sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Não sei valsar devagar



-Dás-me uma chance?
Ele não sabia, mas tudo o que ela fazia era dar-lhe chances. Novas oportunidades em cada momento que passava ao seu lado.
Se não acreditasse em dar chances, como ele dizia, já há muito que se tinha ido embora. Mas não. Ficava. Ficava porque se negava a acreditar nas evidências. Ficava porque ir embora fazia doer demais.
-Tens de confiar mais em mim.
Céus! Já ouvira essa frase antes. Tinha-a dito ele? Não… Outro antes dele, ou vários outros antes dele. Seca! Nem imaginação tinham!...


Laura e Bernardo nem sempre foram assim. Há muito tempo atrás tinham sido dois namorados iguais a outros tantos. Ou talvez não hajam namorados iguais. Quem sabe se o facto de nós confundirmos as demais pessoas numa mesma massa uniforme, não é afinal um pressuposto errado… É, quem sabe? Mas enfim, seguindo a história: Laura e Bernardo tinham-se conhecido da mesma forma como se conhecem milhares de casais no mundo. Tinham-se apaixonado, namorado, juntado, casado e todas as coisas acabadas em ado que possam fazer parte dos requisitos da vida em comum.


-Que dia é hoje?
- Segunda.
-E depois de segunda?
- Terça.
- E depois?
Assim até voltarem de novo à segunda.
- Vês que sabes? Linda menina!
Não podia deixar de pensar que de nada servia saber os dias da semana, nem as cores do mundo, nem contar até vinte. Decorar é apenas isso. Ter a capacidade de ser um papagaio. Queria antes levá-la pela mão, pegar-lhe ao colo apesar de ela ser já tão grande. Dar-lhe um beijinho.
- Gostas de mim?
- Gosto muito de ti.
E era mais uma frase do papagaio. Mas Deus!... Como era bom fazer de conta que ambas sabiam o que diziam!...


- Se um dia precisares de mim, já sabes aonde me encontrar.
Pois sim! Ainda que esse dia anunciado fosse logo a seguir àquele instante, devia ser verdade, devia!...
Mania que têm de querer fazer retiradas dignificantes…
Mas dizia sempre que sim, como se acreditasse. Porquê? Tinha pena de os desapontar, pensava que podiam ficar tristes.
-Não tens que ter pena desses parvalhões!!
Claro que não. Mas no fundo dos olhos de cada um, sempre um pedaço de criança assustada. Como ignorar isso? Logo ela que tinha sido uma menina tão solitária.


A mesma praia, o mesmo mar azul, o mesmo céu de perdição.
Passaram-se anos e ali estava ela de novo como antes.
Dizem que nos perdemos até chegarmos de volta ao nosso lugar.
E dizem que o nosso lugar é aonde penduramos o chapéu.
Ali não havia bengaleiro, nem chapéu, nem necessidade de pendurar nada.
Era só ela e o mar, o céu, a areia.
Podia deitar e dormir vestida.


- Ainda hás-de chorar lágrimas de sangue!
Louca, que não sabia o que dizia. E pode-se lá chorar sangue? Cuspir ainda vá, mas chorar?... Ora!
- E nem que me peças perdão à hora da morte, nem assim te hei-de perdoar!
Pedir perdão… Para quê, não é? Se estava a dizer que não queria perdoar…
- Vais ser a desgraça desta casa!
Pragas de mãe são danadas. Mesmo quando não resultam porque sim, resultam porque os filhos crescem a acreditar nelas.



Os destroços erguiam-se por toda a parte. Erguiam-se, ou jaziam, depende do ponto de vista.
- E nunca mais ninguém soube dele desde então.
Recordações misturadas com estilhaços de vidro, e com farrapos largados no chão.
Aqui e ali, lembranças de uma vida que tinha sido quase normal. Quase normal.
Não havia nada a dizer. Nunca há nada a dizer. Apenas coisas que ficam, depois que todas as outras se vão.


- A miúda disse: China, deixa as chaves!
Era o mesmo nome. Ele saía na mesma paragem de antes. Teria sensivelmente a mesma idade do China de há muito tempo atrás. Será?...
A mulher afundou os olhos no computador, receosa de ser reconhecida. Sim, porque ela estava ainda bonita, viçosa. Ele… Se é que era ele…
- Menino, estou-te a dizer, a cena é pegar ou largar.
A conversa de adolescente era igual. Mas agora saída dos lábios de alguém com cabelos brancos, rugas, falta de dentes. Credo! Aonde foram parar os dentes dele?
China… China… o rei da Damaia.
Ná. Os reis não descem tão baixo.
- Venho do tratamento.
Qual tratamento?
O cheiro… se ao menos conseguisse dar pelo cheiro. Ninguém no mundo cheirava como o China.


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