sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Vêm os bêbados todos para a rua



Dez da noite, e as tabernas fecham.
Vêm os bêbados todos para a rua.

Dez da noite, e em muitas casas há fechaduras que giram.
Pés que se atrapalham num não conseguir caminhar.
Braços que pesam toneladas, que não se conseguem cruzar.

Dez da noite, e os móveis soltos vão de rojo,
Porque o vinho é cego,
E os ébrios são toscos.

Dez da noite, e os bêbados todos na rua.

Nos meus pesadelos pés caminham descalços,
Por cima de cacos de vidro e canecas partidas.
As corujas piam numa estrada aonde já não existem pirilampos,
Nem caracóis.
E o relógio bate tristemente as badaladas da falta de luar,
Da falta de aconchego,
De tanta coisa feia, escura.

Dez da noite, e os anos rolam sempre iguais,
E os taberneiros, esses são velhas putas pontuais.

Os golos de vinho queimam as gargantas,
E matam as vontades.
E as lágrimas que rolam não são de sal,
Mas de álcool etílico que tresanda.

Olhos espreitam nos quintais, olhos espreitam nas varandas.
Vem, não vem…
Virá, não virá…

Bêbados, bêbados na rua.
Tantos!
E os sonhos descem aos tombos, de braço dado com o vomitado,
De pernas abertas na calçada.
A calçada é uma dama nua.

Pena!
Tanta pena do que vejo!...
Fecham as tabernas,
Acaba o desejo.
Fecha-se o tempo na dobra da lua.


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