sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 11 de março de 2017

No tempo em que os animais falavam


“- Querida, não assustes os passarinhos!...”
Irrequieta, a menina corria atrás dos pombos mulatos que invadiam a praça.
Maiores ou mais pequenos, todos batiam asas e esvoaçavam incomodados.

“- Deixa os pombinhos sossegados!”
As gargalhadas infantis cortavam o silêncio da tarde de quase Primavera.

Eram dezenas as aves que se passeavam naquele dia.
Se fosse possível escutarmos o que pensavam,
Que seria feito da nossa ilusão de passarinhos e pombinhos,
Lindinhos e pequeninos?...

O pombo macho de peito inchado atarefa-se atrás de uma fêmea.
Dança para cá, dança para lá…
Se te apanho! Anda cá, minha grande figurona!
E já a pomba enfastiada do assédio se mistura na turbe dos outros pássaros.
Se me quiser venha atrás! Julga que não o vejo rondando todas as outras!

Lá mais à frente são três os pardais em volta de um só pedaço de bolo.
Larga! É meu! Cheguei primeiro!
Pois então vem tirar, vem se és capaz!
Passa mas é para cá isso!
Bicada aqui, bicada ali, e as coisas azedam entre patadas e saltos desajeitados.

Do outro lado estão as gaivotas.
Enormes na sua pose de sentinelas do ar.
Ladras de primeira, conseguem sempre os melhores lugares,
Os melhores pedaços de comida.
Não é tão bom quanto peixe, mas tem que servir…
Fala menos e faz mais. Temos que enxotar daqui os pombos de vez.
São pequenos, não valem nada para a luta.
Mas comem que se fartam!
Fica de olho nos pardais.

“- Assim és uma má menina! Fizeste os passarinhos fugir!”
Agora de mão dada com a mãe, a menina resmunga contrariada.
“- Mas mamã, eu só queria brincar com eles. São tão bonitos e engraçados!…”

Não calculamos,
não imaginamos o que se passa na cabeça dos pássaros de jardim.
Dantes, no tempo em que os animais falavam…
Eles já não falam hoje em dia.
E nós, nós vivemos para sempre no era uma vez.


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