sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Is anybody out there?



Alguém me ouve?
Existe alguém aí desse lado?
Será que sou sozinha,
E esta solidão é só minha,
Ou há mais como eu?...

Outras pessoas sentem como eu sinto?
A incerteza, o medo e o frio na alma,
Atingem outros seres pensantes?...

Às vezes feliz,
Às vezes negra como as trevas.

Com a insuportável mania de sempre acreditar.
Teimosamente à frente de um pelotão,
Assustada como um rato de esgoto.

Prima dona da fantasia.
Fotografia numa manhã fria.

Preto e branco de nevoeiro.
Dourada como a areia da praia.
Colada a cuspo,
Sempre acrescentada.

Será que passa com o tempo?
Será que com o tempo isto passa?

Aonde um chão que seja meu?
Aonde moram os outros que estão de pernas para o ar?
Antípodas num globo arredondado…
Somos um povo estranho disfarçado,
Ou sou um projecto inacabado?
Um esboço a solo, e errado?

Que idioma falam os iguais a mim?
Quais as nações aonde habitam,
Em que selvas se escondem?

Às vezes farejo-os no ar…
Viro-me e olho, e é só o vento a passar.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

"Só é seu aquilo que você dá" *



- Degolei teu pai, e violei a tua velha mãe. Estrangulei os teus irmãos. Queimei o teu gado, e deitei fogo à tua casa.- Vociferava com o rosto encardido quase encostado ao dela. Enfurecido retorcia os olhos sedentos de sangue e de  luxúria.- E então? Rendes-te?
- Nunca.
- Percebes que tenho total poder de vida ou morte sobre ti, miserável criatura? Compreendes que nada daquilo que amavas existe já?- No auge da raiva arrancava punhados de cabelos da própria cabeça, e esbracejava enlouquecido.
- Enganas-te.
- Engano-me? Como ousas argumentar comigo? Tudo o que fiz não foi suficiente para te convencer da minha superioridade?
- Quando fecho os olhos continuo a vê-los a todos. Quando fecho os olhos estou ainda na minha casa, na minha terra, perto da minha família.
- Pois se é assim, arrancar-te-ei os olhos!- Nunca antes alguém se atrevera a desafiá-lo de tal maneira, e durante tanto tempo.
- Não preciso destes olhos que vês, para olhar dentro de mim. Não duvido que me arranques os olhos, és capaz disso, sei-o bem. Fica contudo sabendo que mesmo cega, continuarei a enxergar cada milímetro daquilo que pensas que me tiraste.
- Deliras! Ninguém tem tal dom!
- O meu coração não necessita de olhos. A minha recordação, e a minha lembrança, dão vida a todos que mataste, dão cor a tudo que me tiraste. Na verdade, não conseguiste tirar-me nada. Nem tu, nem homem algum tem como o fazer.
- Coração? Falas de ver com o coração? Esqueces que o coração também pára de bater! O teu só baterá enquanto eu o determinar, pois está em minhas mãos tirar-to do peito com a ponta da minha faca, assim que me aprouver fazê-lo. Rendes-te?- E assim falando desembainhava já o punhal ensanguentado das vítimas recentes.
- Mata-me, se queres. És maior, mais forte. Não tenho como te impedir.- Alargou o decote, e expôs o peito alvo ao brilho da faca. Os seios belos e fartos palpitavam enquanto falava, num frenesim de agitação, e de orgulho.- Mas fica sabendo que morro sem me render a ti! E morro tão livre como sempre fui. Só terás o meu cadáver frio em teus braços, e apenas poderás afogar a tua perversidade, na frieza do meu corpo sem vida.
- Ah cadela, que te mato já agora!-  avançava desvairado para ela. Ela fechou os olhos, e apenas sorriu.

Não existe poder maior do que aquele que temos em nós. Enquanto quisermos resistir, não temos como nos render. Palavras são só sons desarticulados que saem dos lábios, e nem sempre significam aquilo que parecem dizer.
O que sentimos é imortal, porque a imortalidade dura o tempo em que vivermos. Ninguém nos pode roubar as recordações, as saudades, as lembranças. Enquanto recordarmos, somos senhores de tudo o que entendermos.


Por isso quando me dizem que a minha terra já não existe, eu rio-me e sei que ela está lá, como sempre esteve, à minha espera. Tudo o que eu mais amava vive, e viverá para sempre, enquanto existir mundo e gente sobre o chão terreno.

Homens, mulheres e crianças podem ser violados na carne e na alma, torturados, aprisionados, ou até mortos. Casas, quintas e terrenos podem ser invadidos, saqueados, queimados, ou mudados de dono. Mas pessoa alguma é capaz de apagar o sol. Não há quem consiga vazar oceanos, esconder estrelas, ou secar a cacimba que fica de manhãzinha no capim à beira da estada. Ninguém sabe como calar os grilos.

* "Só é seu aquilo que você dá", verso de um dos poemas de Arnaldo Antunes.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Chapéu e gabardina...




O chapéu…
A gabardina
Ele.
De novo, e outra vez.
Calmo e tranquilo,
Porque sempre dizia que saber esperar é uma virtude.

Uma sentinela levantada do além,
Um corpo sem matéria,
Fantasma ou espectro da minha vida.
Queria a mão dele na minha, como quando eu era pequenina.
E queria a vastidão dos seus passos ao meu lado outra vez.

Passava entre um painel de vidro e outro…
Esperava, ia embora novamente.

Como é que alguém tão vivo pôde morrer por tanto tempo?

Olha, olha pra baixo…
Vê-me, e deixa que te veja…

Mas o fato era de uma cor diferente,
Não usava gravata,
E a pele não lembrava o aconchego do café.

Pois claro que não podia ser ele!

O que combinámos no bolor de uma caverna sem calor,
Naquelas longas tertúlias nocturnas longe de casa,
É que ele aparecia, e eu sabia, reconhecia.

Quando me perguntam se acredito em vida depois da vida,
Eu digo que não, tal coisa não deve haver.
Pois ele nunca voltou, nunca veio para me ver.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Para aonde vão as crianças felizes?



Para aonde vão as crianças quando saem da escola?
Quem as acolhe,
Aonde moram elas?

Riem e saltam,
Conversam e pulam.
Para aonde vão?

Porquê tanto entusiasmo por acabarem as aulas?
À medida que se aproximam do destino,
Será que a alegria diminui?

Fazem menos barulho porque estão já cansadas?
Ou porque ninguém espera do outro lado da porta?

Só o inferno aguarda algumas delas.
Porque são tão alegres afinal?
Como conseguem?

Mais um dia termina para as crianças que saem da escola.
Na manhã seguinte lá estarão ansiosas à espera.
Esperam o toque libertador…
Talvez temam que o tempo passe depressa…

São traquinas, ou são medrosas?
Frágeis, etéreas e delicadas.
São valentes, ou são apenas aprendizes?
Sementes danadas.
Parirão gigantes barbudos e feios,
Com verrugas nos narizes.

E as tuas crianças, para aonde vão quando saem da escola?
O que as espera?
Serão felizes?

Não me dizes?...