sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 30 de março de 2017

Pobre ser complicado



Não sei porque te percebo quando mais ninguém percebe.
Nem sei como vejo em ti, coisas que são segredo.

Se vives no escuro,
Como é que os meus olhos te distinguem nas trevas?

E se não tens luz,
Como é que conheço as tuas guerras?

Sabes… às vezes tenho medo.
Tenho receio.

Temo que não estejas tão longe como penso.
Temo que sejamos mais parecidos do que espero.

Diz-me,
O que sentes quanto te beijo?

És tu que trazes o frio,
Ou sou eu que não me vejo?

Se fugir de ti, vivo ou morro?

Se te fores, será que me deixo?

segunda-feira, 27 de março de 2017

Sad smile



A Marília é uma mulher deliciosa.
Sempre o foi, desde que a conheço, e tenho a sorte de a conhecer há um bom par de anos.
Algumas pessoas diriam sobre ela, que é uma verdadeira força da natureza.
Tão depressa as gargalhadas lhe saem da boca, como as lágrimas lhe escorrem dos olhos.
É capaz de vibrar intimamente com coisas que deixam completamente indiferentes a maioria de nós.
Gosto dela desde o inicio.

Porém, a Marília tem um problema.
A sua forte emotividade provoca com frequência discussões em casa.
O marido, e os filhos nem sempre reagem da melhor forma à explosão de energia que têm por perto.
Os períodos de alegria são facilmente toleráveis, mas já os de tristeza originam fortes apreensões nos seus familiares.
Incomoda não é, a gente sentir-se perto de alguém que sofre?...

Estive um período de tempo sem ver a Marília.
Quando a reencontrei parecia outra pessoa.
Já não chorava, é certo.
Não cedia aos costumeiros momentos de depressão contemplativa que eu estava habituada a conhecer nela.
Mas também já não ria.
Tinha esquecido como rir.
Parecia-se com uma tela desbotada dela mesma.
Sem cores, sem alegria.

Permaneceu indiferente durante quase todo o tempo em que estive com ela.
Recordei as nossas tardes animadas de café e conversas.
Apeteceu-me abaná-la para trazer de volta a minha amiga.

Quando a deixei no seu local de trabalho, deparei-me com um dos irmãos.
Estava deliciado com a mudança operada na Marília.
- Acabaram-se os choros, as mágoas, os silêncios desesperantes.
- Sim, mas o que foi feito da mulher flamejante que conheci?
- Isso era a doença. Está medicada. Está tratada.
E despediu-me com o receio latente de que eu viesse despertar a bela adormecida.

Será?
Será que devemos entorpecer quem nos incomoda?
Assiste-nos o direito de, para nosso benefício transformar a personalidade dos outros?

A Marília nunca mais chorou.
Nunca mais riu.
Lá em casa vive-se em paz, dizem.

E dei por mim a bendizer a minha loucura, e os meus desvarios.
Dei por mim a amar a falta de coerência que sempre me caracterizou, e que é o meu sal e a minha pimenta.

E que saudades da Marília!!

sexta-feira, 24 de março de 2017

O cantinho da velha


Tu,
Que estás aí,
Agachada num canto escuro da minha mente.

Tu,
Que vestes farrapos,
E tens unhas como garras, e cabelos brancos desgrenhados.

Tu,
Que tens medo,
E te sentes assustada e sozinha.

Vem.

Não te faço mal.

Quero agradecer-te por todos estes anos
Em que cuidaste de mim.

Ficaste coberta de feridas sanguinolentas,
E marcada por cicatrizes enquanto me defendias.

Que importa se eram só ilusões,
Se conspiravas fantasias?

Obrigada.

Não sei se sou capaz de viver sem ti.
Não sei.

Mas vou tentar.

Um dia deixei-me sentada e pequenina,
E fiquei à espera de me ir buscar.

Hoje solto-te da mão,
Mas levo-te no meu andar.

Reunir todas três,
Quem sabe?...
Eu nela, em ti e em mim.

Sou-te demais para me abandonar. 


segunda-feira, 20 de março de 2017

Os ganchos dos teus cabelos


Não és tu quem escolhe os ganchos do teu cabelo.
Nem o corte, a altura, ou a forma de o segurar.
Tanto te faz se vestes calças, ou saia, vestido ou calções.
Os sapatos podem ser chinelos, sandálias, ou outros sem tacões.

Ignoras se estamos no Verão, se no Inverno.
Nem sabes que existe mudança de estações.
Março, Maio ou Dezembro não passam de insignificantes palavrões.

Se estás em Portugal, Moçambique, Austrália ou Canadá,
Para ti é igual, tanto te faz.
Os governos podem ser de direita, esquerda ou radicais,
Os homens podem digladiar-se nas ruas,
Os exércitos comportarem-se como seres infernais,
Tu estás sempre em paz.

Anos chegam e vão, sem notares.
Um beijinho, um abraço,
Um tanto que dizes, mesmo sem falares.

Dinheiro?
Profissão?
Namorados, estudos, e outros assuntos complicados?
O que é ?
De que vale tudo isso?
És um rio manso que corre sem parar.

Perdoa filha linda,
Porque houve uma época em que eu te quis mudar.

Hoje sei que nada importa mais do que o verde fundo do teu olhar.

Cortaram-te as tranças,
Dizem que não és mais criança,
Que sabem eles todos?
Não existe termo para te classificar.

sábado, 11 de março de 2017

No tempo em que os animais falavam


“- Querida, não assustes os passarinhos!...”
Irrequieta, a menina corria atrás dos pombos mulatos que invadiam a praça.
Maiores ou mais pequenos, todos batiam asas e esvoaçavam incomodados.

“- Deixa os pombinhos sossegados!”
As gargalhadas infantis cortavam o silêncio da tarde de quase Primavera.

Eram dezenas as aves que se passeavam naquele dia.
Se fosse possível escutarmos o que pensavam,
Que seria feito da nossa ilusão de passarinhos e pombinhos,
Lindinhos e pequeninos?...

O pombo macho de peito inchado atarefa-se atrás de uma fêmea.
Dança para cá, dança para lá…
Se te apanho! Anda cá, minha grande figurona!
E já a pomba enfastiada do assédio se mistura na turbe dos outros pássaros.
Se me quiser venha atrás! Julga que não o vejo rondando todas as outras!

Lá mais à frente são três os pardais em volta de um só pedaço de bolo.
Larga! É meu! Cheguei primeiro!
Pois então vem tirar, vem se és capaz!
Passa mas é para cá isso!
Bicada aqui, bicada ali, e as coisas azedam entre patadas e saltos desajeitados.

Do outro lado estão as gaivotas.
Enormes na sua pose de sentinelas do ar.
Ladras de primeira, conseguem sempre os melhores lugares,
Os melhores pedaços de comida.
Não é tão bom quanto peixe, mas tem que servir…
Fala menos e faz mais. Temos que enxotar daqui os pombos de vez.
São pequenos, não valem nada para a luta.
Mas comem que se fartam!
Fica de olho nos pardais.

“- Assim és uma má menina! Fizeste os passarinhos fugir!”
Agora de mão dada com a mãe, a menina resmunga contrariada.
“- Mas mamã, eu só queria brincar com eles. São tão bonitos e engraçados!…”

Não calculamos,
não imaginamos o que se passa na cabeça dos pássaros de jardim.
Dantes, no tempo em que os animais falavam…
Eles já não falam hoje em dia.
E nós, nós vivemos para sempre no era uma vez.