sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Amor é...



Não ralhem, não gritem!
Lembrem-se de quando eram felizes.

Um casal já avançado na idade discutia acaloradamente, no meio da rua. Não cheguei a perceber de que se tratava, mas ele abanava energicamente a cabeça, sacudia as mãos e resmungava. Ela, gritava e vociferava.
Pus-me a pensar: Já foram jovens um dia. Namoraram, sorriram, sonharam… Como chegaram ao ponto triste de estarem assim, de costas viradas um para o outro? O que fizeram dos bancos de jardim, o que fizeram dos cinemas ao fim da tarde? Para aonde foi tudo?

Não somos diferentes desse casal, eu e os que passavam, olhavam e reprovavam num encolher de ombros. Também nós tantas vezes esquecemos. Esquecemos do que somos, do que fomos, do que queríamos ter vindo a ser.
Fazemos vida de gente crescida, e guardamos o amor na sacola. Junto com ele as ilusões, a inocência e a fantasia. Ficamos a sós com a realidade que é feia, cinzenta, no melhor dos casos. E quando damos por nós, estamos assim, a discutir no meio da rua. Quase a morder de raiva alguém que já nos foi tudo.

Porquê?
Se soubéssemos que ia ser assim, se soubéssemos que íamos ser assim…

Os nossos pais ralhavam, gritavam, mas eram de outro tempo. Eram eles. Cheios de defeitos aos nossos olhos de adolescentes. Não sabiam nada. Nós não! Nós íamos mudar o mundo. Ser diferentes. Íamos, mas não mudámos nada, a não ser os nomes e as caras.

Hoje são os nossos filhos que criticam, e supõem facilidades num universo que nunca existiu a não ser na cabeça da gente nova, nas cabeças vazias. Mas vai chegar a vez deles, também um dia. E vão estar no lugar daquele casal de idade avançada, que gritam e ralham no meio da rua. E vão-nos desculpar um pouco mais, a cada nova discussão. Pena que já cá não estaremos, assim como não estão aqueles a quem hoje pedimos perdão.

E o mundo vai girar como um carrossel ensandecido, e os casais vão continuar a discutir sem sentido. O amor, esse, achado e perdido, num departamento escondido.
Tanto sonho, tanto plano, tanto tudo, assim perdido.


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