sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 27 de março de 2017

Sad smile



A Marília é uma mulher deliciosa.
Sempre o foi, desde que a conheço, e tenho a sorte de a conhecer há um bom par de anos.
Algumas pessoas diriam sobre ela, que é uma verdadeira força da natureza.
Tão depressa as gargalhadas lhe saem da boca, como as lágrimas lhe escorrem dos olhos.
É capaz de vibrar intimamente com coisas que deixam completamente indiferentes a maioria de nós.
Gosto dela desde o inicio.

Porém, a Marília tem um problema.
A sua forte emotividade provoca com frequência discussões em casa.
O marido, e os filhos nem sempre reagem da melhor forma à explosão de energia que têm por perto.
Os períodos de alegria são facilmente toleráveis, mas já os de tristeza originam fortes apreensões nos seus familiares.
Incomoda não é, a gente sentir-se perto de alguém que sofre?...

Estive um período de tempo sem ver a Marília.
Quando a reencontrei parecia outra pessoa.
Já não chorava, é certo.
Não cedia aos costumeiros momentos de depressão contemplativa que eu estava habituada a conhecer nela.
Mas também já não ria.
Tinha esquecido como rir.
Parecia-se com uma tela desbotada dela mesma.
Sem cores, sem alegria.

Permaneceu indiferente durante quase todo o tempo em que estive com ela.
Recordei as nossas tardes animadas de café e conversas.
Apeteceu-me abaná-la para trazer de volta a minha amiga.

Quando a deixei no seu local de trabalho, deparei-me com um dos irmãos.
Estava deliciado com a mudança operada na Marília.
- Acabaram-se os choros, as mágoas, os silêncios desesperantes.
- Sim, mas o que foi feito da mulher flamejante que conheci?
- Isso era a doença. Está medicada. Está tratada.
E despediu-me com o receio latente de que eu viesse despertar a bela adormecida.

Será?
Será que devemos entorpecer quem nos incomoda?
Assiste-nos o direito de, para nosso benefício transformar a personalidade dos outros?

A Marília nunca mais chorou.
Nunca mais riu.
Lá em casa vive-se em paz, dizem.

E dei por mim a bendizer a minha loucura, e os meus desvarios.
Dei por mim a amar a falta de coerência que sempre me caracterizou, e que é o meu sal e a minha pimenta.

E que saudades da Marília!!

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