Viaja a Deolinda das fotos, viaja toda a família que descansa em paz no local de aonde não se volta, e viaja a vitela. Todos tão bonitos, todos tão unidos. E nós, nós os que fugimos espavoridos da loucura que adivinhamos naqueles que nos são diferentes, que fazemos nós nas camionetas de aldeia? Porque razão a sanidade que nos faz tão presunçosos, não é suficiente para nos elevar às montanhas?- Já lhe mostrei a minha sogra? Tenho aqui uma foto dela, e da irmã do meu sogro…


Esta é a camioneta da Deolinda. Não apanhes boleia de estranhos… e dou por mim a pensar que devia ter trazido uma foto da minha mãe.

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