sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Um porta moedas do tamanho do mundo



-Precisas de dinheiro?
E remexia nas moedas do velho porta moedas, com um sorriso inocente, na alegria genuína de ter. Era bem velhinho. Usava uma boina tão gasta!... Tinha cabelos brancos como farinha de fazer bolos.
A mulher que estava com ele era bem mais nova. Filha, ou neta talvez…
-Não, obrigada. Tenho que chegue.
-Vê lá! Tu vê lá…
E entreabria de novo o porta moedas. Feliz, com um sorriso bondoso na boca quase sem dentes.
Quanto teria ele na sua carteira? De quanto seria a sua reforma? Poderia de facto oferecer assim, generosamente?
Pensei nos velhinhos do nosso país que se arrastam em dias de fome, e de magreza, contando tostões, poupando o que mal chega para comer.
E pensei também na alegria que sentem quando podem oferecer a uma filha, a uma neta.
Às vezes oferecem tostões, porque de tostões é feita toda a sua fortuna.
E em silêncio enderecei uma prece de agradecimento àquela mulher ainda nova, que disse que não com um sorriso amigo.
Ele contente fechou o porta moedas.
A camioneta estava a chegar, e lá foram os dois.
O velhinho de cabelos brancos como farinha de fazer bolos, e a mulher ainda nova. Filha, ou neta talvez…
O maior tesouro é esse, termos alguém que nos oferece sem nada ter, sabermos dizer que não, sem ofender.
E entre amor e sorrisos, continuarmos a viver.


Sem comentários:

Enviar um comentário