sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 1 de abril de 2017

Nunca se ama um artista



-Sou um artista, caramba!
Sempre o tinha afirmado, e nunca se arrependia disso.
Por isso escolhera uma vida diferente dos demais.
Por ser um artista, a Maria que amara ficou para trás.
Porque era um homem de artes,
Escoava o tempo mergulhado em fantasias e irrealidades.
Mas era feliz no seu caos.
Nada de pirralhos ranhosos pendurados na bainha das calças,
Nada de contas para pagar ao fim do mês,
Nem dores de cabeça com ciúmes,
Nem um aconchego quente nas noites frias…
-Que se dane tudo isso! Sou um artista!

- Sou um artista, caramba!
E era! Ou tinha sido… nem sabia bem.
Mas desistira dos sonhos.
Assumira as suas responsabilidades como um homem.
Quando a Maria lhe apareceu de barriga, casara-se com ela.
E vieram mais três miúdos…
Agora tinha os netos…
A Maria, já velhota.
E ele…
Reformado, esgotado, chupado até às carochas.
Resmas de manuscritos encostados à parede.
-Não deitem fora, que não é lixo! Sou um artista!

E as duas Marias, cada qual na sua vida
Aceitam, seguem e cumprem o destino de mulher escolhida.
Uma, a abandonada.
Outra, a resignada.
Duas numa só, Mulher traída.

Meninas, não se deve nunca amar um artista.
Nem aquele que vai, nem aquele que fica.


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