sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Filha de pai velho



Sou filha de pai velho.
Nunca conheci o meu pai novo.
Creio mesmo que ele ficou idoso, antes de envelhecer.

Na escola, as outras crianças pensavam que era meu avô,
E eu que nunca tive avós,
Mortos todos bem antes de eu nascer,
Achava graça a essas parecenças.

Sempre me lembro dele com um andar cansado.
Cabelos que seriam grisalhos.
Gostava de contar histórias antigas, e crónicas de família…

O que ele sabia!
Tanta coisa que o meu pai sabia!

Eu apareci quando ele já ensaiava uma velhice que julgava tranquila.
E nunca mais saí da sua vida.
Dava-me a mão para atravessar a estrada, até mesmo depois de eu já usar salto alto, e saia travada.
Acho que me segurava para ele mesmo não se perder.

Via-me ainda menina de colo, e já eu namorava os rapazes, descarada.
E contava-me filmes de terror, nas nossas noites de caverna e bolor.

E as bebidas frescas, com nome que lembrava a nossa terra negra!...
Terra de nós dois.
E as batatas fritas, amendoins e cajus…
E o que andávamos depois!...

Meu papá de fato e gravata,
E cara bem barbeada.

Meu pai que nunca foi novo.
Que me ensinava inglês, e francês.
Paizinho,
Vem passear comigo outra vez…
Prometo que ando devagarinho.
Prometo que falo baixinho.
Preciso que me ensines tantos porquês.


Sem comentários:

Enviar um comentário